Minha aposta

1155 Palavras
Fiquei um tempão no banheiro, vendo as meninas entrarem e saírem. Enquanto eu chorava baixinho, de raiva e frustração. Até ouvir uma batida na porta: — Rafa? —  Samanta, uma das minhas melhores amigas na faculdade, me chamou. — Oi, Sam — respondi fungando. — Chorando de novo por causa do i****a do Nathan? — Sim, ele é um verme! — Não fica assim, aquele i****a não merece isso, amiga. — Eu levantei-me e abri a porta. — Olha só, borrou todo o rímel. — Estou com tanta raiva dele, Sam! — Frisei, enxugando as lágrimas com a manga da blusa. — Não vale a pena se matar, você sabe que o Nathan só pega no seu pé porque tem uma queda gigantesca por você e não pode assumir, por ser teu professor. — Tagarelou. — Lá vem você de novo com essa história. — protestei, indo jogar água no rosto. — Ele deve ter uns trinta e poucos anos, o que iria querer com uma garota na minha idade? — Vinte e nove. — O que? — Essa é a idade dele, nem é tão velho assim. — Ela deu um sorrisinho debochado. Eu ri também. — Tudo pra você é atração física. — respondi. — Nathan só me acha medíocre, nada mais. — argumentei segura de mim. — Escreve o que estou te falando, não há razão pra ele ser tão babaca contigo, se não for pelo desejo reprimido. — objetou convicta. — Ah é, esse desejo todo vai me levar à reprovação! — desdenhei, mas já estava me sentindo melhor. — Por falar nisso, como está a aula? Eu saí e nem corrigi nada do que o senhor insuportável pediu. — Quando você saiu o Nathan ficou todo desconcertado, parecia querer ir atrás de você. — Samanta relatou, sorrindo travessa. — Agora ele está lá tentando manter a pose de sério, só que o professor não me engana! — Chega, Sam. — Fui em direção à saída do banheiro. — Para de viajar na maionese, eu preciso corrigir essa bosta de TCC e dar para ele revisar ainda hoje. Então vamos voltar pra merda da sala, antes que eu jogue tudo pro ar e vá vender minha arte na praia! — explodi. — Você não sabe fazer artesanato. — Ah, valeu por me lembrar que eu sou um fracasso. — Para de drama, você não tem culpa se o nosso professor é infantil e ao invés de assumir a atração que sente por você, fica fazendo joguinhos. — Suspirei. — Parece coisa de quarta série. — Agora chega. — puxei a garota tagarela em direção à sala. Contudo, no meio do caminho, começamos a ver os alunos saindo de suas salas indicando que já era hora do intervalo. — Vamos comer? — Samanta perguntou, já indo para a cantina. — Como assim hora do intervalo? — Ué, Rafa. Você ficou quase duas horas fora da sala, eu entreguei meu material para o professor e assim que ele me dispensou, vim ver como você estava. — explicou.  — Nossa, agora eu preciso correr para revisar tudo, só tenho duas aulas! — disparei para a sala novamente, deixando Samanta sozinha no intervalo. Antes eu avistei um certo garoto ao longe, ela ficaria bem. Samuel era a paixonite da Samanta desde o primeiro ano, mas ele conseguia ser mais babaca que o Nathan, sério. Não entendia como ela ainda gostava dele. Entrei na sala de supetão e dei de cara com a última pessoa que eu queria ver na vida. — Resolveu voltar? — Nathan quis saber, olhando para mim. Quase que eu respondi: Não, não, ainda estou lá no banheiro chorando, aqui é só meu holograma. Contudo, eu disse: — Sim, com tua licença, vou refazer o trabalho. Nathan olhou-me desconfiado e veio furtivamente até mim. — Achei que não iria mais voltar. — informou, parando ao meu lado na carteira. — Você ficaria feliz se eu não voltasse, certeza. — respondi baixinho, mas o bendito ouviu. — Está enganada. — O que? — O encarei, notando o quão alto ele era. 1,85 talvez? — Acho que isso é seu. — Nathan entregou-me um chaveiro de ursinho e eu senti meu coração disparar. — Onde achou? — Quase gritei. — Atrás da porta, imaginei que fosse importante e resolvi guardar. — contou, olhando-me de cima. — Você deve ter deixado cair e alguém chutou sem querer. — Como sabia que era meu? — devolvi, pegando o chaveiro. — Eu sempre vejo você com ele e percebi que toma todo o cuidado do mundo para não perdê-lo, deduzi que era algo especial. — Sua voz soou muito baixa e incrivelmente rouca, fazendo meu coração saltar no peito. — Minha mãe me deu quando eu era criança... — A frase saiu falhada, eu m*l consegui terminá-la. — Obrigada por ter guardado. — Não foi nada. — Nathan sentou-se ao meu lado, ficando em silêncio por alguns segundos. — Era o mínimo que eu podia fazer. Aliás, não sei por qual razão, eu senti vontade de contar a ele o porquê da importância do chaveiro. — Ela estava muito doente e me deu esse chaveiro um pouco antes de morrer, foi o último presente dela pra mim. — Sinto muito. — Nathan tocou levemente meu ombro com sua mão grande e eu me sobressaltei. — Rafaela... — Chamou meu nome um pouco inseguro. — Sim? — O encarei nos olhos, percebendo que eram extremamente azuis, mais do que eu imaginava, nunca o tinha visto tão de perto desse jeito. — Desculpe se eu sou tão duro com você às vezes, é que, para falar a verdade, você é a minha aposta nessa turma. — Franzi o cenho sem entender. — Bem, eu tenho certeza de que será uma ótima jornalista, só que lá fora as coisas realmente são difíceis. Eu quero te preparar, para que nenhum editor-chefe te diminuía. — Você passou por algo assim? — perguntei surpresa. — Passei. — Por isso me desmerece de todas as formas? — Girei o corpo na carteira, ficando de frente para ele. — Isso não fez nenhum sentido pra mim. Nathan gargalhou. Meu Deus, ele riu na minha frente! — Se você me aguentar, aguenta qualquer um numa redação. — explicou, parando de rir aos poucos. — Por que você nunca sorri? — Mudei de assunto, ainda absorta no som que ouvi. — Sua risada é muito gostosa. Ele corou. Eu estava vendo isso mesmo? Nathan ficou vermelho por algo que eu disse? — Eu... — ele se enrolou antes de responder, parecia desconcertado, e então coçou a nuca. Nesse instante os alunos começaram a chegar e Nathan levantou-se rapidamente, indo em direção à sua mesa. Enquanto eu permaneci tentando entender o que havia acontecido. Nós nunca conversamos dessa forma, aliás, eu sequer sonhava em ouvir o que ele me contou há pouco. O que de fato aconteceu aqui?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR