Quando eu saí para trabalhar sabia exatamente que a Carol não estava bem! Se via nos olhos dela que estava preocupada... Aflita com alguma coisa!
Eu poderia ter perguntado, mas não quis ultrapassar uma barreira que eu mesma tinha criado em relação às novas moradoras.
Estabeleci um limite de privacidade entre a gente, para que eu mesma possa seguir com o meu disfarce tranquilamente!
Por isso não perguntei nada á Carol, mas deixei a chave em caso de urgência.
No trabalho pra mim estava péssimo! Devido à minha falta anterior Mamãe Gothel jogou todos os clientes da noite pra mim.
Ela sempre fazia isso quando havia uma falta entre às meninas. Era a forma sutil de punição para nunca faltarmos!
Eu estava exausta! Mas pedi mentalmente para que André não aparecesse por lá naquela noite!
Era tudo o que desejava, que ele não me visse naquele estado! Pois meu semblante caído, e cansado era a verdadeira realidade de uma garota de programa!
Eu jamais vou fantasiar essa vida pra você! Ganha dinheiro? Sim, muito! Mas é uma vida que eu não desejo a ninguém!
Homens comuns se sentem no direito de fazer o que bem entendem apenas por estarem pagando a sua hora!
Eu não permito que me batam, e nem que urinem em mim! Sim! Homens são nojentos quando querem!
Quando eu penso em extinguir a raça masculina, eu lembro do André. O único homem gentil que eu conheci até hoje!
André não tem manias e nem abuso de poder por estar pagando. E você pode pensar "Ahh mas André tem dinheiro pra esbanjar atoa!" Conheci homens muito mais ricos de que André que nos sugam até o último minuto.
E ele na primeira noite pagou apenas para conversar comigo. Sei que ele jamais iria pra cama com uma mulher sem antes conhecê-la. Ou no nosso caso, fui eu que o conheci melhor!
Nem esperei terminar o expediente, tomei banho e fui embora. Tive clientes em todos os horários, enquanto às meninas apenas dançaram e foram acompanhantes.
- Vai Cindy! Eu seguro às pontas aqui com a Gothel! Jasmine disse sempre sendo gentil.
Como sai mais cedo peguei o metrô mais cedo, e voltei dormindo toda a viagem. Em pensar que se eu passei no vestibular, tenho que aturar essa vida mais cinco anos antes de me tornar uma psicóloga. É tortura demais!
Quando fui chegando no condomínio avistei um carro parado, e atrás dele Carol discutia com um homem. Eu não entendia do que falavam más notava-se que ela estava muito nervosa.
- Está tudo por aqui? Perguntei me aproximando.
Ele se virou pra mim rapidamente, me olhando diretamente nos olhos. Os olhos dele eram penetrantes e intensos, fiquei com receio de ele ter me reconhecido do meu "trabalho."
Eu lembro bem dos meus clientes, mas isso não quer dizer que alguns homens que já são fixos de outras meninas, ou vão apenas para beber não possa me ver circulando pelo lugar!
- Está tudo bem sim! Ele respondeu áspero e firme.
- Eu não perguntei pra você! Falei me virando para Carol que me olhava aliviada.
- Oi Anna! Ela forçou um sorriso.
Aquele homem voltou a me olhar, com certeza fiz inimizade com ele. Sua expressão de raiva era notório.
- Você está bem? Perguntei a ela.
- Me tire daqui?! Ela pediu.
Peguei na mão de Carol e ao sairmos bati de frente com o tal homem. Ele me olhava fixamente como se quisesse me intimidar com a sua expressão de sério.
- Olha... Eu não tenho medo de homens com cara de mau! Sinceramente eles nunca me assustam! Então se puder sair da minha frente, eu agradeço!
Ele se afastou liberando passagem para Carol e eu passarmos. Seguimos caladas até o apartamento, quando passamos pela portaria o porteiro olhou para nossas mãos e diretamente pra nós, exibiu um sorriso malicioso.
Aaah pronto! Agora ele pensa que somos lésbicas também! Homens e suas facilidades de entenderem tudo errado!
Subimos juntas, e ainda calada Carol entrou no apartamento e caminhou até o sofá.
