Quando um trauma vira fobia

2167 Palavras
Aceitei a ajuda dele e fui para sua casa. Quando chegamos lá, ele me falou para ficar no quarto lindo que eu amava, esperando enquanto ele buscava algo para passar nos meus machucados. Fui lá e fiquei brincando um pouco, até esqueci da dor e da tristeza por quebrar o quadro do meu paizinho. Ele não demorou muito, logo veio com uma malinha de primeiros socorros na mão, e um punhado de bala na outra. Aquele homem tinha algo em seu olhar que as vezes me deixava com medo, senti isso no dia das fotos, e hoje também, quando ele me falou para sentar na cama e tirar as calças para que ele pudesse fazer um curativo. Eu estava de leggin, não tinha mesmo como erguer bem, só conseguia um pouquinho, e estava doendo muito. Então recusei, disse que não precisava, falei até que tinha parado de doer. Ele insistiu, me colocou sentada na cama e disse que ia me ajudar, eu não tive reação, o que eu poderia fazer? Ele tirou minha calça e começou a passar remédio com um algodaozinho nos locais feridos, ardeu um pouco, mas eu estava tão nervosa e com vergonha que nem me importei. Minha mãe sempre foi muito rígida, nem na frente do meu irmão ela me deixava se trocar, meu pai também me dizia que era f**o uma menina se trocar na frente dos meninos, e principalmente na frente de estranhos. Ele passou o remédio, perguntou se estava doendo, eu falei que não. Então ele subiu a mão e tocou em minhas partes íntimas, eu me encolhi toda envergonhada, e disse que já estava bom, que eu precisava ir, fui saindo da cama para pegar minha calça, ele a pegou antes de mim, e disse: - nada disso mocinha, você não quer tirar uma foto pra mim como aquelas outras crianças? Então tem que se comportar. Se colocar a calça agora vai tirar todo o remédio que passei, e eu vou ter perdido o meu tempo, e eu fico muito bravo quando me fazem perder tempo, e sabe o que eu faço quando fico bravo? Balancei a cabeça dizendo que não, já assustada. Ele riu e me fez cócegas até eu rir também. Depois me pegou no colo, colocou de novo sentada na cama, disse que eu tinha que ser boazinha se não quisesse que minha mãe soubesse que eu estava ali com um homem estranho, e me desse outra surra. Nesse momento, eu já estava com medo. Ele tocou novamente em mim, e puxou minha calcinha para baixo, colocando sua mão dentro, eu olhei pra ele e disse: -  pára, eu não gosto disso, eu vou gritar! Nesse momento, pude ouvir alguém batendo palmas, ele me disse para esperar quietinha ali, saiu e trancou a porta com a chave, era meu momento, não pensei duas vezes, vesti a calça rápido e pulei a janela, como o muro era muito alto e eu não ia conseguir pular, ouvi que ele estava conversando com alguém lá na frente, no portão, sai correndo, tinha um garotinho com um carrinho de recicláveis que estava pegando algumas coisas no pátio dele, passei pelo meio dos dois como um raio! Cheguei em casa já estava quase escurecendo, senti muito medo em passar no Mato sozinha, e também fiquei com medo que ele viesse atrás de mim, e me pegasse ali sozinha, então dei a volta e vim pela rua, que ficava mais longe, mas era mais seguro, vim correndo e chorando, já na frente de casa tropecei em uma pedra e cai na grama que tinha ao lado do muro, bati meus machucados da surra e fechei os olhos sentindo dor, no mesmo momento senti algo passando em cima da minha mão, abri os olhos rápido e era uma aranha caranguejeira daquelas enormes, quase cobrindo a minha mão, dei um grito muito alto e sacudi rapido a mão e entrei em casa, minha mãe que estava na cozinha abriu a porta rápido ao ouvir meu grito, minhas irmãs estavam na sala, e tambem vieram rapido ver o que estava acontecendo, meu irmão ainda não tinha chegado do trabalho. Vieram correndo perguntar porque eu estava chorando daquele jeito, eu não conseguia falar. Minha irmã pegou água para mim, me acalmei um pouco e falei que estava