Isadora observava o horizonte da sacada do novo apartamento, no décimo sexto andar de um prédio envidraçado no Jardins. O sol de São Paulo pintava de dourado os topos dos edifícios, refletindo nas fachadas de concreto e vidro como se anunciasse o recomeço que ela tanto precisava.
O lugar era exatamente o que procurava: mobiliado com bom gosto, elegante, funcional. Não era grande, mas era suficiente. A cama king size de lençóis brancos e macios, a cozinha com mármore n***o, os armários embutidos. Tudo minimalista, tudo impessoal — o oposto da casa onde viveu com o ex-marido.
Ali, ninguém havia traído sua confiança.
Ali, era só ela.
Fechou os olhos e respirou fundo.
Novo endereço, novo fôlego.
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A segunda-feira chegou com a pressa que as semanas sempre trazem em São Paulo. Isadora acordou às 6h em ponto, tomou banho, arrumou o cabelo e escolheu a roupa com atenção cirúrgica: uma calça de alfaiataria azul-marinho, salto nude, blusa de seda preta de decote discreto e um blazer que moldava perfeitamente sua cintura.
Ela sempre teve gosto refinado. Era filha de pais tradicionais do interior, mas foi criada em colégios particulares da capital. Formou-se em Administração na FAAP, com pós em Finanças Corporativas. Trabalhou duro, galgou cada degrau com esforço. E agora, aos 32 anos, era analista sênior em uma das maiores empresas do setor de investimentos de São Paulo.
A sede da empresa ficava na Avenida Faria Lima — coração do luxo corporativo. Prédios espelhados, cafés lotados de engravatados, gente com pressa, gente com metas, e um ego inflado a cada esquina.
Ela chegou às 8h10, subiu ao 23º andar, e foi recebida com sorrisos discretos e algumas perguntas sem interesse real.
Mas logo no corredor, ouviu aquela voz familiar.
— Isaaaaa, c*****o! Você tá viva?
Ela virou e sorriu com um alívio sincero ao ver a amiga.
Júlia.
Ruiva, boca carnuda, vestida com um macacão vinho justo demais para o dress code — mas ela sempre escapava por ser brilhante e debochada. Júlia era analista de contas, e conhecia Isadora desde os tempos da faculdade.
— Estou viva, embora não pareça — respondeu com um sorriso cansado.
As duas se abraçaram ali mesmo, no meio do corredor, chamando a atenção de alguns colegas.
— Que que aconteceu, mulher? Sumiu de tudo. Nem no grupo da firma deu sinal.
Isadora engoliu seco.
— Terminei com o Vinícius.
— Como assim? — Júlia arregalou os olhos. — Você tá zoando…
— Peguei ele.
— Com outra?
— Com dois outros.
Júlia piscou.
— Ah não…
— Um homem. E uma mulher.
— p**a que pariu, Dora!
— Pois é. Peguei com a cara enfiada na b***a do cara enquanto a mulher gemia em cima dele.
— Não. Para. Você tá brincando.
— Queria.
Júlia levou a mão à boca.
— Meu Deus. Que… cena.
— Horrível. Devastadora.
— Excitante, se não fosse com o seu marido.
Isadora riu, sem querer.
— Vai se f***r.
— Tô tentando, mas tá difícil — Júlia deu uma piscada. — E você tá bem?
— Ontem me mudei. Jardim Paulista. Um flat que parece hotel, sabe? Pequeno, mas é só meu.
— Já é um recomeço.
— É. Só não sei por onde começo.
— Começa por uma noitada comigo no próximo fim de semana.
— Júlia…
— Nada de homem. Só bebida, dança e mulheres héteros fingindo que são bi pra ganhar tequila.
— Que imagem deliciosa — ela sorriu. — Mas eu preciso trabalhar.
As duas riram e seguiram para a copa para o primeiro café do dia.
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O resto da manhã seguiu entre e-mails, planilhas e reuniões. Isadora sempre foi impecável no trabalho — mesmo quando tudo dentro dela estava em ruínas, o lado profissional seguia ileso. Era a armadura.
Por volta das 14h, recebeu uma mensagem de Júlia:
"Reunião com o setor comercial, sala 7. Vai dar sono, mas tem café forte."
Isadora seguiu até a sala, se posicionou em um dos assentos da ponta e preparou sua caneca de café preto sem açúcar.
O café preto sem açúcar ainda esquentava suas mãos quando a reunião finalmente chegou ao fim. A sala se esvaziava aos poucos, com colegas murmurando promessas de entregar relatórios e metas, enquanto o coordenador desligava o projetor. Júlia foi a primeira a sair, fazendo uma careta para Isadora, que só sorriu e acenou com a cabeça, o cansaço marcando o canto dos olhos.
