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1271 Palavras
O carro seguia silencioso pelas ruas de São Francisco até o hotel. As luzes da cidade passavam pela janela, refletindo nos rostos deles. Isadora olhava para fora, o corpo ainda sensível, a mente tentando processar tudo o que tinham vivido naquela noite. Dante, ao lado, mantinha-se sereno, a expressão tranquila, como se nada daquilo tivesse sido fora do comum para ele. Quando chegaram ao hotel, ela hesitou por um segundo na porta do elevador, mas ao vê-lo caminhar para o quarto, silencioso, sem pedir nem ordenar, apenas deixando a porta encostada, ela soube. Queria conversar. Precisava. Entrou devagar, os olhos percorrendo o ambiente sóbrio e elegante do quarto. Dante tirava o paletó e colocava sobre a poltrona quando ela se aproximou. — Ainda tentando entender o que aconteceu? — ele perguntou, sem rodeios, enquanto desabotoava os punhos da camisa. Isadora cruzou os braços, o olhar carregado de dúvida, mas sem arrependimento. — Não é algo que eu esperava viver. Não daquele jeito. Não com você... e com outro homem envolvido. Ele deu um pequeno sorriso e se aproximou, pegando uma garrafa de água e estendendo para ela. — E como você se sentiu? De verdade. Ela aceitou a água, mas não bebeu. Respirou fundo. — Foi estranho. Intenso. Eu me senti exposta, vulnerável... mas ao mesmo tempo, livre. Dante assentiu, como se já esperasse exatamente essa resposta. — Não é só sobre prazer, Isa. É sobre controle. Sobre confiança. Sobre se permitir ir onde você nunca foi. Ela o olhou, estudando cada linha de seu rosto. — E você sempre faz isso? Leva mulheres para esses lugares, testa os limites delas? Ele deu um passo mais perto. — Não. Não com todas. Só com quem eu sei que tem curiosidade, que precisa sair do próprio eixo pra descobrir quem realmente é. Com você... eu vi isso desde o primeiro dia. Isadora abaixou o olhar, como se absorvesse o peso daquelas palavras. — E o americano? — Ele era só uma peça naquele momento. O que importava era você. Sua entrega. Seu desejo. — A voz de Dante era firme, mas sem arrogância. Ela finalmente bebeu a água, em silêncio. — Não sei o que isso significa. Não sei o que eu sou pra você. — Você não precisa saber agora. Mas precisa saber que eu não tô jogando. E que não vou te tratar como alguém frágil. — Ele tocou de leve o queixo dela, erguendo seu rosto para que ela o encarasse. — Se quiser parar por aqui, tudo bem. Mas se quiser continuar explorando esse mundo comigo, a decisão é sua. Por um instante, ela quis responder com palavras, mas apenas assentiu, um movimento sutil com a cabeça. Depois, virou-se devagar e saiu do quarto, sem dizer mais nada. O sol m*l tinha dado as caras quando Isadora desceu para o saguão do hotel. Usava um vestido leve, tênis confortáveis e um casaco dobrado nos braços — sabia que Nova York podia surpreender com o clima. Dante Montenegro já a esperava do lado de fora, encostado em um SUV preto com as mãos nos bolsos do sobretudo e os olhos escondidos por óculos escuros. — Pronta? — ele perguntou assim que a viu. — Ainda não sei... depende pra onde estamos indo. — Dia livre. Hoje você vai conhecer uma Nova York que não aparece nas reuniões de negócios — disse com um meio sorriso, abrindo a porta do carro para ela. A primeira parada foi no Central Park. Caminharam sem pressa, passando pelos caminhos cercados de árvores, vendo artistas de rua, músicos e famílias. Isadora se surpreendia com a calmaria no coração da cidade mais acelerada do mundo. Depois, ele a levou para tomar café em um bistrô discreto no West Village. Lá, conversaram sobre viagens, filmes e