Fiquei um tempão no banheiro, vendo as meninas entrarem e saírem. Enquanto eu chorava baixinho, de raiva e frustração.
Até ouvir uma batida na porta:
— Rafa? — Samanta, uma das minhas melhores amigas na faculdade, me chamou.
— Oi, Sam — respondi fungando.
— Chorando de novo por causa do i****a do Nathan?
— Sim, ele é um verme!
— Não fica assim, aquele i****a não merece isso, amiga. — Eu levantei-me e abri a porta. — Olha só, borrou todo o rímel.
— Estou com tanta raiva dele, Sam! — Frisei, enxugando as lágrimas com a manga da blusa.
— Não vale a pena se matar, você sabe que o Nathan só pega no seu pé porque tem uma queda gigantesca por você e não pode assumir, por ser teu professor. — Tagarelou.
— Lá vem você de novo com essa história. — protestei, indo jogar água no rosto. — Ele deve ter uns trinta e poucos anos, o que iria querer com uma garota na minha idade?
— Vinte e nove.
— O que?
— Essa é a idade dele, nem é tão velho assim. — Ela deu um sorrisinho debochado.
Eu ri também.
— Tudo pra você é atração física. — respondi. — Nathan só me acha medíocre, nada mais. — argumentei segura de mim.
— Escreve o que estou te falando, não há razão pra ele ser tão babaca contigo, se não for pelo desejo reprimido. — objetou convicta.
— Ah é, esse desejo todo vai me levar à reprovação! — desdenhei, mas já estava me sentindo melhor. — Por falar nisso, como está a aula? Eu saí e nem corrigi nada do que o senhor insuportável pediu.
— Quando você saiu o Nathan ficou todo desconcertado, parecia querer ir atrás de você. — Samanta relatou, sorrindo travessa. — Agora ele está lá tentando manter a pose de sério, só que o professor não me engana!
— Chega, Sam. — Fui em direção à saída do banheiro. — Para de viajar na maionese, eu preciso corrigir essa bosta de TCC e dar para ele revisar ainda hoje. Então vamos voltar pra merda da sala, antes que eu jogue tudo pro ar e vá vender minha arte na praia! — explodi.
— Você não sabe fazer artesanato.
— Ah, valeu por me lembrar que eu sou um fracasso.
— Para de drama, você não tem culpa se o nosso professor é infantil e ao invés de assumir a atração que sente por você, fica fazendo joguinhos. — Suspirei. — Parece coisa de quarta série.
— Agora chega. — puxei a garota tagarela em direção à sala.
Contudo, no meio do caminho, começamos a ver os alunos saindo de suas salas indicando que já era hora do intervalo.
— Vamos comer? — Samanta perguntou, já indo para a cantina.
— Como assim hora do intervalo?
— Ué, Rafa. Você ficou quase duas horas fora da sala, eu entreguei meu material para o professor e assim que ele me dispensou, vim ver como você estava. — explicou.
— Nossa, agora eu preciso correr para revisar tudo, só tenho duas aulas! — disparei para a sala novamente, deixando Samanta sozinha no intervalo.
Antes eu avistei um certo garoto ao longe, ela ficaria bem.
Samuel era a paixonite da Samanta desde o primeiro ano, mas ele conseguia ser mais babaca que o Nathan, sério. Não entendia como ela ainda gostava dele.
Entrei na sala de supetão e dei de cara com a última pessoa que eu queria ver na vida.
— Resolveu voltar? — Nathan quis saber, olhando para mim.
Quase que eu respondi: Não, não, ainda estou lá no banheiro chorando, aqui é só meu holograma.
Contudo, eu disse:
— Sim, com tua licença, vou refazer o trabalho.
Nathan olhou-me desconfiado e veio furtivamente até mim.
— Achei que não iria mais voltar. — informou, parando ao meu lado na carteira.
— Você ficaria feliz se eu não voltasse, certeza. — respondi baixinho, mas o bendito ouviu.
— Está enganada.
— O que? — O encarei, notando o quão alto ele era.
1,85 talvez?
— Acho que isso é seu. — Nathan entregou-me um chaveiro de ursinho e eu senti meu coração disparar.
— Onde achou? — Quase gritei.
— Atrás da porta, imaginei que fosse importante e resolvi guardar. — contou, olhando-me de cima. — Você deve ter deixado cair e alguém chutou sem querer.
— Como sabia que era meu? — devolvi, pegando o chaveiro.
— Eu sempre vejo você com ele e percebi que toma todo o cuidado do mundo para não perdê-lo, deduzi que era algo especial. — Sua voz soou muito baixa e incrivelmente rouca, fazendo meu coração saltar no peito.
— Minha mãe me deu quando eu era criança... — A frase saiu falhada, eu m*l consegui terminá-la. — Obrigada por ter guardado.
— Não foi nada. — Nathan sentou-se ao meu lado, ficando em silêncio por alguns segundos. — Era o mínimo que eu podia fazer.
Aliás, não sei por qual razão, eu senti vontade de contar a ele o porquê da importância do chaveiro.
— Ela estava muito doente e me deu esse chaveiro um pouco antes de morrer, foi o último presente dela pra mim.
— Sinto muito. — Nathan tocou levemente meu ombro com sua mão grande e eu me sobressaltei. — Rafaela... — Chamou meu nome um pouco inseguro.
— Sim? — O encarei nos olhos, percebendo que eram extremamente azuis, mais do que eu imaginava, nunca o tinha visto tão de perto desse jeito.
— Desculpe se eu sou tão duro com você às vezes, é que, para falar a verdade, você é a minha aposta nessa turma. — Franzi o cenho sem entender. — Bem, eu tenho certeza de que será uma ótima jornalista, só que lá fora as coisas realmente são difíceis. Eu quero te preparar, para que nenhum editor-chefe te diminuía.
— Você passou por algo assim? — perguntei surpresa.
— Passei.
— Por isso me desmerece de todas as formas? — Girei o corpo na carteira, ficando de frente para ele. — Isso não fez nenhum sentido pra mim.
Nathan gargalhou.
Meu Deus, ele riu na minha frente!
— Se você me aguentar, aguenta qualquer um numa redação. — explicou, parando de rir aos poucos.
— Por que você nunca sorri? — Mudei de assunto, ainda absorta no som que ouvi. — Sua risada é muito gostosa.
Ele corou.
Eu estava vendo isso mesmo? Nathan ficou vermelho por algo que eu disse?
— Eu... — ele se enrolou antes de responder, parecia desconcertado, e então coçou a nuca.
Nesse instante os alunos começaram a chegar e Nathan levantou-se rapidamente, indo em direção à sua mesa. Enquanto eu permaneci tentando entender o que havia acontecido. Nós nunca conversamos dessa forma, aliás, eu sequer sonhava em ouvir o que ele me contou há pouco.
O que de fato aconteceu aqui?