O táxi seguiu pela avenida, e Aurora encostou a cabeça no vidro por um instante, observando as luzes da cidade passarem em reflexos rápidos.
Mas, pela primeira vez no dia inteiro, a mente dela não estava completamente tranquila.
Ela olhou o celular.
Nenhuma mensagem.
Só o silêncio depois de Jonas.
Respirou fundo e desbloqueou a tela, como se fosse escrever algo… mas parou.
— Você tá ficando louca, Aurora… — murmurou pra si mesma, guardando o celular de novo.
Do outro lado da cidade, Jonas ainda estava parado na calçada da festa.
A porta do salão se abriu atrás dele, alguns convidados saindo, mas ele não virou.
O olhar dele ainda estava na rua por onde o carro dela tinha ido embora.
— Senhor Jonas? — chamou alguém da organização.
Ele demorou um segundo pra responder.
— Já vou.
Mas não se mexeu imediatamente.
Dentro da cabeça dele, a imagem dela ainda estava ali: entrando na igreja sem ser chamada, sorrindo como se não tivesse nada a perder, dizendo “deixa eu te salvar” como se fosse a coisa mais simples do mundo.
E depois indo embora… como se nada disso tivesse significado nada.
Jonas soltou um riso baixo, sem humor.
— Que bagunça… — ele murmurou.
E finalmente entrou.
No táxi, o celular de Aurora vibrou.
Ela olhou rápido.
“Chegou bem?”
Era dele.
Ela ficou alguns segundos encarando a mensagem, o polegar parado sobre a tela.
A cidade passava do lado de fora, indiferente.
Ela digitou: “cheguei sim”
Apagou.
Digitou de novo: “tô indo”
Apagou outra vez.
Soltou um suspiro e, por fim, respondeu só:
“quase em casa”
Mandou.
Encostou de novo no vidro.
E, pela primeira vez desde que entrou naquela igreja…
ela sorriu sozinha, sem perceber.
O celular de Aurora ficou quieto depois da resposta simples.
Mas o silêncio não parecia mais tão vazio.
Ela guardou o aparelho na bolsa e olhou pela janela. As ruas iam ficando mais conhecidas, os pontos da cidade dela surgindo um após o outro. Ainda assim, a mente dela insistia em voltar pra mesma imagem: Jonas parado na calçada, sem saber muito bem o que fazer depois que ela foi embora.
— Para de pensar nisso… — ela murmurou baixinho, encostando a testa no vidro.
Mas não parou.
Jonas já tinha voltado pra dentro do salão.
A festa tinha acabado de vez, mesas sendo desmontadas, funcionários organizando tudo, o eco de uma noite que parecia ter sido maior do que deveria.
Ele estava perto do bar vazio, segurando o celular na mão.
A tela ainda estava na conversa.
“quase em casa”
Ele leu de novo.
E de novo.
— Isso não quer dizer nada… — ele falou sozinho, como se tentasse convencer a própria cabeça.
Mas não convenceu.
O pai dele passou por perto e parou ao ver o filho parado ali.
— Você vai pra casa?
Jonas demorou um segundo.
— Vou.
Mas não se moveu de imediato.
Aurora chegou no prédio alguns minutos depois.
Pagou o táxi, desceu, sentindo o ar mais calmo da madrugada envolvendo ela. O prédio estava silencioso, só algumas luzes acesas nas janelas.
Ela entrou, subiu no elevador sozinha.
Quando a porta do apartamento abriu, uma pequena gata apareceu correndo, miando alto.
— Eu sei, eu sei… você tá com fome — Aurora disse, abaixando e pegando ela no colo.
Por um instante, tudo parecia normal de novo.
Ela colocou ração, apoiou a testa na geladeira fechada e fechou os olhos.
— Que dia foi esse… — sussurrou.
O celular vibrou de novo.
Ela se virou rápido.
Jonas.
“Você chegou mesmo?”
Aurora ficou parada alguns segundos olhando a mensagem.
A gata miava ao lado dela, esfregando nas pernas.
Ela finalmente respondeu:
“cheguei”
Dessa vez, sem apagar.
Só enviou.
E ficou olhando pra tela, como se esperasse algo que não sabia nomear.
Jonas recebeu a resposta e soltou o ar devagar.
“cheguei”
Simples.
Mas suficiente pra tirar dele aquela sensação estranha de vazio que tinha ficado desde a calçada.
Ele encostou o celular na mesa e passou a mão pelo rosto.
— Você me deixou meio i****a hoje… — murmurou, sozinho.
E pela primeira vez, não parecia uma reclamação.
Aurora se sentou no sofá com a gata no colo.
O celular permaneceu na mão por alguns segundos.
Sem novas mensagens.
Mas também sem aquela pressa de antes.
Ela olhou pra tela apagando sozinha.
E, sem perceber, apertou o celular um pouco mais forte.
Como se algo tivesse começado… e ainda não tivesse terminado.