brincando com uma amiguinha da escola que morava na outra rua, e nem me dei conta da hora, falei que vim correndo e tropecei perto do muro e cai em cima de uma aranha enorme, falei isso aos soluços, e cada vez que lembrava da sensação daquele bicho rastejante passando na minha mão sentia as pernas amolecer e o coração disparar, comecei a chorar muito de novo. Minha mãe falou: - tá maluca menina! Será que vou ter que colocar correntes em você? Deixei você brincar aqui do lado, pensei que estava aqui e de repente você some, vai para a casa de uma colega que eu não sei nem quem é, e nem avisa sua mãe?! Você tem mãe ainda sabia? Não pode andar por aí como se mandasse no próprio nariz! Você é uma criança! Nisso meu irmão chegou, perguntou o que estava acontecendo - essa garota ai! Acha que se manda e pode ir pra onde quiser sem avisar, não sei mais o que faço com essa menina, Maurício! - a senhora bateu nela de novo mãe? Ela está com a cara inchada de tanto chorar, o que é isso? Daqui a pouco o Conselho vem atrás! Meu irmão falou bravo com minha mãe pra me defender, e eu interrompi dizendo que havia caído e me assustado de uma aranha, por isso estava chorando, falei que ia tomar banho engolindo o choro. A água ardia quando caia nas minhas pernas, eu lembrava daquele homem me tocando daquele jeito, ficava pensando por que ele fez aquilo comigo, eu gostava dele, gostava de brincar lá, ao mesmo tempo que pensava nisso, sentia um medo enorme percorrendo cada pedacinho do meu corpo ao lembrar daquela aranha h******l. Eu queria contar para alguém o que aquele homem fez, mas tinha medo da minha mãe, ela ia me bater muito se soubesse que eu estava indo lá. Eu sabia o que ele estava fazendo, na escola a professora sempre nos orientava a contar a um adulto caso algo assim acontecesse. Mas ela falando lá na sala para a gente era uma coisa, vivendo a situação ali como eu estava, era bem diferente. Os anos se passaram e eu nunca contei nada a ninguém, também nunca mais falei com estranhos na rua. Na escola sempre tive medo de ficar sozinha por muito tempo, de andar na rua sozinha também... mas com o passar do tempo, eu não lembrava mais do rosto daquele homem, das mãos dele tocando em mim, não lembrava mais do quarto de brinquedos, nem das horas que passei lá. Mas um medo me perseguia sempre: o da aranha. Eu tinha pavor de aranhas, tremia, chorava, as pernas amorteciam, coração acelerava, teve vezes que até vomitei em uma das crises de pânico ao ver uma. Parece que meu inconsciente só lembrava disso sobre aquele dia, e meu pavor era enorme! Bom, eu cresci e as coisas não mudaram muito por aqui, continuo morando com minha mãe e meus irmãos, e ainda tenho pavor de aranhas. Minha mãe ainda é muito rígida comigo, não me deixa sair, não me deixa fazer nada, é só da escola para casa. Queria trabalhar também para ajudar em casa, tenho 17 anos, e alguma coisinha eu consigo arrumar, mas ela também não deixa, diz que quer que eu estude, e que tenha a oportunidade que ela não teve, e que meus irmãos também não tem muito. Eles trabalham durante o dia e estudam a noite. Meu irmão trabalha em uma empresa grande aqui da cidade, tenho muito orgulho dele. Hoje tem uma festa a noite, aniversário de um menino da escola, todo mundo vai, eu acho ele o maior gatinho, mas nunca tenho chance de poder deixar ele perceber isso, ele está sempre rodeado de meninas lindas e livres, já eu, não posso nem ir na esquina sem pedir permissão. Pra variar, ela não me deixou ir a festa. É na Vila aqui ao lado, da uns 20 minutos a pé, mas eu iria com uma amiga que mora na outra rua, a mãe dela vai levar e buscar, mas minha mãe já disse que não posso. É sábado e meus irmão vão sair, eles namoram, podem ter uma vida, eu não. Estava tão chateada que nem quis jantar, me tranquei no quarto era umas 18h e nem sai mais. Quando era 19:20, a Suellen, minha melhor amiga me mandou