Pré-visualização gratuita Prólogo
A chave girou na fechadura mais cedo do que o habitual.
Ela não sabia explicar o porquê — se era o cansaço, a saudade ou aquela intuição incômoda que gritava no fundo do peito.
A noite estava abafada, e a garoa fina que escorria pelo vidro do carro parecia prenunciar o que ela ainda não sabia.
Isadora tinha passado os últimos dois anos da sua vida tentando ser perfeita.
A esposa compreensiva. A mulher que entendia a ausência, que aceitava o silêncio, que sorria mesmo quando o desejo sumia do toque dele.
Mas ali, com os saltos batendo no mármore frio do hall, tudo parecia fora de lugar.
A luz da sala estava acesa. A música vinha abafada do andar de cima.
Ela franziu o cenho. Aquela era a playlist de festas, não a de jantares românticos ou noites tranquilas.
Um arrepio correu pela espinha quando ouviu a primeira risada — uma risada feminina.
Subiu as escadas sem fazer barulho, cada degrau rangendo como se denunciasse seus passos à própria realidade.
As portas do quarto estavam entreabertas.
O perfume de outro corpo estava no ar.
Ela empurrou a madeira lentamente, e o mundo parou.
Parou. Rasgou. Desabou.
Ali, em cima da cama que dividia há dois anos, seu marido estava ajoelhado, nu, com a boca entre as pernas de uma mulher que gemia como se pertencesse à casa.
Atrás dele, um homem observava, com uma mão segurando a nuca do seu marido, guiando-o, dominando-o — como se fosse comum, como se aquilo fosse uma prática rotineira.
A visão a atingiu como uma facada no estômago. Não pela perversão, não pelo número de corpos.
Mas pelo segredo.
Pelo quanto ela não sabia. Pelo quanto ele mentiu.
Por todas as noites em que se deitou sozinha achando que o problema era ela.
Isadora não gritou.
Não quebrou nada.
Não pediu explicações.
Ela apenas olhou.
O marido levantou os olhos, o rosto molhado, surpreso, assustado.
"Isa..." — foi tudo o que conseguiu dizer.
Mas já era tarde. A mulher se cobriu com um lençol, o homem apenas deu um sorriso cínico, e Isadora apenas virou as costas.
Descendo as escadas, os olhos marejados, sentia o corpo formigar.
Não de dor.
Mas de libertação.
Talvez ela estivesse morta fazia tempo.
Talvez aquela cena a tivesse acordado.
Talvez... agora, fosse a hora de renascer.
Isadora desceu os últimos degraus sentindo o peso do olhar dele nas costas. O baque dos pés descalços dele atrás dela ecoou pela escada.
— Isa, espera! — ele chamou, a voz trêmula, ofegante.
Ela parou diante da porta da sala, com a mão já na maçaneta. Não queria olhar pra trás. Não queria dar o gosto da dúvida. Mas a raiva queimava demais pra ser engolida.
— Esperar? — ela virou lentamente, encarando-o. — Esperar pra quê? Pra você terminar de chupar o p*u dele? Ou pra ela se vestir e descer comigo pra conversar sobre essa farsa que você chamou de casamento?
— Não é assim... — ele deu um passo na direção dela, coberto apenas por uma toalha amarrada na cintura. — Eu... eu tentei te contar, mas...
— Tentou? — ela riu, amargo. — Durante qual mentira? Naquelas noites que você dizia que estava cansado demais pra me tocar? Ou nas viagens a trabalho que duravam dias e voltavam com perfume de mulher e marcas que não eram minhas?
O rosto dele empalideceu.
— Eu nunca deixei de te amar.
— Ah, então f***r outras pessoas era o quê? Uma nova forma de amar? Um clube do c*****o onde só você tinha passe livre?
— Eu estava confuso, Isa. Eu sempre fui confuso com o que sentia, com o que queria... Mas eu juro que nunca fiz isso pra te machucar.
Ela se aproximou devagar, o olhar tão afiado que poderia cortá-lo.
— Você me usou pra manter sua fachada de marido perfeito. Me transformou em uma boneca de vitrine enquanto vivia uma vida paralela com quem você realmente desejava. Isso não é confusão. Isso é covardia.
— Eu queria manter tudo junto... Eu achava que podia... — ele tentou tocá-la no braço, mas ela afastou com um tapa seco.
— Não encosta em mim. Não com essas mãos que estavam entre as pernas dela há cinco minutos.
