Contrariada com a demora, me aproximo da porta sanfonada e olho pela fresta. Parece um banheiro, tão precário quanto todo o resto. Mas não é isso que prende minha atenção. Não quando ele surge no meu campo de visão sem camisa, usando outra bermuda e com os cabelos pingando água.
Limpo de toda sujeira, posso ver perfeitamente as figuras que cobrem seu corpo definido. Uma parece um tribal que se estende pelo ombro e peito; a outra, correntes que descem dando voltas em seu braço.
Don pega um rolo de esparadrapo e corta três pedaços com os dentes, colocando-os no espelho. Depois separa uma embalagem de talas limpas. Vejo suas bandagens — aquelas que usou na luta —, encharcadas de líquido escarlate, enfiadas em um saco plástico que é jogado no lixo.
Os nós dos dedos estão tão machucados que ele m*l consegue mexer as mãos. Elas tremem pela dor.
É interessante observá-lo desse ângulo. O homem tão forte, bruto e selvagem, de repente, parece cansado. Ele abre a torneira com as mãos vacilantes e acaba esbarrando nas talas limpas, que caem direto na poça de sangue no chão.
Ele tenta pegá-las, mas solta um palavrão quando o movimento faz o sangue brotar. Com um resmungo alto, Don segura as laterais da pia e abaixa a cabeça. Ele aperta as bordas com força. Respira
fundo. É como se estivesse refreando algo terrível dentro de si.
Antes que eu possa pensar no que estou fazendo, abro a porta e me aproximo.
Ele me encara.
Minha presença só o irrita mais.
— Eu mandei esperar lá fora.
— Quanto mais rápido eu der um jeito nisso, mais rápido vai se livrar de mim — disparo, sem olhar para ele. — Eu ajudo.
— Não preciso de você. Faço essa merda todo dia.
— E mesmo assim continua tão r**m? Porque, olhando de longe, você parece um amador.
Não espero sua resposta. Recolho a embalagem de talas do chão. Minha dose de atrevimento não me protege da sua dose de raiva. Não o conheço, não sei do que ele é capaz e, ainda assim, estou aqui, invadindo seu espaço.
Rasgo o plástico e puxo um chumaço de talas. Depois, abro a torneira, encharco os pedaços e tiro o excesso. Pelo reflexo do
espelho sujo, vejo Don se sentar na cadeira de ferro.
— Tem álcool? — pergunto.
— No basculante.
Olho para a única saída de ar no cubículo e vejo uma garrafa de álcool 70%. Retorno com ela em mãos, e Don apenas me observa enquanto me ajoelho e me encaixo entre suas pernas abertas.
Seguro uma de suas mãos grandes e calejadas e a coloco sobre a minha. O contato repentino gera um calafrio que percorre todo o meu corpo e me desnorteia. Acabo olhando nos olhos dele por um breve segundo, o que é fatal.
Saber que ele também está me observando altera minha respiração, e eu começo a suar.
As pontas dos meus dedos deslizam pelos calos da sua palma.
Don é quente, quase febril.
Me recomponho e limpo o sangue, comprimindo as feridas com cuidado. Nunca vi mãos tão machucadas. Nem mesmo naquela noite, quando o atropelei e reparei em seus hematomas, não estavam nesse estado. Me pergunto quantas lutas ele faz por semana. Quanta dor pode suportar.
Mesmo concentrada, consigo sentir seus olhos em mim o tempo todo. Minha posição em meio às suas pernas é tanto… indecente.
Rezo com todas as forças para que meus olhos não me traiam outra vez e encarem seu abdômen trincado ou o volume no meio de sua bermuda de treino.
Esse homem é pecaminoso, mas eu posso fingir perfeitamente
que não.
— O que veio fazer aqui? — ele quebra o silêncio.
— Cuidar de você. Não é óbvio?
— Não se faça de i****a, Barbie.
Pressiono outra tala com álcool nos machucados e ouço um resmungo rouco. Depois, enfaixo seus dedos com firmeza e prendo com os esparadrapos. A bandagem logo fica manchada de sangue, mas ela deve dar conta por ora.
— Sei que já está acostumado a cuidar das suas mãos como se não se importasse em perdê-las — digo —, mas seria bom trocar o curativo mais tarde.
