3

938 Palavras
Aurora saiu da recepção da festa e o ar da noite bateu mais fresco, contrastando com o calor abafado de dentro do salão. O som da música ainda vinha distante, mas já parecia outra realidade. Ela parou na calçada em frente ao local, ajeitando a alça da bolsa no ombro. O celular na mão, a tela iluminando o rosto dela de leve enquanto chamava o táxi. Do outro lado da rua, algumas luzes de carros passavam rápidas. O lugar ainda estava movimentado, gente indo embora em grupos, risadas soltas, portas de carros fechando. Aurora respirou fundo e encostou o peso do corpo em um dos pilares da entrada, como se finalmente o dia estivesse começando a cair sobre ela. Dentro da festa, Jonas ainda não tinha saído. Mas algo nele não deixava ele simplesmente continuar ali. Ele olhou para o papel com o número dela mais uma vez. Depois levantou o olhar. E viu pela vidraça ela do lado de fora. Sozinha. Esperando. Sem pressa. Sem drama. Só ali. Jonas hesitou por um segundo… e então se mexeu. Lá fora, o vento leve bagunçou um pouco o cabelo cacheado de Aurora. Ela olhou o celular de novo. — Vai demorar… — murmurou pra si mesma, suspirando. Foi quando a sombra de alguém parou ao lado dela. Ela virou o rosto devagar. Jonas estava ali. Sem gravata, um pouco mais solto, o olhar ainda carregando o cansaço do dia… mas agora com outra coisa junto. Algo que ele mesmo ainda não sabia nomear direito. Aurora piscou, surpresa. — Você não devia estar descansando? — ela perguntou, um leve sorriso no canto dos lábios. Jonas colocou as mãos nos bolsos, olhando pra rua antes de responder. — Eu ia. Ele olhou pra ela. — Mas percebi que você foi embora como se nada tivesse acontecido. Aurora deu de ombros. — Porque… não aconteceu tudo ainda. Foi só um dia estranho. Jonas soltou um riso baixo. — Um dia estranho é uma forma leve de dizer. Ela riu também, encostando de novo no pilar. — Eu não gosto de complicar as coisas. Ele ficou em silêncio por um segundo, olhando pra ela de verdade agora, sem a pressão da igreja, sem os convidados, sem ninguém assistindo. — Você sempre some assim depois de “salvar” alguém? Aurora virou o rosto pra ele. — Depende. A pessoa costuma correr atrás? Jonas a encarou por um instante mais longo do que deveria. — Às vezes… sim. O silêncio entre os dois ficou diferente. Menos caos, mais possibilidade. E o celular dela vibrou. “Tá chegando em 5 minutos.” Aurora mostrou a tela pra ele, como quem avisa sem drama. — Tá vendo? Eu te disse que ia embora. Jonas olhou pra tela… depois pra ela. — E se eu não quiser que você vá? Aurora não respondeu de imediato. Só ficou ali, parada, como se aquela pergunta fosse a primeira coisa do dia inteiro que realmente não fazia parte do improviso. Aurora ficou alguns segundos em silêncio, o barulho da rua passando atrás deles, carros, vozes distantes, a cidade seguindo normal enquanto ali parecia tudo suspenso. Ela desviou o olhar primeiro, como se estivesse organizando os pensamentos. — Jonas… — ela disse por fim, num tom mais baixo. — Hoje foi um caos. Ele não desviou o olhar dela. — Eu sei. Ela respirou fundo. — E caos não é exatamente o melhor começo pra nada. Jonas deu um passo leve mais perto, não invadindo, só ficando ali. — Não foi você que entrou na igreja dizendo que ia me salvar? Aurora soltou um riso curto, balançando a cabeça. — Eu não planejei isso. — Mas fez. Ela olhou pra ele de novo, agora mais séria. — Eu faço coisas impulsivas quando vejo alguém prestes a desabar na minha frente. Isso não significa que eu devo continuar na vida da pessoa depois disso. Jonas ficou em silêncio por um instante. — E se eu disser que não foi só impulso pra mim? Aurora piscou, surpresa, mas não recuou. — Jonas… — Eu sei — ele interrompeu, mais calmo agora. — Você tá indo embora como se isso tivesse sido só um acidente engraçado. Mas pra mim não foi. O celular dela vibrou de novo, indicando que o táxi já estava chegando na esquina. Aurora olhou rapidamente, depois voltou o olhar pra ele. — Eu não sei o que isso vai virar — ela admitiu, sincera. — E eu não vou fingir que sei. Jonas assentiu, como se aceitasse aquilo. — Então não finge. Ela soltou o ar devagar, como se aquela conversa estivesse indo para um lugar mais profundo do que ela esperava. O carro do táxi apareceu no fim da rua, devagar, piscando a seta. Aurora pegou a bolsa com mais firmeza. — Eu preciso ir. Jonas não segurou ela dessa vez. Mas também não se afastou. — Você vai me ligar? — ele perguntou, direto. Ela hesitou só um segundo. — Vou. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Promessa? Aurora abriu um sorriso pequeno, mais verdadeiro agora. — Não faço promessas fáceis, Jonas. Ele respondeu quase no mesmo tom: — Eu também não. O táxi encostou na frente deles. Aurora abriu a porta, mas antes de entrar, virou o rosto pra ele uma última vez. — Boa noite… marido de mentira. Jonas soltou uma risada curta. — Boa noite, Aurora. Ela entrou no carro. A porta fechou. E enquanto o táxi começava a se afastar, Jonas ficou parado na calçada, olhando ele sumir na rua. Mas pela primeira vez naquele dia inteiro… ele não sentiu que aquilo tinha acabado.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR