Aurora, sem pressa nenhuma, pegou a mão dele por baixo da mesa. O gesto foi simples, mas firme.
— Você é lindo, sabia? — disse ela, num tom leve. — Não sei o que aconteceu com essa tal ex… mas agora eu tô aqui, pro que você precisar.
Jonas respirou fundo, o olhar ainda preso no dela.
— Eu não quero falar dela.
Aurora deu um sorriso pequeno, quase provocador, como quem recusa um clima pesado.
— Então não fala, ué. É o nosso casamento, maridinho.
Ele soltou uma risada baixa, surpresa com a naturalidade dela.
— Maridinho?
— Uhum. Por enquanto você aceitou o pacote completo — ela respondeu, divertida.
Jonas balançou a cabeça, ainda rindo, e por um momento a tensão pareceu finalmente ceder.
Os garçons começaram a servir a comida, e a atmosfera ao redor deles foi se ajeitando. Aurora comeu tranquila, como se nada naquele dia tivesse sido absurdo o suficiente para tirá-la do eixo. Jonas, aos poucos, também relaxou.
Pela primeira vez desde a igreja, o silêncio entre eles não era desconfortável.
Era… leve.
Mais tarde, enquanto ainda estavam na mesa, os pais de Jonas se aproximaram.
A mãe dele parou na frente dos dois, visivelmente aliviada, e sorriu para Aurora.
— Obrigada por ter salvado meu filho. Metade dos convidados nem conhecia a noiva… então deu pra disfarçar bem.
Aurora piscou, surpresa por alguns segundos, mas logo sorriu com educação.
— Não precisa agradecer, senhora. Tá tudo bem.
A mãe de Jonas ainda a observava com uma mistura de curiosidade e gratidão, como se tentasse entender de onde tinha surgido aquela mulher que tinha mudado tudo em poucos minutos.
Jonas percebeu e interveio, levemente.
— Mãe…
Ela soltou uma pequena risada, quebrando a tensão.
— Eu só estou sendo educada, querido. Não esperava… isso.
O pai de Jonas, mais contido, apenas estendeu a mão para Aurora.
— Independente de como aconteceu… obrigado. Você evitou um escândalo.
Aurora apertou a mão dele com firmeza.
— Não foi nada. Eu só fiz o que achei certo.
Jonas olhou para ela de lado, como se aquela resposta fosse ainda mais interessante do que deveria ser.
Quando os pais se afastaram, a música voltou a parecer mais alta, preenchendo o espaço que eles deixaram.
Aurora apoiou o queixo na mão, observando o salão.
— Sua família é… educada demais pra um caos desses — comentou.
Jonas soltou um leve riso.
— Você não viu tudo ainda.
— Ainda? — ela ergueu uma sobrancelha.
Ele não respondeu de imediato. Só tomou um gole da bebida, como se estivesse escolhendo o que revelar.
Aurora inclinou um pouco a cabeça, olhando pra ele com atenção.
— Você sempre foge quando o assunto fica sério assim?
Jonas a encarou.
— Não. Só quando não vale a pena.
— E eu valho? — ela perguntou, direta, sem medo.
Ele ficou em silêncio por um instante longo demais pra ser casual.
— Eu ainda não sei.
Aurora sorriu de canto, como se aceitasse aquilo sem se ofender.
— Justo. Eu também não te conheço ainda.
Ela apoiou os braços na mesa, mais próxima dele.
— Então vamos fazer direito, Jonas. Sem ex, sem fuga, sem drama agora. Só… a gente.
Ele a observou por um segundo mais longo, como se aquela simplicidade fosse justamente o que mais desarmava.
— “Só a gente” não parece muito simples vindo de você — ele disse.
Aurora deu de ombros, leve.
— Eu nunca disse que era simples. Só disse que é honesto.
E pela primeira vez naquela noite, Jonas não teve uma resposta pronta.
Só ficou ali, olhando pra ela, enquanto a festa seguia ao redor — e o improviso dos dois começava a parecer menos acidente e mais começo.
Mais tarde, a festa foi chegando ao fim.
Os convidados já estavam mais dispersos, alguns indo embora, outros se despedindo ainda comentando em voz baixa sobre o “casamento mais estranho e inesquecível” que já tinham visto.
Aurora pegou a bolsa, ajeitando o vestido com calma, como se aquele dia não tivesse sido uma reviravolta completa na vida de duas pessoas.
Ela tirou um papel dobrado do bolso e estendeu para Jonas.
— Bom… aqui tá meu número, tá? Você pode me ligar quando precisar.
Jonas pegou o papel, mas não desviou o olhar dela.
Antes que ela pudesse se virar, ele segurou a mão dela.
Aurora parou.
Os dois ficaram se olhando por um segundo.
— Aonde você vai? — ele perguntou, num tom mais baixo do que o habitual, como se não quisesse que aquilo terminasse tão rápido.
Ela sorriu de leve, tranquila.
— Pra minha casa. Tenho uma gatinha que deve estar com fome já. Vou deixar você descansar… você teve um dia longo. A gente vai ter tempo pra conversar com calma.
Ela soltou a mão dele devagar.
— Eu vou pedir um táxi, tá?
Jonas não respondeu de imediato. Só observou, como se não estivesse acostumado com alguém indo embora assim… sem pedir nada, sem cobrar nada, sem insistir em ficar.
Aurora deu um passo pra trás, depois se aproximou de novo por impulso leve, e beijou o rosto dele com naturalidade.
— Tchau, Jonas.
E então virou, indo em direção à saída.
Jonas ficou parado por alguns segundos, o papel com o número dela ainda na mão.
E pela primeira vez naquele dia caótico…
ele percebeu que não queria que ela fosse tão rápido assim.