Antes que eu possa me levantar, Don praticamente me prende entre suas pernas.
— Mais algum conselho?
Cometo o erro de erguer o olhar. Outra vez.
Não sei o que tem nas íris esverdeadas desse homem, mas elas me perfuram. A barba por fazer cobrindo a mandíbula forte e o rosto áspero, os cabelos pretos molhados e bagunçados, tudo nele é terrivelmente sexy. Umedeço meus lábios secos e limpo a garganta, cravando as unhas em seus joelhos e empurrando-os para os lados para me levantar.
— Use luvas da próxima vez, como um lutador de verdade faria.
Uma rachadura aparece em seu exterior impassível: um lampejo de diversão.
— E o que a princesa sabe sobre lutadores de verdade?
— Que não socam a cara de alguém sem a devida proteção. Não é muito esperto.
— E o que é esperto pra você? — Ele se levanta, e eu preciso erguer o queixo para encará-lo. — Vir sozinha até aqui? Tem
alguma noção do que é esse lugar?
— Não vim exatamente sozinha.
Ele estreita os olhos, intrigado. Camile não é sinônimo de proteção, mas não gosto de perder uma discussão.
No momento que ele se aproxima, tenho um déjà-vu. Don é naturalmente intimidador.
— Comece a falar. Já perdi tempo demais com você essa noite.
— Bernardo Viteli — eu digo, sem mais rodeios. — Ele deve uma grana pra você, não deve? Quero quitar a dívida dele.
— Por quê?
— Isso importa?
— Quando eu fizer uma pergunta, você responde. — O tom autoritário me faz respirar fundo.
— Ele é uma boa pessoa. Só pegou as drogas para vender porque o pai está muito doente.
— Ele é seu namorado?
— Não.
— Então o quê?
— Já disse. Ele é irmão da minha melhor amiga. Eles estavam precisando da grana. Só isso.
Don me encara por mais alguns segundos antes de soltar um riso sem humor pelo nariz.
— Qual é a graça? — me irrito.
— Você, arriscando sua vida por pouca merda. Veio até esse lugar, onde poderia ser morta, por um moleque que não pode resolver os próprios problemas.
— Não é por ele. É por ela. Camile é importante pra mim, mas não espero que um cara como você me entenda.
— Você é uma criança, Barbie. A ingênua aqui é você.
— Olha, eu tenho o dinheiro. É simples de resolver.
— Não é pra mim que ele deve. — Ele me dá as costas e puxa uma mochila de um dos armários de ferro.
— Mas você estava lá.
— Eu fui ganhar tempo. Iam matar ele de porrada naquela noite.
— Então foi ganhar tempo para o “moleque que não pode resolver os próprios problemas”?
Estou brincando com fogo aqui, mas não consigo me segurar. É realmente instigante provocá-lo, tentar derrubar essa pose de intocável que ele sustenta. No entanto, quando vejo que ele está prestes a perder os resquícios de paciência e me mandar embora, eu abaixo a guarda.
— Don. — Seu nome sai dos meus lábios em súplica no instante que dou um passo e pouso a mão nas suas costas. Seus músculos se tensionam. A impressão é de que minha pele está pegando fogo contra a sua. — Por favor.
Ele se vira para mim.
— Peça de novo — ordena.
— O quê…?
— Você me ouviu.
Uma onda de ódio me atinge quando percebo sua intenção.
Don quer me ver implorando. Esse maldito cretino de merda! Se é desse jeito que ele quer jogar, então tudo bem.
— Por favor. — Cubro meus olhos com um ar de ingenuidade e adoço a voz. — Por favor, Don.
— Está me pedindo um favor. Isso significa que terá uma dívida comigo.
— O quê? Não. Eu quero pagar a dívida.
— Não é assim que funciona.
— O que você quer de mim, então? — Eu subo o tom. — Dinheiro?
— Não.
Cruzo os braços.
— Não vou te fazer um boquete, se é o que está insinuando.
— Ele não caberia nessa sua boquinha linda.
Ai, meu Deus. Que canalha.
Não imagine.
Não olhe.
Não olhe, sua maldita safada dos infernos.