capítulo 4

1518 Palavras
Derrick ficou parado no corredor por alguns segundos, observando Stella se afastar. Alguma coisa naquela mulher estava diferente. Ele não sabia dizer o quê. Talvez fosse o jeito como ela tinha ficado séria quando saiu daquela sala. Talvez fosse o modo como guardara o celular rápido demais. Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, depois de um ano, Derrick ainda conhecia cada pequena mudança na expressão dela. — Vai ficar me olhando até amanhã? — Stella perguntou sem sequer virar o rosto. Derrick soltou uma risada nasal. — Você continua insuportável. — E você continua me seguindo. — Eu estou indo trabalhar. — Claro. Ela entrou novamente na área principal. Derrick foi atrás. Quando chegaram, Raul estava diante de um enorme mapa preso na parede. — Finalmente. Stella se aproximou. — Descobriu alguma coisa? — Algumas. Raul apontou para três locais marcados. — Esses três endereços aparecem ligados a José Matos nos últimos anos. Dragon se aproximou. — Empresas? — Duas empresas de fachada. A terceira está registrada em nome de outra pessoa. Tejir girou o notebook. — E eu consegui entrar em uma das bases de dados. Jéssica olhou para ele. — Conseguiu ou alguém deixou você entrar? Tejir sorriu. — Eu prefiro acreditar que consegui. — Então fala. Ele aumentou uma imagem na tela. — Há quatro meses, alguém movimentou uma quantia enorme através dessa empresa. Derrick se aproximou. — Quanto? — Dinheiro suficiente para financiar uma operação grande. Chacal cruzou os braços. — Que tipo de operação? — Ainda não sei. Look ficou encarando a tela. — E José? — Oficialmente, não aparece. Raul franziu a testa. — Oficialmente? Tejir apontou para outra linha. — Extraoficialmente, aparece uma sequência de transferências para contas que estão ligadas a pessoas que já trabalharam com ele. O ambiente ficou silencioso. Stella apoiou as mãos na mesa. — Então ele está movimentando dinheiro por terceiros. — Parece — respondeu Tejir. Dragon analisou os dados. — Isso não é uma operação pequena. — Não — Raul concordou. Felipe entrou na sala carregando um pacote de biscoitos. — Gente, vocês têm uma capacidade impressionante de transformar vinte e cinco milhões numa reunião triste. Chacal olhou para ele. — Como você consegue pensar em comida agora? Felipe abriu o pacote. — Porque, diferente de vocês, eu tenho inteligência emocional. — Você tem fome. — Também. Stella pegou um biscoito da mão dele. — Obrigada. Felipe olhou indignado. — Era meu. — Agora é nosso. — Você sumiu um ano e voltou roubando minha comida? Ela mordeu o biscoito. — Sim. — Eu senti saudade de você. — Eu também senti. Felipe sorriu. Por alguns segundos, o clima ficou mais leve. Até Raul falar: — Temos que decidir se aceitamos a missão. Look respondeu imediatamente: — Já aceitamos. Raul virou para ele. — Você nem perguntou. — Vinte e cinco milhões já estão na conta. Equipamento fornecido. Galpão fornecido. Carros fornecidos. Nosso antigo contato reapareceu. É suspeito pra c*****o. Ele fez uma pausa. — Justamente por isso eu quero descobrir o que está acontecendo. Derrick assentiu. — Concordo. Chacal também. — Eu quero saber quem está por trás. Dragon fechou o notebook. — Eu também. Tejir ergueu a mão. — Nem preciso perguntar. Felipe suspirou. — Então eu estou oficialmente condenado a participar. Stella sorriu. — Você sempre participa. — Eu poderia fugir. Derrick olhou para ele. — Não. — Eu nem terminei. — Não precisa. Felipe resmungou. — Ditadura. Jéssica se aproximou da mesa. — Eu tenho uma coisa. Todos olharam para ela. Ela colocou o celular sobre a mesa. — Encontrei uma comunicação antiga. Raul pegou. — De quando? — Oito meses atrás. Stella ficou séria. — Oito meses? — Sim. Jéssica abriu o arquivo. Era uma mensagem criptografada. Não havia nome. Não havia número. Apenas uma sequência de caracteres. Tejir imediatamente puxou o computador. — Deixa comigo. — Já tentei — Jéssica respondeu. Ele olhou para ela. — E? — Não consegui quebrar. Tejir abriu um sorriso. — Agora você me deixou interessado. Os dois começaram a trabalhar juntos. Enquanto isso, Antônio se aproximou de Stella. — Você está bem? Ela olhou para o irmão. — Estou. Antônio não acreditou. — Stella. — Antônio. — Não faz essa cara comigo. Ela desviou o olhar. — Eu só estou cansada. — Você sabe que pode me contar qualquer coisa. Stella ficou em silêncio. — Eu sei. Antônio abaixou a voz. — E eles não sabem. Ela o