Tento duas, três, quatro vezes. Ligo para meu próprio celular e também está desligado.
— p***a! — xingo, frustrada. — Não tá chamando!
— Escuta, eu vou voltar lá e procurar sua amiga, mas você
precisa ficar aqui. Quieta.
— Não. Me leva com você.
— Não dá, garota. Depois das lutas, sempre rola uma confusão, te levar de volta é te jogar no inferno. Preciso que fique aqui,
escondida. Se alguém aparecer, você corre. Entendeu?
Ele espera uma resposta. Parece preocupado. Não sei se é pior estar com esse cara que m*l conheço ou sozinha nesse esgoto escuro. E onde eu poderia me esconder? Só se eu cavasse a p***a de um buraco no chão e me enfiasse. Mas preciso que ele ache Camile. Me dá arrepios só de imaginar as possibilidades.
— Fica com meu celular, a senha é 1405 — ele diz. — Qualquer coisa você usa de lanterna e corre o mais rápido possível.
Apenas concordo com a cabeça, apertando o aparelho nas mãos. Logo que ele me dá as costas e some, o medo me assola.
Ouço passos. Vozes. Gritos. Tudo bem distante, mas audível o suficiente para me aterrorizar.
Eu espero. Cinco. Dez minutos. Fito a tela do Iphone.
— f**a-se.
Decido discar 190.
Vou chamar a polícia. Dane-se. Não confio nesse cara. Minha melhor amiga está perdida em um canal subterrâneo, cheio de tarados e bandidos. Não vou ficar aqui esperando que um estranho salve nós duas.
O sinal aqui embaixo é uma merda. Apenas um pontinho de torre resiste. Mesmo assim, me sinto aliviada quando ouço:
— Polícia militar, emergência.
Minha voz estrangula na garganta quando ouço passos na minha direção. É rápido demais. Quatro homens se aproximam de mim. Eu paraliso.
— Boa noite, loirinha— um deles me aborda. O tom lascivo me arrepia.
A mulher na linha diz alguma coisa, mas o som sai tão falhado que não consigo entender.
— A gatinha não sabe falar? — outro cara me provoca.
— Meu namorado tá voltando. — É tudo o que eu consigo pensar, mas minha voz sai tão trêmula que eles riem de mim.
— Seu namorado deve ser um i****a. Quem deixa uma pirralha como você sozinha num buraco desse?
Me escoro na parede de concreto quando eles formam uma barreira. Um deles apoia o braço na altura do meu rosto e chega mais perto, cheirando meu cabelo.
— Não toca em mim — eu ralho, com a voz embargada.
— Ou o quê? — ele me desafia.
Seus olhos se fixam nos meus. Minha ordem parece diverti-lo. Seus dedos deslizam pelos primeiros botões da minha camisa e abrem um deles. O pânico se instala em mim. Seguro o celular com força, pronta para atacar.
— Tira as mãos dela.
Ele se vira rápido, procurando a origem da voz grossa que rompe no ar.
— E quem é o babaca que vai me obrigar? — Ele ri, debochado, mas um dos seus amigos meneia a cabeça sem parar, lançando um olhar de alerta.
— É o Pitbull, cara — avisa, com a voz carregada de medo.
— Do-Don…? — o homem engasga.
O clima no túnel muda drasticamente.
Ainda perto de mim, ele infla o peito e me lança um olhar hesitante. A postura muito diferente de segundos atrás. Então ele começa a se afastar, como se minhas palavras não tivessem tido qualquer efeito comparadas ao poder que a presença de Don carrega.
— Não sabíamos que ela é… — A voz do sujeito some no ar, e ele limpa a garganta. — Já estamos indo.
Os olhos dos quatro se fixam na figura imponente que emerge das sombras. Todos nós conseguimos vê-lo melhor desse ângulo. O olhar gélido e implacável de Don parece penetrar a alma desses homens. Ainda está sujo de sangue. Nas mãos, no rosto, no abdômen exposto.
— Conhecem a saída. — Seu semblante exala desprezo e poder, um aviso silencioso de que ele não deve ser desafiado.
Os homens assentem várias vezes e fogem, cautelosos, com o r**o entre as pernas.
Solto o ar preso nos pulmões, com o coração retumbando no peito.
Minha respiração se intensifica quando o lutador chega mais perto. Posso sentir seu calor aquecendo minha pele sem sequer tocá-la.
Ele não está nada feliz com minha presença, porque seus olhos perfuram os meus, intensos e profundos. Eu diria até mesmo… furiosos.
— Louise — ele diz meu nome, como se eu fosse uma maldição.
— Oi, Don — sussurro o seu, como se ele fosse minha salvação.
Seguir um homem ensanguentado de volta ao Tártaro não foi exatamente minha escolha, mas, depois que implorei desesperadamente para que ele me ajudasse com Camile, não tive opção. “Encontre a outra garota”, ele ordenou em uma ligação,
como se já soubessem quem era. Cinco minutos depois, alguém retornou dizendo que tinham achado minha amiga, que ela estava bem e que iria me esperar no carro.
À essa altura, nós já estávamos em uma sala de concreto. Não era a área do ringue, mas algo parecido. Ele me mandou ficar quieta
e esperar, como quem fala com uma cachorra obediente. Depois, sumiu por trás de uma porta sanfonada e não voltou mais.
E eu continuo aqui, esperando por ele, ouvindo a batida de uma música não muito distante. Percorro cada canto do ambiente com os olhos, estudando o espaço. Parece um vestiário bem precário, com armários e bancos de ferro. Há um saco de boxe suspenso no teto e um bebedouro desativado ao lado. O chão cimentado está imundo e tem respingos de sangue. É insalubre.
Se eu temesse pela minha vida, correria o máximo que pudesse até encontrar a saída, mas, de qualquer jeito, já vi que estou no
purgatório. Fico arrepiada só de pensar no que teria sido de mim nas mão daqueles homens se Don não tivesse chegado a tempo. Uma bela ironia, na verdade. O Rei do Inferno me salvou.