mensagem dizendo que ia na festa, e que tinha um plano para me levar junto. Perguntei o que e ela não respondeu mais. Continuei lá deitada sem botar fé no que ela disse. Alguns minutos depois, minha mãe bateu na porta do quarto e disse pra eu sair por que a Pamela estava lá. Pamela é minha prima, e sempre aprontamos muito juntas, desde criança. A Pamela entrou e disse pra minha mãe: - tia, será que a Alice pode dormir lá em casa hoje? O pai me mandou aqui, ele quer sair com a mãe mas não quer que eu fique sozinha com o Luiz. A Pamela tinha acabado de fazer 15 anos, meu tio era um saco igual a minha mãe, mas a tia era mais mente aberta. Eles têm mais o Luizinho, de 8 anos. Minha mãe falou que eu podia ir, mas que no outro dia era pra estar ali bem cedo. Peguei algumas coisas de higiene básica que ia precisar, e fui. Quando saímos pra fora de casa ela me disse: -Me deve essa priminha! Me dando um tapinha nas costas. Olhei e a Sue estava nos esperando na outra esquina, veio toda contente nos encontrar - não disse que você ia comigo? A Sue e a Pami saiam, iam a festas, podiam se divertir, e ainda eram mais novas que eu, e eu não entendia por que a minha mãe me prendia tanto, nem namorar eu podia, o único rapaz que se atreveu a me pedir em namoro foi o Tulio, mas ela o escurraçou de casa, quando eu tinha 15 anos. Minha prima foi pra casa dela, ela não ia na festa, meus tios realmente iam sair, e ela tinha que ficar de babá. Eu fui com a Sue para a casa dela, ela me emprestou um vestidinho preto coladinho, e também uma sapatilha, como íamos a pé, preferimos algo mais confortável. Chegamos na festa, já meio atrasadas. Já  tinham muitos amigos da escola lá quando chegamos. Logo veio minha amiga e o irmão dela, o aniversariante, nos receber. Eu não levei presente nenhum, já que fui de última hora, então me desculpei por isso. Ele todo assanhado, me disse que tinham outras formas de presentear, e todo o pessoal que estava perto deu aquele famoso "huuumm" eu sou tímida e senti o rosto esquentar. Ele nos levou a uma sala, onde tinha muita gente, alguns fumando e bebendo, me sinto um peixe fora d'água nessas situações, pra ser sincera, eu não consigo gostar de bebida alcoólica, e cigarro me dá nojo! Ficamos um pouco ali conversando, até que o menino veio me chamar pra pegar uma bebida com ele, eu sabia as intenções, e adorei. Fomos para os fundos da casa, na parte da piscina, estava em obras, então não havia ninguém lá. Ele já chegou me beijando, beijão mesmo, de tirar o fôlego, mas quando estavamos nos beijando, apareceu uma garota, não sei de onde, e ele ficou todo assustado, a menina era loira, alta, cabelos pelo ombro, num degrade repicado, muito bonita. Ela olhou pra gente, disse oi e pediu desculpas, quebrando nosso clima. Ele ficou estranho, se afastou de mim, ficamos conversando por uns minutos e ele me convidou pra voltar pra festa, nessa altura eu já estava muito sem graça. Com certeza ele tinha algo com aquela garota. Voltamos, encontrei minha amiga muito bêbada, perguntei ao pessoal que estava por perto o que ela tomou e ninguém falava nada, tava todo mundo rindo, bêbados, chapados, eu não sabia o que fazer, não demoramos tanto assim a ponto dela ficar bêbada daquele jeito, tentei levar ela para o banheiro, ia dar um banho nela, mas sozinha não consegui. Até que aquela moça que empatou meu pega com o gatinho se aproximou da gente e disse: - Eu sei o que aconteceu com sua amiga. Olhei pra ela meio sem entender, e ela continuou... - ela estava com uns meninos meio barra pesada, conhecidos por batizar a bebida das meninas, até conseguirem o que querem. -cadê eles, quem são? - Aqueles dois que estão lá na porta dos fundos. Quando passei por vocês na piscina e entrei aqui, sua amiga estava com eles lá na churrasqueira, tomando algo. Vem, eu posso te ajudar com ela.
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