Fui até ela deixando a minha bolsa sobre o tapete da sala.
- Você está melhor? Indaguei.
- Olha Anna... Ela começou a dizer mas exitou.
- Se não quiser falar sobre isso por mim tudo bem! A gente esquece o que aconteceu e mudamos de assunto!
E então ela começou a chorar copiosamente.
- Ah meu Deus! Fui até ela o abraçando.
Deixei que Carol desabafa-se, ela chorou bastante. Depois secou suas lágrimas e me olhou com às pupilas inchadas.
- Me desculpe! Falou angustiada.
- Eu não tenho nada pra te desculpar. Respondi afagando o seu ombro.
- Eu não achei que ele ia aparecer aqui no prédio... E chorou novamente.
- Ele é o seu namorado? Perguntei.
Ela apenas negou com a cabeça.
- Más você gosta dele?! Eu sabia que sim.
Carol baixou seus olhos como se houvesse constrangimento nisso.
- Eu tenho vergonha de como você vai me olhar depois disso! Confessou.
Oh meu Deus, ela está com medo do meu julgamento! Logo eu? Mesmo que quisesse não poderia fazer isso, sendo quem sou!
- Eu jamais vou te julgar! Não sou ninguém pra isso! Admiti.
- Más ele é... Ela começou.
- Mais velho? Questionei.
- Não é só isso! Ela disse ainda soluçando.
- Casado? Ela me olhou espantada. - Não tenha vergonha disso também! Falei.
Depois me levantei indo até a vidraça e puxando a cortina fiquei olhando a cidade lá fora.
- Estou exatamente na mesma situação que você! Falei ainda observando a janela.
- Está apaixonada por um homem casado? Ela perguntou um pouco mais calma.
- Não sei se estou apaixonada. Mas devo confessar que ele me interessa muito! Confidenciei.
- E ele gosta de você? Ela perguntou.
- Ele tem problemas com a esposa. Disse que estão separados de fato mas ainda moram juntos! E eu não acredito que isso possa ser verdade! Afirmei.
- Eu acredito que sim! Ela disse repentinamente me fazendo olhá-la.
- Meus pais moram juntos, mas não existe casamento há muitos anos!
- E porque seu pai se submete á isso? Indaguei.
- Muitos fatores, más basicamente ele aguentou até hoje por mim! Ela deu de ombros.
E a explicação de Carol era a mesma que André sempre dava quando conversávamos. Esteve preso à essa união todos esses anos por causa da filha.
- Más ele disse que está conhecendo uma pessoa, e particularmente estou torcendo muito para que dê certo! Ela disse espontaneamente.
Fui até ela devagar.
- Você deseja que seu pai fique com outra mulher? Perguntei indignada.
- Eu desejo que ele seja feliz! Ela abriu um sorriso pela primeira vez. - E com a minha mãe ele já não é mais há muitos anos!
Imaginei o que a filha do André pensaria de mim... Certamente não será tão compreensível quanto a Carol.
- Peço que não comente com a Gio o que estamos falando agora. Principalmente sobre à minha situação! Pedi.
- Eu jamais farei isso! Ela se levantou e pegou a minha mão. - Você foi tão gentil comigo... Peço que também guarde com você o incidente mais cedo!
- Ninguém saberá disso! E ela sorriu.
E alí se formava uma aliança entre Caroline e eu. Nós duas compartilhamos confidências sem perceber; e eu que nunca tive uma pessoa de confiança estava me abrindo para quem eu nem conhecia.
Fui até o meu quarto e peguei cobertor e travesseiro para que ela dormisse um pouco, pois parecia exausta.
- Durma um pouco. Vou fazer o mesmo, qualquer coisa estarei no meu quarto.
Carol se deitou e eu a cobri me sentindo a irmã mais velha dela.
- E pare de pensar naquele homem! Falei notando que ela ainda estava pensativa.
- Será algo difícil levando em consideração seus olhos... São iguais aos dele! Ela disse dando lhe um meio sorriso.
- Os meus? Não! Falei com desdém.
- Anna você sabia que apenas cinco por cento da população possuem olhos hazel?
- Você parece ter pesquisado muito sobre o assunto! Ironizei.