Ele respirou fundo, o desespero crescendo.
— E se a gente conversasse amanhã? Com calma. Eu posso explicar...
— Explicar o quê? Que você me traiu com um casal enquanto eu acreditava que nosso casamento era só uma fase r**m?
Ela se aproximou novamente, bem perto, o suficiente para ele sentir o perfume que ela usava só em ocasiões especiais — e que ele não notava fazia meses.
— Sabe o que mais me fode? — ela sussurrou, os olhos cravados nos dele. — Não foi você gozar com outro. Foi eu ter passado noites me culpando, achando que eu tinha deixado de ser suficiente.
Ele ficou em silêncio. Pela primeira vez, ele não tinha desculpas.
— Eu vou embora. E não tenta me ligar, não tenta me procurar. Não quero metade de nada. Não quero explicações. Só quero distância.
E então, ela abriu a porta.
O ar da noite bateu no rosto dela como um soco — gélido, cortante, libertador.
Lá fora, o mundo parecia o mesmo. Mas dentro dela, algo tinha quebrado de vez.
Isadora entrou no carro e ligou o motor.
— f**a-se — sussurrou para si mesma, enquanto acelerava.
Ela não sabia onde ia. Só sabia que não queria mais ser a mulher que chorava baixinho pra não incomodar ninguém.
O som do motor abafava os pensamentos. Isadora dirigia sem rumo, com o volante firme entre os dedos trêmulos e os olhos marejados. O céu sobre São Paulo parecia pesado, cúmplice do que ela sentia.
Ela seguiu pela Marginal, depois cortou por avenidas que conhecia bem — ou achava que conhecia. O GPS não era o que guiava naquela noite, era o instinto. Ou talvez o desespero.
Quando viu, já estava subindo a Rua Augusta, deixando os bares e baladas pra trás até chegar ao topo da Paulista. Foi então que avistou o hotel imponente, iluminado com discreta elegância. Cinco estrelas. Janelas espelhadas. E silêncio por fora.
O Fasano.
Estacionou o carro no valet com o rosto manchado de maquiagem borrada e orgulho em frangalhos. Um recepcionista gentil nem ousou comentar — apenas entregou a chave do quarto e a acompanhou até o elevador. Discrição era o luxo mais valioso.
No quarto, ao fechar a porta, ela se encostou e deslizou até o chão. E chorou.
Não um choro bonito, silencioso. Foi um desabafo feio, doído, com soluços, com gritos abafados no travesseiro de linho egípcio. As lágrimas lavaram a dor, o nojo, o vazio. Chorar sozinha num hotel de luxo foi a coisa mais honesta que ela fez por si em anos.
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O sol de São Paulo entrava pelas cortinas no dia seguinte quando Isadora abriu os olhos com a sensação de ressaca emocional.
Ela tomou um banho quente, lavou o rosto, prendeu o cabelo com elegância. Vestiu-se com classe. Saltos altos. Camisa de seda branca. Óculos escuros.
Desceu até a garagem e pediu seu carro.
Dessa vez, ela sabia pra onde ia.
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A rua estava estranhamente silenciosa quando ela parou diante da casa. A mesma casa onde juraram construir uma família. Onde penduraram quadros que agora pareciam zombar dela.
Entrou como um furacão calmo.
O ex ainda estava lá, sentado no sofá, com olheiras fundas e expressão abatida. Mas ela não falou com ele. Subiu as escadas, pegou duas malas grandes e começou a enfiar suas roupas com precisão cirúrgica.
Perfumes, sapatos, calcinhas de renda que ele nunca viu.
— Vai mesmo fazer isso? — ele perguntou da porta do quarto.
Ela olhou por cima do ombro.
— Já fiz. Isso aqui é só o empacotamento do caixão.
Ele ficou calado.
— E onde você vai morar? — ousou perguntar, como se ainda tivesse algum poder.
— Num lugar onde eu não me sinta traída por respirar.
Ela fechou o zíper da mala com força.
— E não se preocupe... onde quer que seja, é longe o suficiente pra você brincar de casinha com seus novos parceiros.
Desceu as escadas com a mala em cada mão e a alma mais leve que no dia anterior.
Ao entrar no carro, abriu o celular e digitou no navegador:
"apartamento para alugar — Jardins, São Paulo — 1 quarto — mobiliado"
Ela não precisava de muito.
Só precisava recomeçar.
E o destino dela estava a poucos quarteirões...
mas a quilômetros de quem ela foi.