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764 Palavras
O táxi seguiu pela avenida, e Aurora encostou a cabeça no vidro por um instante, observando as luzes da cidade passarem em reflexos rápidos. Mas, pela primeira vez no dia inteiro, a mente dela não estava completamente tranquila. Ela olhou o celular. Nenhuma mensagem. Só o silêncio depois de Jonas. Respirou fundo e desbloqueou a tela, como se fosse escrever algo… mas parou. — Você tá ficando louca, Aurora… — murmurou pra si mesma, guardando o celular de novo. Do outro lado da cidade, Jonas ainda estava parado na calçada da festa. A porta do salão se abriu atrás dele, alguns convidados saindo, mas ele não virou. O olhar dele ainda estava na rua por onde o carro dela tinha ido embora. — Senhor Jonas? — chamou alguém da organização. Ele demorou um segundo pra responder. — Já vou. Mas não se mexeu imediatamente. Dentro da cabeça dele, a imagem dela ainda estava ali: entrando na igreja sem ser chamada, sorrindo como se não tivesse nada a perder, dizendo “deixa eu te salvar” como se fosse a coisa mais simples do mundo. E depois indo embora… como se nada disso tivesse significado nada. Jonas soltou um riso baixo, sem humor. — Que bagunça… — ele murmurou. E finalmente entrou. No táxi, o celular de Aurora vibrou. Ela olhou rápido. “Chegou bem?” Era dele. Ela ficou alguns segundos encarando a mensagem, o polegar parado sobre a tela. A cidade passava do lado de fora, indiferente. Ela digitou: “cheguei sim” Apagou. Digitou de novo: “tô indo” Apagou outra vez. Soltou um suspiro e, por fim, respondeu só: “quase em casa” Mandou. Encostou de novo no vidro. E, pela primeira vez desde que entrou naquela igreja… ela sorriu sozinha, sem perceber. O celular de Aurora ficou quieto depois da resposta simples. Mas o silêncio não parecia mais tão vazio. Ela guardou o aparelho na bolsa e olhou pela janela. As ruas iam ficando mais conhecidas, os pontos da cidade dela surgindo um após o outro. Ainda assim, a mente dela insistia em voltar pra mesma imagem: Jonas parado na calçada, sem saber muito bem o que fazer depois que ela foi embora. — Para de pensar nisso… — ela murmurou baixinho, encostando a testa no vidro. Mas não parou. Jonas já tinha voltado pra dentro do salão. A festa tinha acabado de vez, mesas sendo desmontadas, funcionários organizando tudo, o eco de uma noite que parecia ter sido maior do que deveria. Ele estava perto do bar vazio, segurando o celular na mão. A tela ainda estava na conversa. “quase em casa” Ele leu de novo. E de novo. — Isso não quer dizer nada… — ele falou sozinho, como se tentasse convencer a própria cabeça. Mas não convenceu. O pai dele passou por perto e parou ao ver o filho parado ali. — Você vai pra casa? Jonas demorou um segundo. — Vou. Mas não se moveu de imediato. Aurora chegou no prédio alguns minutos depois. Pagou o táxi, desceu, sentindo o ar mais calmo da madrugada envolvendo ela. O prédio estava silencioso, só algumas luzes acesas nas janelas. Ela entrou, subiu no elevador sozinha. Quando a porta do apartamento abriu, uma pequena gata apareceu correndo, miando alto. — Eu sei, eu sei… você tá com fome — Aurora disse, abaixando e pegando ela no colo. Por um instante, tudo parecia normal de novo. Ela colocou ração, apoiou a testa na geladeira fechada e fechou os olhos. — Que dia foi esse… — sussurrou. O celular vibrou de novo. Ela se virou rápido. Jonas. “Você chegou mesmo?” Aurora ficou parada alguns segundos olhando a mensagem. A gata miava ao lado dela, esfregando nas pernas. Ela finalmente respondeu: “cheguei” Dessa vez, sem apagar. Só enviou. E ficou olhando pra tela, como se esperasse algo que não sabia nomear. Jonas recebeu a resposta e soltou o ar devagar. “cheguei” Simples. Mas suficiente pra tirar dele aquela sensação estranha de vazio que tinha ficado desde a calçada. Ele encostou o celular na mesa e passou a mão pelo rosto. — Você me deixou meio i****a hoje… — murmurou, sozinho. E pela primeira vez, não parecia uma reclamação. Aurora se sentou no sofá com a gata no colo. O celular permaneceu na mão por alguns segundos. Sem novas mensagens. Mas também sem aquela pressa de antes. Ela olhou pra tela apagando sozinha. E, sem perceber, apertou o celular um pouco mais forte. Como se algo tivesse começado… e ainda não tivesse terminado.
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