Aurora saiu da recepção da festa e o ar da noite bateu mais fresco, contrastando com o calor abafado de dentro do salão. O som da música ainda vinha distante, mas já parecia outra realidade.
Ela parou na calçada em frente ao local, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
O celular na mão, a tela iluminando o rosto dela de leve enquanto chamava o táxi.
Do outro lado da rua, algumas luzes de carros passavam rápidas. O lugar ainda estava movimentado, gente indo embora em grupos, risadas soltas, portas de carros fechando.
Aurora respirou fundo e encostou o peso do corpo em um dos pilares da entrada, como se finalmente o dia estivesse começando a cair sobre ela.
Dentro da festa, Jonas ainda não tinha saído.
Mas algo nele não deixava ele simplesmente continuar ali.
Ele olhou para o papel com o número dela mais uma vez.
Depois levantou o olhar.
E viu pela vidraça ela do lado de fora.
Sozinha.
Esperando.
Sem pressa. Sem drama. Só ali.
Jonas hesitou por um segundo… e então se mexeu.
Lá fora, o vento leve bagunçou um pouco o cabelo cacheado de Aurora. Ela olhou o celular de novo.
— Vai demorar… — murmurou pra si mesma, suspirando.
Foi quando a sombra de alguém parou ao lado dela.
Ela virou o rosto devagar.
Jonas estava ali.
Sem gravata, um pouco mais solto, o olhar ainda carregando o cansaço do dia… mas agora com outra coisa junto. Algo que ele mesmo ainda não sabia nomear direito.
Aurora piscou, surpresa.
— Você não devia estar descansando? — ela perguntou, um leve sorriso no canto dos lábios.
Jonas colocou as mãos nos bolsos, olhando pra rua antes de responder.
— Eu ia.
Ele olhou pra ela.
— Mas percebi que você foi embora como se nada tivesse acontecido.
Aurora deu de ombros.
— Porque… não aconteceu tudo ainda. Foi só um dia estranho.
Jonas soltou um riso baixo.
— Um dia estranho é uma forma leve de dizer.
Ela riu também, encostando de novo no pilar.
— Eu não gosto de complicar as coisas.
Ele ficou em silêncio por um segundo, olhando pra ela de verdade agora, sem a pressão da igreja, sem os convidados, sem ninguém assistindo.
— Você sempre some assim depois de “salvar” alguém?
Aurora virou o rosto pra ele.
— Depende. A pessoa costuma correr atrás?
Jonas a encarou por um instante mais longo do que deveria.
— Às vezes… sim.
O silêncio entre os dois ficou diferente. Menos caos, mais possibilidade.
E o celular dela vibrou.
“Tá chegando em 5 minutos.”
Aurora mostrou a tela pra ele, como quem avisa sem drama.
— Tá vendo? Eu te disse que ia embora.
Jonas olhou pra tela… depois pra ela.
— E se eu não quiser que você vá?
Aurora não respondeu de imediato.
Só ficou ali, parada, como se aquela pergunta fosse a primeira coisa do dia inteiro que realmente não fazia parte do improviso.
Aurora ficou alguns segundos em silêncio, o barulho da rua passando atrás deles, carros, vozes distantes, a cidade seguindo normal enquanto ali parecia tudo suspenso.
Ela desviou o olhar primeiro, como se estivesse organizando os pensamentos.
— Jonas… — ela disse por fim, num tom mais baixo. — Hoje foi um caos.
Ele não desviou o olhar dela.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— E caos não é exatamente o melhor começo pra nada.
Jonas deu um passo leve mais perto, não invadindo, só ficando ali.
— Não foi você que entrou na igreja dizendo que ia me salvar?
Aurora soltou um riso curto, balançando a cabeça.
— Eu não planejei isso.
— Mas fez.
Ela olhou pra ele de novo, agora mais séria.
— Eu faço coisas impulsivas quando vejo alguém prestes a desabar na minha frente. Isso não significa que eu devo continuar na vida da pessoa depois disso.
Jonas ficou em silêncio por um instante.
— E se eu disser que não foi só impulso pra mim?
Aurora piscou, surpresa, mas não recuou.
— Jonas…
— Eu sei — ele interrompeu, mais calmo agora. — Você tá indo embora como se isso tivesse sido só um acidente engraçado. Mas pra mim não foi.
O celular dela vibrou de novo, indicando que o táxi já estava chegando na esquina.
Aurora olhou rapidamente, depois voltou o olhar pra ele.
— Eu não sei o que isso vai virar — ela admitiu, sincera. — E eu não vou fingir que sei.
Jonas assentiu, como se aceitasse aquilo.
— Então não finge.
Ela soltou o ar devagar, como se aquela conversa estivesse indo para um lugar mais profundo do que ela esperava.
O carro do táxi apareceu no fim da rua, devagar, piscando a seta.
Aurora pegou a bolsa com mais firmeza.
— Eu preciso ir.
Jonas não segurou ela dessa vez.
Mas também não se afastou.
— Você vai me ligar? — ele perguntou, direto.
Ela hesitou só um segundo.
— Vou.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Promessa?
Aurora abriu um sorriso pequeno, mais verdadeiro agora.
— Não faço promessas fáceis, Jonas.
Ele respondeu quase no mesmo tom:
— Eu também não.
O táxi encostou na frente deles.
Aurora abriu a porta, mas antes de entrar, virou o rosto pra ele uma última vez.
— Boa noite… marido de mentira.
Jonas soltou uma risada curta.
— Boa noite, Aurora.
Ela entrou no carro.
A porta fechou.
E enquanto o táxi começava a se afastar, Jonas ficou parado na calçada, olhando ele sumir na rua.
Mas pela primeira vez naquele dia inteiro…
ele não sentiu que aquilo tinha acabado.