5

844 Palavras
A madrugada foi ficando mais silenciosa. Aurora terminou de alimentar a gata, tomou um banho rápido e vestiu uma roupa confortável. Mesmo assim, não conseguia desligar completamente o dia na cabeça. Quando deitou no sofá, a gata se enroscou ao lado dela, já mais calma. O celular ficou ali, em cima da mesa, virado pra baixo… mas parecia impossível ignorar a existência dele. Ela virou o rosto de lado. — Você tá bem curiosa hoje… — falou pra si mesma, como se estivesse brigando com os próprios pensamentos. Depois de alguns segundos, esticou o braço e pegou o celular. Nenhuma mensagem nova. Mas ela entrou na conversa mesmo assim. Leu tudo de novo. A igreja. O beijo. O jantar. A mãe dele. A calçada. Jonas. Ela soltou um suspiro e bloqueou a tela. — Isso não era pra ter ficado assim… — murmurou. Mas ficou. Do outro lado da cidade, Jonas também não estava exatamente em paz. Ele tinha chegado em casa, mas não tinha ido direto dormir. Estava na cozinha, camisa aberta, um copo de água na mão, olhando pela janela escura. O apartamento grande parecia mais vazio do que o normal naquela noite. Ele largou o copo na pia devagar. Pegou o celular. Abriu a conversa com Aurora. Digitou: “Você trabalha com isso de aparecer em casamento dos outros?” Parou. Apagou. Digitou de novo: “Você sempre salva pessoas aleatórias?” Apagou outra vez. — Que ridículo… — ele riu sozinho, passando a mão no cabelo. Encostou o celular na bancada. Mas não largou por completo. Aurora virou de lado no sofá, já quase pegando no sono quando o celular vibrou. Ela abriu os olhos rápido. Jonas: “Você sempre salva pessoas aleatórias?” Ela encarou a mensagem por alguns segundos e soltou um sorriso leve. Digitou: “depende da pessoa” Enviou. E ficou olhando. Quase imediatamente, a resposta veio. “E eu?” Aurora ficou imóvel. A gata levantou a cabeça, sentindo o movimento dela. Ela respirou fundo, olhando a tela como se aquilo tivesse mais peso do que deveria. Digitou devagar: “você foi um acidente” Parou. Apagou. Digitou de novo: “você foi uma exceção” Mandou. Jonas leu e ficou alguns segundos em silêncio. “você foi uma exceção” Ele encostou o celular na boca, pensativo, como se aquilo tivesse acertado mais do que deveria. — Exceção… — repetiu baixo. E pela primeira vez naquela noite, ele sorriu de verdade. Não de ironia. Nem de cansaço. Mas de algo perigoso começando a crescer devagar. Ele respondeu: “Não gosto de ser exceção” Aurora viu a mensagem. E ficou parada por alguns segundos, olhando pra tela. Depois digitou: “então vai ter que decidir o que você quer ser” E enviou. A gata miou baixo. Aurora encostou a cabeça no sofá, soltando o ar devagar. Mais do outro lado Jonas ficou alguns segundos olhando para a tela antes de digitar. “Temos uma lua de mel pra amanhã. Você topa ir?” Aurora leu assim que a mensagem chegou. Ficou parada. Depois respondeu: “Eu não posso, tenho trabalho.” A resposta dele veio quase imediata. “São só uma semana.” Ela mordeu o canto do lábio, olhando para o teto por um instante, como se estivesse pensando se aquilo fazia algum sentido na vida real. Digitou: “Tá tudo bem… o que eu preciso levar?” Jonas respondeu rápido, sem hesitar: “Nada. Lá eu compro tudo pra você.” Aurora soltou um riso baixo, incrédula. Digitou: “Jonas, não é assim que funciona.” Ele não demorou. “Então leva roupas leves, vestidos pra noite, um salto se você quiser, casaco pra frio e biquíni pra praia.” Ela leu e balançou a cabeça, sorrindo sozinha. Digitou: “Maridinho, pega leve, tá? Salto eu tenho, vestidinhos também… mas praia eu nunca.” A resposta veio quase na hora. “Você nunca foi na praia?” Aurora ficou alguns segundos olhando a mensagem antes de responder, como se aquilo fosse óbvio demais pra ela. “Não. Eu sou do campo. Tô na cidade há pouco tempo.” Jonas leu e ficou encarando a tela. O apartamento estava silencioso, mas a cabeça dele não. Ele encostou no balcão da cozinha, passando o dedo pela tela antes de responder. “Então você vai comigo.” Aurora viu a mensagem e ficou parada por um instante maior do que o esperado. A gata se mexeu no sofá, quebrando o silêncio do apartamento. Ela digitou devagar: “isso soa muito autoritário, Jonas” Ele respondeu quase no mesmo segundo: “é só uma semana.” Ela respirou fundo, olhando pro celular como se ele tivesse virado um problema interessante demais pra ignorar. Digitou: “eu vou pensar” E enviou. Jonas leu e soltou um riso curto. “isso já é um sim disfarçado” Aurora viu a mensagem… e não respondeu de imediato. Só encostou o celular no peito, olhando pro teto com um sorriso pequeno que ela não tentou esconder dessa vez.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR