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1314 Palavras
A terça-feira amanheceu com um céu cinzento e carregado, como se o clima refletisse o estado emocional de Isadora. Ela chegou cedo à Corp Group Brasil, determinada a manter o foco no trabalho e ignorar os resquícios da noite anterior. Estava decidida a seguir em frente, colocar barreiras onde antes só havia brechas. Mas assim que entrou no prédio e subiu até seu andar, seu coração deu um solavanco. Dante já estava lá. A porta de sua sala estava entreaberta, e ela o viu sentado em frente ao computador, camisa preta, mangas dobradas, concentrado em algo que digitava. Ele não a notou de imediato, ou fingiu não notar. Isa apressou o passo, desviando o olhar e indo direto para sua própria sala, tentando ignorar a onda de tensão que percorreu sua espinha. O dia se arrastou entre relatórios e reuniões, mas nada parecia capaz de abafar o turbilhão que se formava dentro dela. E como se o destino quisesse brincar mais um pouco, o telefone dela tocou no meio da tarde. Ela atendeu. — Dra. Renata? Está tudo bem? — Boa tarde, Isa. Sim, tudo certo. Mas precisamos conversar pessoalmente. Rodrigo se recusou a assinar o termo de separação. Está contestando o processo e exigindo revisão do acordo que vocês haviam alinhado. Isa apertou os olhos, sentindo uma fisgada na nuca. — Ele está contestando? Em que sentido? — Disse que foi coagido emocionalmente, que não teve tempo de pensar e que não vai abrir mão de nada. E... mencionou sua relação com um novo homem. Isa ficou em silêncio por um instante. — Ele está usando o Dante? — Parece que sim. Podemos nos encontrar amanhã? É importante alinharmos uma nova estratégia. Isso pode se arrastar, Isa, e ele está disposto a dificultar. — Amanhã. Me envia o horário e endereço. — Envio sim. E... força. Vai passar. Isa desligou, encostando o celular sobre a mesa. Ficou alguns segundos olhando para a tela do notebook sem realmente enxergar nada. O passado batia à porta com força, e parecia disposto a não deixá-la seguir. Ela se levantou e foi até a janela, observando o movimento das nuvens. Precisava manter a calma. Precisava ser firme. Rodrigo podia espernear o quanto quisesse — ela não voltaria atrás. Isadora caminhava pelo corredor da empresa com o olhar perdido e a cabeça cheia. Foi até a copa buscar um café, torcendo para encontrar o lugar vazio. Não queria conversa, só precisava de alguns minutos de silêncio e cafeína. A xícara tremia levemente em seus dedos enquanto ela se servia. O telefone com a ligação da advogada ainda ecoava na mente. Quando se virou, distraída, esbarrou na quina da bancada. A xícara escorregou, caiu no chão e se espatifou com um estalo seco. — Droga — ela murmurou, ajoelhando-se imediatamente para juntar os pedaços. — Cuidado — a voz grave e familiar veio atrás dela. Dante se abaixou ao seu lado, pegando uma das lascas maiores da porcelana. — Vai acabar se cortando. Ela suspirou, mas não discutiu. — Eu tô bem — disse, sem muito convencimento. Ele não respondeu de imediato. Quando se levantaram, ele a encarou por um momento mais longo do que o necessário. — Tem certeza? Isadora hesitou. Quase disse que sim, mas o olhar dele era direto e sem pressa. Sem julgamento. Só... observando. E pela primeira vez, ela sentiu que podia responder com sinceridade, sem que isso soasse como um pedido de ajuda. — Minha advogada ligou hoje — disse, pegando um papel e limpando o café derramado. — Meu ex está tentando dificultar o divórcio. Disse que foi coagido, que o acordo é injusto... Dante apoiou a mão na bancada, só ouvindo. — E agora está querendo rever tudo. Inclusive usando a "possibilidade" de eu estar me envolvendo com alguém como desculpa pra isso. Ele ergueu uma sobrancelha, como se aquilo não o surpreendesse. — Tipo você? — É — ela soltou uma risada seca. — m*l troquei três palavras com você perto dele, mas parece que foi o suficiente pra alimentar a paranoia. — Homens inseguros não precisam de muito. Só de uma desculpa — ele disse, com simplicidade. Ela o olhou, cruzando os braços. Dante parecia calmo, mas atento. — Não quero te envolver nisso — disse ela. — Não tem por que. — Não me envolvi — ele deu de ombros. — Só tô aqui... ouvindo. Isadora abaixou o olhar e soltou o ar devagar, como se aquilo a aliviasse um pouco. Um tipo de conversa simples, direta, sem grandes reações. Exatamente o que ela precisava. — Vai dar certo — ele disse por fim, pegando outra xícara e servindo um café. — Com ou sem ele tentando atrapalhar. Ela não agradeceu, mas pegou a xícara que ele lhe estendeu. — Valeu — disse apenas. Os olhos dos dois se encontraram por um segundo. Só um segundo. Mas naquele olhar havia um entendimento silencioso. Um passo a mais na construção de algo que nem eles sabiam o que era. Ela deu um gole no café e virou-se para sair. — Não quebra essa — ele disse atrás dela, com um meio sorriso. — Vai depender do dia — ela retrucou sem olhar para trás, mas com um canto da boca curvado. O fim da tarde chegou arrastado, como se o relógio estivesse testando a paciência de Isadora. Assim que o expediente terminou, ela pegou a bolsa e seguiu direto para o pequeno escritório no centro onde sua advogada, Rafaela Lemos, costumava atender. O local era discreto, bem iluminado, com estantes cheias de pastas organizadas e uma mesa de madeira escura no centro. Rafaela, uma mulher na faixa dos quarenta, de postura confiante e olhar analítico, era conhecida por sua objetividade. — Isa — ela cumprimentou, indicando a cadeira à sua frente. — Que bom que conseguiu vir rápido. Precisamos conversar com calma sobre os próximos passos. — O Rodrigo contestou o acordo, né? — Isa foi direta. Rafaela puxou uma pasta da lateral da mesa e a abriu, confirmando com um leve aceno de cabeça. — Alegou que foi pressionado a assinar os documentos. Que estava emocionalmente instável e que você se aproveitou disso. Isa soltou uma risada curta, sem humor. — Pressionado? Ele quem me traiu e ainda teve a coragem de dizer que estava fragilizado? — É uma tentativa fraca, mas não incomum. Além disso... — Rafaela virou outra folha — ele insinuou que você estava envolvida com alguém antes da separação. E quer usar isso para tentar anular o acordo. Isa ergueu as sobrancelhas, surpresa. — Eu conheci o Dante depois de tudo. E a última coisa que ele foi até pouco tempo era envolvimento. — Eu acredito em você. Só estou te atualizando sobre as estratégias do outro lado. É provável que tentem transformar isso numa novela, fazer barulho pra te desgastar. Isa cruzou os braços, firme. — Não tenho nada pra esconder. Só quero resolver isso de forma limpa. — Ótimo. Isso me ajuda muito. Mas preciso que me envie ainda hoje qualquer mensagem, e-mail, comprovante de que a decisão de sair de casa foi sua, mas sem conflito. Isso reforça sua postura conciliadora. — Tenho prints, conversas com minha mãe, até o comprovante do hotel em que fiquei na primeira semana. Te mando tudo assim que chegar em casa. Rafaela assentiu, satisfeita. — Perfeito. Com isso, a gente consegue manter o processo fluindo sem que ele ganhe espaço pra manobras. Isa respirou fundo, tentando manter o foco. — Ele está só querendo me controlar de novo. Não vai conseguir. — E não vai mesmo — Rafaela respondeu, firme. — Mas mantenha a discrição com esse possível envolvimento com o Dante. Mesmo sem nada oficial, qualquer foto, comentário ou fofoca pode virar argumento contra você. Isa balançou a cabeça, compreendendo. — Não é nada. E mesmo se fosse, não é crime começar de novo.
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