- São os olhos mais lindos na minha opinião! Revelou.
- Eu nunca levei isso em consideração! Sempre achei a cor dos meus olhos sem definição. Mas achava que eram cor de avelã. Dei de ombros
- Por que eles mudam de cor conforme a temperatura ou mudança de humor. Quando vocês estão felizes ou emocionados as pupilas crescem e ficam mais dourados. Mas quando choram, o esverdeado predomina...
- Você falando sobre os meus olhos como se o seu não fosse o mais desejado por todos! São azuis... Eu acho maravilhosos! Respondi.
- A família do meu pai tem a genética de olhos claros. Cresci vendo quase todos ao meu redor também terem, e acabei me acostumando! Ela explicou.
- Sua família deve ser linda! Falei imaginando como seriam às pessoas da minha família. Já que eu não os conhecia.
Caroline sorriu e se ajeitou no travesseiro. Me levantei do sofá indo para o meu quarto.
Deitei-me na cama e fiquei tentando imaginar a minha família. Se o que Carol falou fizesse sentido, que meus olhos são raros; provavelmente meus pais ou avós também têm. Ou alguém que fosse muito próximo de mim.
Queria conhecer alguém da minha família. Não é fácil ser uma pessoa sozinha no mundo, sem conhecer ninguém que tenha o mesmo laço sanguíneo que o seu!
Às vezes eu penso que se meus pais soubessem que sou uma prostituta sentiriam vergonha de mim, e talvez me desprezassem.
E eu não suportaria ser renegada mais uma vez. Já basta terem me entregado para adoção!
(...)
Sinceramente eu dormi o dia todo, pulei o almoço, a academia, e quase o jantar. Acordei me sentindo renovada! Hoje é sábado e o Pub estará bombando.
Tomei banho e fui até a cozinha, Gio estava ajeitando a geladeira.
- Desculpe eu tomei a liberdade de comprar frutas e legumes. Não sou muito fã de carne vermelha. Contou.
- Tudo bem! Faça o que quiser. A casa também é sua! Respondi com um sorriso.
Comecei a preparar um café na máquina e me sentei para ouvir as notícias diárias na internet.
- Onde está Carol? Falei vendo o sofá arrumado e nada de cobertores.
- Eu não sei, ela tomou banho e saiu! Gio deu de ombros e voltou a armazenar às suas coisas.
- Você come todas essas coisas? Falei vendo-a guardar em potes castanhas do Pará, de caju e amêndoas.
- Sim, eu complemento todas às manhãs com cereais! Ela respondeu com um sorriso.
Assenti também com um sorriso. Gio era uma garota muito diferente... E eu digo em todos os sentidos!
Ela se vestia feito uma asiática, sempre carregava livros de um lado para o outro. E usava um óculos sem grau que me instigava a perguntar o porquê.
- An... Gio... Você está gostando de morar aqui? Perguntei receosa.
- Sim! Disse entusiasmada. - O colchão é muito confortável e aqui nem tem pernilongos! Ela disse espontaneamente.
Não pude deixar de gargalhar.
- Eu vou trabalhar, infelizmente você ficará sozinha por um tempo! A olhei nos olhos.
- Você vai trabalhar sem comer nada? Eu quase não vejo você se alimentando! Frisou.
- Realmente, eu como muito m*l! Concordei.
- Gosta de canela? Ela perguntou inesperadamente.
- Eu gosto! Respondi sem entender.
Gio cortou uma banana em rodelas colocando canela e depois levou ao micro-ondas por alguns minutos.
- Coma! Disse me entregando o prato.
- Vai ajudar a saciar a sua fome, além de prevenir o envelhecimento!
- Poxa, obrigada! Respondi agradecida.
E assim começou a se iniciar a nossa convivência. Eu ajudando Carol pela manhã, e Gio cuidando de mim á tarde.
- Vou preparar os trabalhinhos para o dia dos pais. Então estarei toda a noite ocupada! Gio comentou.
- Tudo bem, mas qualquer coisa que precisar me ligue! Peguei a minha bolsa sobre o balcão e me despedi. - Até amanhã Gio.
- Até amanhã Anna! Disse com um aceno.