manias estranhas. Era estranho como se sentiam à vontade um com o outro, mesmo sem nomes claros para o que estavam vivendo. — Você já morou aqui? — ela perguntou, curiosa. — Não. Mas Nova York sempre foi minha válvula de escape. Vem comigo. O passeio continuou pelo High Line, com vista para o bairro do Meatpacking District. Ela se encantava com os prédios modernos, os grafites espalhados e a energia das ruas. Dante, mesmo calado em muitos momentos, parecia observar cada reação dela com atenção. Mais tarde, visitaram o MoMA, onde ela se perdeu entre pinturas de Monet e esculturas abstratas. E ele, paciente, a acompanhava como se aquela fosse a única coisa que precisava fazer naquele dia. À noite, ele a levou até o Brooklyn para ver o pôr do sol na orla do DUMBO. A ponte iluminada ao fundo, as luzes da cidade acendendo pouco a pouco. Sentaram-se em um banco, dividindo um chocolate quente e o silêncio confortável de quem não precisa dizer tudo em voz alta. — Eu gosto de ver esse lado seu — ela comentou. — Qual lado? — O que não manda, não cobra, só... vive. Ele riu de leve, olhando para frente. — É que tem pessoas que tiram a gente da armadura. Isadora sentiu um aperto no peito com aquela frase. Não respondeu. Apenas se permitiu encostar um pouco mais no corpo dele e aproveitar a vista. A noite em Nova York estava fresca e charmosa. Dante escolheu um restaurante elegante no Soho, com luz baixa, jazz suave tocando ao fundo e mesas discretamente espaçadas. Isadora vestia um conjunto preto de alfaiataria com um leve decote, os cabelos presos em um coque despretensioso. Ele, como sempre, impecável em sua camisa social dobrada até os cotovelos e blazer escuro. A mesa deles ficava próxima de uma janela com vista para a rua, onde os letreiros iluminados e o vai-e-vem dos nova-iorquinos criavam um cenário quase cinematográfico. — Você já percebeu que em Nova York as pessoas não olham umas para as outras? — ela comentou, enquanto experimentava o vinho tinto que o garçom acabara de servir. — Aqui todo mundo tá com pressa de ser alguém. Não dá tempo de ver quem tá do lado. — E você? Tem pressa? Dante apoiou o cotovelo na mesa, observando-a com aquele olhar firme. — Só quando você está perto. Isadora soltou um riso contido, desviando os olhos por um segundo, sem saber se ele falava sério ou apenas brincava com palavras. Mas antes que pudesse responder, o celular vibrando dentro da bolsa interrompeu o momento. Ela olhou o visor. Rodrigo. O nome gelou seus dedos por um instante. Dante percebeu a mudança na expressão dela. — Tá tudo bem? — É... é o Rodrigo. Meu ex. Ela hesitou, mas acabou atendendo. — Alô? Dante recostou-se, fingindo não ouvir, mas seus olhos permaneciam nela, atento. — Isadora... — a voz do outro lado estava calma, quase cordial. — Só queria dizer que recebi seu e-mail. E... eu concordo em assinar os papéis, mas queria que a gente conversasse primeiro. Olho no olho. Você me deve isso. Ela engoliu seco. O tom dele não era agressivo, mas havia uma camada de manipulação que ela conhecia bem. — Rodrigo, eu tô fora do país. Quando voltar, a Rafaela entra em contato pra marcar tudo. E não, eu não devo mais nada a você. O que tínhamos... acabou. — Eu só quero conversar. Não vou insistir. Ela desligou antes que ele pudesse continuar. Respirou fundo e, por um momento, ficou em silêncio. — Quer falar sobre isso? — Dante perguntou, mantendo a voz neutra. — Não hoje. — Então finge que nunca aconteceu — ele respondeu, enchendo novamente a taça dela. — Pelo menos essa noite, só existe Nova York. Ela sorriu de leve, aceitando o vinho.
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