Sou uma ladra da pior qualidade. Deduzo isso enquanto empurro a porta do meu quarto e largo a mochila no chão, me sentindo aliviada.
Primeiro, fui até o escritório do meu pai e peguei o celular onde ele deixa os aplicativos financeiros. Transferi os quinze mil para minha conta. Depois, comprei um celular novo no shopping e fui direto ao banco, onde configurei meu aplicativo e, em seguida, saquei todo o dinheiro.
Agora, tenho uma mochila cheia de notas de cem e preciso escondê-la em algum canto, como uma traficante amadora. O pensamento me faz rir de nervoso. Sempre tive pavor de drogas. Minha avó materna fez um bom trabalho ao me aterrorizar sobre ter filhos na adolescência ou acabar viciada em algo ilícito. Fiquei chocada na primeira vez que vi Íris cheirando cocaína na mesa da Le Rêve com as amigas e os namorados delas. Parecia a coisa mais normal do mundo. Nunca entrei nesse assunto, porque tinha medo da resposta dela.
Minha irmã sempre me surpreendia com algo novo. E, na maioria das vezes, a surpresa não era boa.
Pelo menos estarei preparada quando Don aparecer. Os negócios ilegais do meu pai me ensinaram que certos assuntos precisam de dinheiro vivo. Ninguém quer explicar os vestígios de grana na conta bancária. Eu mesma espero não ter que dizer por que fiz a transferência sem dar explicação. Mas, até meu pai perceber, já terei uma boa desculpa.
Me livro do blazer preto e das botas. Empurro a mochila para baixo da cama. Tiro os colares e anéis e, enquanto prendo os cabelos num coque, vou até a cozinha preparar um chá.
Faz tanto frio em São Paulo que as janelas estão embaçadas e o vento assobia pelas frestas de uma forma sinistra. Me sento em frente à escrivaninha, observando o céu cinzento e opaco lá fora, enquanto o notebook liga. Tenho mil pesquisas para fazer e uma penca de trabalhos e estudos de casos. No entanto, assim que consigo entrar no navegador, meu impulso é digitar um nome:
Don Santoro.
Facebook. i********:. Nada. Minha busca alucinante resulta em dezenas de abas abertas na tela. Entro em todos os perfis possíveis, mas nenhum é o dele. Me sinto uma i****a perdendo meu tempo assim. Há grandes chances desse nem ser seu verdadeiro nome. O cara é literalmente uma b***a enjaulada que massacra pessoas até deixá-las inconscientes, com certeza não é o maior fã de redes sociais.
Me encosto na cadeira e mordo o lábio inferior, inquieta. Não consigo parar de pensar nele, nem por um minuto. Chega a ser perturbador a quantidade de vezes que volto àquela madrugada ou aos túneis do Tártaro. Os dois momentos em que ele chegou muito, muito perto de mim.
Minhas memórias não o defendem. Longe disso. Afinal, o cara me ameaçou. E é exatamente isso que me deixa louca. A curiosidade, a obsessão, a sensação esquisita e o fato de achá-lo atraente me matam de vergonha.
Deve ser normal se sentir tão atraída por um homem como ele. Achar uma pessoa sexy não está sob nosso controle, está? Don só se apossou da minha cabeça desse jeito porque consegue me deixar pilhada e não há nada que eu possa fazer contra esses estímulos do corpo humano.
Sem contar que temos um assunto pendente, que, uma vez resolvido, nos colocará em caminhos opostos. Depois dessa, nunca mais vou dirigir bêbada e vender minha alma ao d***o.
Sentada aqui, fissurada por qualquer rastro sobre o Tártaro ou qualquer coisa que me leve ao Don, não vejo as horas passarem. Estou tão concentrada que me assusto com algo que vibra no quarto.
Olho ao redor, confusa. Parece um celular, mas não é o meu.
Me levanto e começo a procurar pela origem da vibração. Acabo chegando até o cesto de roupas sujas, até encontrar o aparelho no bolso de uma calça.
Chamada desconhecida. Deslize para atender.
— Alô?
— Ah, oi! Aqui é o Marlon. — Depois de um breve silêncio, ele continua: — Deixei meu celular com você lá no Tártaro. Lembra?
Meu Deus. Cheguei tão atordoada que nem pensei nisso. E já faz dois dias.
— Nossa, acabei esquecendo completamente que estava com ele, desculpa.
— Não esquenta. — Ele ri, meio sem graça. — Você e sua amiga ficaram bem?
— Aham. Aliás, obrigada. Acho que você me salvou de ser pisoteada, mesmo eu te mordendo e tudo mais.
Marlon ri outra vez.
— Não foi nada. Fiquei preocupado, quando voltei, você não estava mais lá.
— Eu acabei achando a saída — minto rapidamente.
Ele leva uns segundos para responder.
— Então, hoje estou de folga do trabalho, se tiver um tempo… Posso passar onde você mora e pegar rapidinho, não quero incomodar.
— Que tal me encontrar no Bar do Cofre? Você mora por perto? Tenho que sair daqui a pouco e seria perfeito se fosse lá.
— Beleza, pode ser. Não moro longe. Acho que você não me disse seu nome.
— Louise.
Combinamos o horário e, assim que encerramos a chamada, o arrependimento já me bate. Não marquei aqui em casa porque não queria que ele soubesse onde moro, mas marquei justo onde Camile trabalha. Genial. É melhor ligar para mudar o ponto de encontro. Não sei nada sobre ele, quem sabe se eu procurar…
Me sento na cama e desbloqueio o aparelho dele. Sei que é invasão de privacidade, mas o conheci naquele inferno de lugar e preciso encontrá-lo de novo, então me sinto no direito de saber com quem estou lidando. Apesar de ter sido legal comigo e com Camile, é melhor garantir que isso não vá me gerar uma “dívida” como foi com Don.
O celular é bem velho, a tela toda trincada. Leva três segundos para seguir os comandos. A primeira coisa em que reparo é que não tem aplicativo de mensagens ou rede social. A galeria, no entanto, tem umas trinta e duas fotos. Em algumas, ele veste um terno preto com um cartão de identificação no pescoço e um dispositivo de comunicação na cintura. Talvez seja um segurança ou coisa do tipo. Em quase todas, aparece ao lado de um conversível em frente a uma casa que bem luxuosa. Em outras, há um poodle branco e meio idoso, e uma garotinha com no máximo quatro anos de idade.
Marlon parece um cara normal, com um trabalho normal. Talvez seja um pai separado que vê a filha e o cachorro nos fins de semana, e tem um hobby questionável de apostas em lutas clandestinas. Levo em consideração que ele me ajudou a sair da confusão no Tártaro, mesmo com meu chilique, deixou o próprio celular comigo e ainda voltou para procurar Camile.
Bom, pelo menos posso fingir que não estou me arriscando completamente outra vez, indo atrás do desconhecido. Prefiro acreditar que ele seja do bem. E quem sou eu para julgar uma situação de perigo quando me enfiei em um buraco com um bando de homens loucos e tive a ousadia de encarar aquele que fica enjaulado, que ainda apontou uma arma para mim?
De fato, não sou uma garota com senso de autopreservação.
E isso só parece piorar a cada dia.