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1703 Palavras
Mas meus olhos caem como bombas direto para sua bermuda, antes de desviá-los rapidamente. Limpo a garganta e empino o nariz. — Prepotente. Só pra deixar claro, eu não quis dizer absolutamente nada de cunho s****l. Da maneira mais descarada possível, ele me olha de cima a baixo. — Não se preocupe, Barbie. No dia que eu f***r você, vai ser porque implorou como uma c****a no cio por isso. Jamais imploraria para um homem me chamar de c****a! Desgraçado! — Então o que você quer, cão? — esbravejo. Don chega mais perto e ergue os dedos, empurrando um fio do meu cabelo para trás, sua pele roçando na minha. — Coloquei uma arma nesse seu lindo rostinho e você ainda tem coragem de me enfrentar assim. Atrevida ou burra? Don me deixa nervosa. Nervosa a ponto de não entender se estou suando entre as pernas ou se estou molhada. Preciso me livrar desse homem o mais rápido possível. — Não desvie o assunto — eu murmuro, de tão perto que ele está. — Preciso saber o preço que estou pagando aqui. De repente, seus dedos, antes tão suaves, envolvem meu pescoço. O toque enche meus pulmões, e, por mais assustador que pareça, sustento seu olhar. Meu coração acelera quando Don olha fundo nos meus olhos, o demônio daquela noite na estrada retorna através da escuridão cinzenta de suas íris. — O que você precisa é se decidir, Louise — ele sopra contra os meus lábios, completamente rude. — Quite a dívida do moleque e fique em dívida comigo, ou então suma da p***a da minha frente e não apareça nunca mais. Meu corpo treme. — Temos um acordo. — Cubro sua mão ao redor do meu pescoço com a minha. — Sem mais perguntas. — É assim que eu gosto. — Mas… — Don me lança um olhar de alerta. — Está testando minha paciência. — Quero o meu colar. Aquele que você roubou quando me ameaçou, como está fazendo bem agora. Eu o quero de volta. Ele tomba o rosto para o lado. — É mesmo? — Sim. Seu aperto suaviza. Ela estuda cada pedacinho do meu rosto, tão perto que sinto a colônia masculina me envolver. Seu polegar acaricia meu queixo, e eu sinto meu corpo inteiro queimar. — Dez mil — ele diz. — O quê? — O que você pegou de mim. Fodeu meu ombro quando me atropelou bêbada. Não pude lutar por duas semanas. Esse é o valor que eu perdi por sua causa. Tenho certeza de que aquele colarzinho vale bem mais que isso. Merda. Então é isso. Marlon comentou que o tal Pitbull teve uma luxação no ombro. A culpa é minha. — Eu sinto muito, ok? Mas não é pelo dinheiro. Ele tem um valor sentimental pra mim. — Que gracinha. Deixa eu adivinhar: presente do papai ausente? Cravo as unhas em seu punho com raiva. Me recuso a dizer que foi um presente da minha irmã. Me recuso a vê-lo zombar da minha dor. — Você vai devolver ou não? — Eu já vendi. E, mesmo que não tivesse, você não exige p***a nenhuma aqui. — Ele finalmente me solta, e eu me afasto. — Agora, some. Dois homens vão te escoltar até a saída. Eu entro em contato pra pegar o dinheiro. — Como vai entrar em contato se não tem meu celular? Você não sabe onde me achar. — Não? — Seu tom rouco é cheio de provocação. Você é uma criança, Barbie. A ingênua aqui é você. Eu vim ao inferno. Encontrei o d***o. Fiz um acordo e vendi minha alma. O que significa que Don Santoro vai me achar em qualquer maldito lugar que eu esteja. *** NARRAÇÃO POR DON A quadra do ringue fede a suor, ferro e cigarro. Um cheiro familiar, mas, em noites como essa — onde sou a atração principal —, essa merda se intensifica. Muitos apostadores juntos. Brigas. Drogas. Prostitutas. Os respingos e poças de sangue se alastram pelo concreto, misturando-se com a bosta do esgoto que a cidade despeja aqui embaixo. Um lugar imundo, assim como todo mundo dentro dele. Fecho as mãos em punho, sentindo as correntes rasgarem a carne dos meus pulsos. A dor serve de combustível. Alimenta o ódio dentro de mim. Inspiro o cheiro da morte à espreita, minha mente fodida se reconforta com a realidade esmagadora de que aqui é onde pertenço. Esse cheiro, embora detestável, me mostra que não estou sozinho. Que que há muitos aqui como eu, miseráveis que precisam encarar a pior parte do inferno na Terra para sobreviver. Puxo os braços com força outra vez, agitando as correntes que batem contra a gaiola de ferro. Meus joelhos estão esmagados contra o tatame do ringue, e a focinheira pesa em meu rosto. A multidão uiva com minha sede de liberdade. Aqui, sou o favorito. O inimigo. O animal. No começo, quando cheguei ao Tártaro, não entendi o prazer doentio que essa gente sentia ao ver os outros sendo espancados até a morte. Depois de um tempo, a conclusão pareceu tão simples quanto dois mais dois. O ser humano é podre. Alguns mais do que outros. Almas contaminadas que se alimentam da crueldade. E, se aqueles que aplaudem o show são monstros, o que dizer de mim, que forneço o maior entretenimento? — Bem-vindo de volta ao ringue de sangue, o estimado, a fera, a ameaça mordaz, o atual campeão invicto, Don: O Pitbull! Os aplausos explodem no ar. A sede de destruição se arrasta espessa pela minha garganta. Me pergunto se um dia fui um homem bom. Mas então concluo que homens bons jamais fariam o que eu fiz e jamais teriam o prazer violento em fazer o que eu faço. As ring girls sobem no tatame e desatam as correntes. O show começa. É rápido, mas não tanto. O suficiente para que os aplausos e gritos se tornem tão ensurdecedores que abafam o som dos meus punhos contra os ossos do meu oponente. O líquido viscoso escorre aos montes do rosto dele, enchendo sua boca a cada golpe. Meus dedos se arrebentam outra vez, abrindo velhas feridas que encharcam minhas mãos com seu sangue. Vou matar esse homem. Vim pronto para isso. Tenho bastante experiência para escolher se quero deixá-los inconsciente ou tirar suas vidas. Só depende deles. E, é claro, da pesquisa rápida que Lorena faz sobre meus oponentes. Há três semanas, enfrentei um moleque i****a de vinte e dois anos, desempregado e desesperado por grana. Pesava só cinquenta e cinco quilos. O garoto mirrado se desmontou com meu soco em dois segundos. Foi apenas um desmaio. Ele sobreviveria. A história muda de figura para o de hoje. Ele tem dezessete boletins de ocorrência registrados pelas últimas mulheres com quem se envolveu, e, em três deles, há relatos de abuso s****l aos seus filhos. Agressor e pedófilo. Essa é a diferença entre o garoto magrelo de três semanas atrás e esse filho da p**a cheio de cicatrizes à minha frente. O primeiro, deixei ir. O segundo, vou fazer queimar no inferno. Quando vejo que já entretive os animais aqui dentro por tempo suficiente, levo o desgraçado ao chão com um soco letal e o asfixio com um mata-leão. Flashes da primeira vez que fiz isso rondam minha cabeça. Meu primeiro assassinato, há cinco anos. As mãos em seu pescoço, sua expressão de puro terror, o olhar esbugalhado quando sua vida chegou ao fim. A sensação do depois… Não havia remorso, nem desespero. Apenas prazer. Eu faria de novo, só que pior. Talvez esse instinto voraz fosse algo que sempre esteve dentro de mim, rastejando pelo meu sangue como uma maldição. A vida depois disso exigiu um nível de violência que enlouqueceria qualquer homem decente, mas não eu. Me adaptei ao Ringue de Sangue como se pertencesse a esse lugar. Me familiarizei com a violência como se fosse uma velha amiga. Como se tirar a vida de alguém fosse tão simples quanto respirar. No começo, eu não sabia me defender, nem entendia o funcionamento das lutas clandestinas. Achei que essa merda fosse coisa de filme, mas descobri que é bem comum nos galpões de São Paulo, ocultados por alvarás falsos e o dedo podre de patrocinadores de elite. Mais dez segundos. Apenas mais dez segundos e acabou. A noite chegará ao fim para mim, assim como a vida desse miserável. O sino ressoa. Largo o corpo do filho da p**a e me levanto. Os homens urram. Enlouquecem. A maioria perdeu dinheiro mais uma vez apostando no visitante, mas o prazer sanguinário do meu show é o que os excita. Minha mão é erguida no ar. Meu nome enaltecido. Em outras noites, esse é o momento no qual saio do ringue e me liberto da jaula. Mas, dessa vez, alguém na multidão chama minha atenção. Eu a vejo. A desgraçada é inconfundível. O cabelo longo e loiro reluz na escuridão. O rosto delicado. Boca bem desenhada, cheia. Pele pálida. Ossos da bochecha salientes. Nariz pequeno e fino. Corpo esguio. s***s, cintura, quadril. Toda linda. Desenhada. Mas, apesar da aura angelical em cada detalhe dela, seus olhos destoam. Percebi isso desde a primeira vez que os vi. Duas esferas esmeraldas, grandes e carregadas de segredos, que lhe dão um ar um tanto… psicótico. Ela parece um anjo capaz de fazer coisas que até o d***o duvida, mas tudo em segredo. E eu gosto disso. Se um dia eu tiver que matá-la, será um desperdício e tanto, porque talvez ela seja a mulher mais bonita no qual já coloquei meus olhos. O que essa filha da p**a anda aprontando num lugar como esse? Apesar da minha incredulidade, sei que ela não poderia ser mais real. O sangue some do seu rosto assim que ela encontra meu olhar. Seus olhos exibem um medo aterrorizante. Medo de mim. Mesmo à distância, posso sentir o terror e saboreá-lo na ponta da minha língua. É quando as luzes do Tártaro finalmente se apagam e o inferno começa que um instinto se acende em mim. Esse lugar é cheio de predadores, e essa infeliz é mais do que um banquete para eles. Vou atrás dela. Eu preciso. Porque ela é minha.
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