NARRAÇÃO POR DON
— Don?
A voz de Lorena me transporta de volta ao ginásio. Estou pingando de suor. Só quando vejo o saco de pancadas balançar violentamente, me dou conta que estive treinando como um animal, sem nem perceber, perdido nos acontecimentos da noite passada.
Tiro a faixa do ombro deslocado e forço um último soco, de punho fechado, contra o saco. Assim que os dedos estalam no couro, a dor se irradia no mesmo segundo, como se meu braço inteiro estivesse pegando fogo.
— Você e sua mania de querer ser Deus — Lorena resmunga enquanto arranca suas luvas com os próprios dentes. — Seu braço está fodido, cara. Não tem pra onde correr. Forçar só vai piorar. O DG pode ficar no seu lugar na próxima luta.
— O mesmo DG que tomou um nocaute na semana passada?
Ela suspira.
— O que você quer ouvir? Que ninguém se garante como você? Ok, Pitbull. Só com você que a vitória é certa. E, ainda assim, vai ter que engolir que fodeu o próprio ombro. Aliás, como essa p***a aconteceu mesmo?
— Treino pesado. Uma luxação.
— Sei. — Ela estabiliza o saco no lugar. — Você não sabe a hora de parar.
— Mandei um filho da p**a pra vala na última noite e sou capaz de mandar outro hoje. Acha mesmo que preciso de um tempo?
— Isso só prova o quanto é autodestrutivo. Olha só pras suas mãos, cara. Estão em carne viva. Você é muito s*******o. — Lorena se afasta do saco e alcança o isopor de bebida.
Tiro as bandagens ensanguentadas e me lembro da Barbie trocando-as depois da luta, agachada entre minhas pernas, me dando uma visão erótica pra c*****o. Fico de cara como essa garota pode ser inocente e provocante ao mesmo tempo. O jeitinho mandona e atrevida, acreditando que poderia me dizer o que fazer.
— Que tal uma cerveja em troca de uma pergunta, hm? — Lorena vem atrás de mim como um maldito espírito obsessor. Encaro a longneck em sua mão, estalando de tão gelada. Eu a pego e abro com os dentes. A garota sorri. —Por que está se metendo nos negócios do Otto?
— Não é da sua conta.
— Isso não foi uma resposta. Devolve a cerveja.
Bebo mais um gole, puxando a camisa do armário de ferro.
Lorena revira os olhos.
— Don, sei que você sabe se cuidar. É o filho da p**a mais sobrevivente que já conheci. Mas você nunca pisa num território que não é seu. Ouvi os caras dizendo que você lidou com a dívida de um garoto. Por quê?
— Otto colocaria o moleque no ringue comigo. Ele não duraria dois segundos.
— E desde quando se importa com os outros? — Ela cruza os braços. — Algo me diz que tem a ver com a garota que apareceu no Tártaro. Acha que eu não tenho olhos e ouvidos aqui? Fiquei sabendo da loirinha que você foi salvar no meio da confusão. Qual é? É só uma f**a ou ela tem a ver com seu súbito envolvimento com o esquema do Otto?
— Por que está falando como se eu te devesse alguma explicação?
Ela solta um riso irritado.
— Fiz o trabalho de casa, sei de quem ela é filha. — Ela ergue as sobrancelhas quando eu a encaro. Maldita hackerzinha de merda, sempre metendo o nariz onde não é chamada. — Escute meu conselho de irmã, de alguém que se importa com você. Fique. Longe. Dos. Salles. Se eu preciso refrescar sua memória, da última vez que se meteu com essa gente, você acabou aqui, à beira da morte. E, é claro, só não morreu porque eu estava por perto. Então acho que minha opinião vale alguma coisa.
Ela espera uma resposta que não vem.
— Beleza, então. Quer saber?! f**a-se. Faça como quiser. Você só não é pior que o Otto por falta de dinheiro. — Ela balança a cabeça, inconformada, e marcha para fora do ginásio.
Lorena sempre foi arredia e protetora. Desde que me encontrou quase morto com dois tiros, uma costela quebrada e o rosto desfigurado de tanta porrada, criamos uma ligação difícil de ignorar. Como ela cuidou de mim sem nem saber quem eu era, se tornou a única com passe livre para aumentar o tom de voz comigo.
Deixo que ela vá. Caminho até minha mochila e puxo uma caixa usada de relógio. De dentro, tiro a gargantilha de ouro.
LOUISE.
Toco em cada letra. Lembro do cheiro doce da infeliz. Da sensação de colocar o cano da arma contra sua garganta. De quando a encurralei nos dutos do Tártaro. Seu corpo correspondendo aos meus estímulos com mais veemência do que suas palavras mentirosas.
Medo. Desespero. Pavor. Vi tudo isso nela em ambas as vezes que me aproximei. Mas havia outra coisa também. As pupilas dilatadas. A pele arrepiada. Os m*****s duros por baixo da blusa. O incêndio nos olhos dela. Desejo.
Ela sabia que devia correr de mim, mas não o fez.
Eu sabia que devia me manter afastado, mas também não consegui.
Deus sabe que sou um maldito filho da p**a sedento por vingança, mas tracei uma linha tênue para alcançar meus objetivos. Ela e a irmã eram apenas duas pirralhas. Eu havia decidido não fazer duas meninas pagarem pelos erros do seu genitor, porque até eu tinha os meus limites.
Mas, de alguma forma, lá estava ela naquela madrugada, e pela segunda vez alguém da família Salles deu o azar de cruzar meu caminho.
Entre tantas pessoas nessa maldita cidade, o destino tratou de nos colocar frente a frente. Como se a vida fosse uma v***a irônica desejando o pior de mim. Exibindo diante de olhos famintos o banquete mais delicioso. Facilitará chegar ao meu objetivo, mesmo que isso signifique a destruição dessa garota.
Louise não me conhecia até aquela madrugada.
Mas eu a conhecia muito antes disso.
Agora, ela me deve. Sua vida está atrelada à minha. Presa entre as minhas correntes.
E, se eu quiser, ela será minha.