Naquela semana, o tempo escorreu como um filete de vinho num lençol de seda. Os dias foram cheios, os prazos apertados, e ela se jogou no trabalho como se fosse uma âncora. Toda manhã acordava no novo flat, se maquiava como uma armadura, e seguia firme.
Não havia mais Vinícius.
Não havia mais lar.
Restava ela. E a empresa.
Até a sexta-feira chegar.
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A manhã de sexta parecia comum. Havia recebido um e-mail pedindo que comparecesse à sala do diretor do setor financeiro — Marco Aurélio, um homem de cinquenta e poucos anos, sempre bem alinhado, mas com olhos que não sabiam esconder soberba.
Júlia recebeu o mesmo convite.
— Que estranho, né? — murmurou a amiga. — Será que erraram algum número nos relatórios?
Isadora balançou a cabeça, sem saber o que pensar. Às 10h em ponto, elas entraram juntas na sala ampla, com vista para o MASP e os prédios engolidos por neblina. Marco Aurélio os esperava com uma expressão ensaiada.
— Meninas, por favor, sentem-se.
Não era um tom gentil. Era profissional demais. Formal demais.
Ele respirou fundo.
— Eu lamento ter que dizer isso… Mas devido a ajustes orçamentários e corte de custos, infelizmente, os setores de suporte financeiro e análise passarão por uma reestruturação. Os cargos de vocês serão extintos.
Silêncio.
O ar-condicionado soprava gelado demais.
— Como assim? — Júlia foi a primeira a reagir, com as sobrancelhas arqueadas. — Do nada?
— Isso já vinha sendo estudado há algum tempo. Não é pessoal — respondeu Marco, olhando apenas para Isadora. — Vocês receberão todos os direitos, claro. Há uma carta de recomendação para ambas, inclusive. Vocês foram profissionais impecáveis.
Impecáveis.
Essa palavra latejou nos ouvidos dela.
— Que conveniente — Isadora disse baixo, mas audível. — Então ser “impecável” não é o suficiente?
Marco se remexeu na cadeira.
— Isa… — ele tentou suavizar —, você sabe que às vezes o que determina o destino de alguém em uma empresa não é só o currículo.
A frase ficou suspensa no ar.
Júlia virou para a amiga e franziu o cenho.
— Você quer dizer o quê com isso?
Isadora o encarou. Os olhos dela não piscavam.
— Está dizendo que meu currículo não é suficiente, Marco? Ou que agora que não tenho mais ligação com Vinícius, vocês não têm por que manter a farsa?
Ele abriu a boca. Fechou. O silêncio disse mais do que qualquer resposta.
Era isso.
O emprego, os elogios, as oportunidades… tudo estava diretamente ligado ao ex-marido. Vinícius, o homem que a traíra com metade do setor executivo, também havia aberto portas. Portas que agora se fechavam na cara dela com elegância disfarçada.
— Fui contratada por pena? Ou por conveniência política? — ela se levantou, a voz firme, cortante. — Isso aqui sempre foi um teatro?
— Isadora, por favor, não torne isso mais difícil.
— Difícil? Difícil foi me reerguer depois de flagrar meu marido em um ménage com seu chefe direto. Difícil é descobrir que eu era apenas um nome bonitinho ao lado de alguém influente. Difícil é saber que nada do que conquistei foi mérito — foi favor.
— Você vai receber tudo — ele repetiu, tentando manter a compostura.
Júlia também se levantou.
— Engraçado, né? A gente sempre achando que aqui dentro o que valia era competência.
— Eu espero que a empresa afunde em auditoria — disparou Isadora, pegando sua bolsa. — Porque o que não falta aqui é sujeira debaixo dos tapetes de mármore.
As duas saíram da sala em silêncio, sob olhares dos colegas que fingiam não ver nada.
Na saída do prédio, Júlia resmungou:
— Eu juro que se eu encontrar Vinícius na rua, eu atropelo.
Isadora soltou um riso amargo.
— Fica na fila. A minha vontade é fazer isso de salto.
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Mais tarde, sozinha no flat, Isadora sentou no chão frio da sala. Olhou em volta: móveis que não eram dela, uma vista bonita demais para um coração tão apertado.
Ela se permitiu chorar.
Não pelas demissões. Mas por tudo que estava desmoronando.
O casamento. A carreira. A confiança.
Tudo contaminado pelo toque venenoso de um homem narcisista e manipulador.
Mas ali, entre lágrimas e silêncio, nasceu algo.
Um desejo estranho. Ardente. Perigoso.
Desejo de não ser mais passiva na própria história.
De deixar de ser mulher de alguém, funcionária de alguém, parte de algo.
De se tornar a protagonista do próprio caos.
E talvez… explorar o que sempre esteve reprimido dentro dela.
Desejo.
Poder.
Controle.