encarou. — Não. — Então continua assim. — Eu sei. Antônio respirou fundo. — Só toma cuidado. Agora que vocês estão juntos de novo, vai ficar muito mais difícil esconder qualquer coisa. Stella apertou os lábios. — Eu consigo. — Você sempre acha que consegue tudo sozinha. — Porque geralmente consigo. Antônio deu uma risada curta. — Essa arrogância é nossa família inteira. Ela bateu de leve no braço dele. — Vai trabalhar. — Sim, senhora. --- Algumas horas depois, a equipe já tinha transformado o antigo galpão em uma verdadeira central de operações. Os carros estavam escondidos. As armas organizadas. Os computadores funcionando. As comunicações protegidas. Os suprimentos catalogados. E o mapa principal cobria quase uma parede inteira. Raul entrou na sala carregando algumas folhas. — Temos um problema. Todos olharam. — Que tipo de problema? — perguntou Derrick. Raul colocou os papéis sobre a mesa. — O depósito que recebemos não veio diretamente do José. Stella franziu a testa. — Como assim? — O dinheiro passou por quatro contas antes de chegar. Tejir imediatamente pegou os documentos. — Quatro? — Quatro. Dragon se aproximou. — Então José não está pagando diretamente. — Não. Look ficou sério. — Ele está escondendo a origem. Chacal olhou para Stella. — E isso significa que alguém não quer deixar rastros. — Ou quer que a gente pense que não existem rastros — respondeu ela. Todos olharam para ela. Derrick sorriu de canto. — Aí está. — O quê? — A Stella que eu conheço. Ela cruzou os braços. — Eu nunca fui embora. Derrick sustentou o olhar. — Foi exatamente isso que você fez. O sorriso dela desapareceu por um instante. — Não vamos começar. — Não comecei nada. — Derrick. Raul interrompeu. — Chega. Os dois olharam para ele. — Temos uma missão para planejar. Derrick respirou fundo. — Tá. Stella voltou para o mapa. — Qual é o primeiro passo? Raul apontou para uma área industrial. — Amanhã. Dragon perguntou: — Horário? — Às três da manhã. Felipe arregalou os olhos. — Três da manhã? Chacal deu um tapa no ombro dele. — Você é piloto. — Eu sei. — Então dirige. — Eu preferia dirigir às três da tarde. — Ninguém perguntou. Felipe bufou. Stella segurou o riso. Raul continuou: — Vamos investigar um dos depósitos ligados à empresa de fachada. Look pegou a arma que estava sobre a mesa e verificou o carregador. — Quantos homens? — Não sabemos. Chacal sorriu de leve. — Melhor ainda. Felipe olhou para ele. — Você tem algum problema? — Nenhum. — Você sorri quando não sabe quantos inimigos tem. — E você reclama quando sabe. — Porque eu tenho bom senso. Stella bateu as mãos na mesa. — Chega. Todos ficaram quietos. Ela apontou para o mapa. — Entramos, verificamos, saímos. Nada de heroísmo. Derrick levantou uma sobrancelha. — Você falando isso é quase engraçado. — Eu estou falando sério. — Eu sei. — E se der errado? Look respondeu: — A gente improvisa. — E se o improviso der errado? Dragon sorriu. — Improvisamos de novo. Stella balançou a cabeça. — Vocês são loucos. Raul pegou o mapa. — Mas somos bons. — Isso vocês são. A equipe começou a se dispersar. Cada um foi cuidar de sua parte. Stella ficou sozinha diante do mapa por alguns segundos. Seu celular vibrou. Ela olhou discretamente. Outra mensagem da mãe. Mãe: Denis perguntou por você hoje. O coração dela apertou. Stella fechou os olhos por um instante. Digitou: Stella: Diz que a mamãe está trabalhando. Logo eu volto. Ela apagou a conversa. Guardou o celular. Quando levantou o rosto, viu que alguém estava parado na entrada. Derrick. Ele não tinha visto a tela. Mas tinha visto o sorriso que ela deu para o celular. — Quem era? Stella ficou imóvel por uma fração de segundo. — Minha mãe. Derrick assentiu. — Tudo bem com ela? — Tudo. Ele ficou olhando para ela. — Você está escondendo alguma coisa. Stella sentiu o coração acelerar. Mas manteve o rosto tranquilo. — Todo mundo esconde alguma coisa, Derrick. Ele deu um passo para dentro. — Eu não. Ela sorriu. — Você esconde sim. — O quê? Stella passou por ele. — Que ainda sente minha falta. Derrick segurou o braço dela por um instante. Ela parou. Os dois ficaram se encarando. — Isso nunca foi segredo — ele disse. Stella não respondeu. Apenas soltou o braço devagar e saiu. Derrick ficou sozinho. E, pela primeira vez desde que ela voltara, uma pergunta começou a incomodá-lo de verdade: o que Stella tinha feito durante aquele ano inteiro longe deles?
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