Eu o reconheço.
Mesmo distante. Mesmo nesse estado.
Dou um passo à frente, apenas o suficiente para que Marlon possa me ouvir em meio aos urros.
— Esse é o Pitbull?
Ele vira o rosto para me encarar. Perto demais. Seus olhos descem até minha boca e a sombra de um sorriso molda o canto de
seus lábios.
— Ele mesmo. Em carne, osso e ódio.
— Por que o prendem desse jeito?
Seus lábios tocam o lóbulo da minha orelha. Meu primeiro impulso é me afastar, mas a curiosidade me mantém colada nele.
— Quando chegou aqui, esse cara era só mais um. O Tártaro tinha outro favorito. O Sadan. Ele era doente. Todo mundo achou
que o novato fosse morrer na primeira luta, sem chance nenhuma num ringue como esse. Mas ele simplesmente agiu como um animal selvagem. Me lembro até hoje da mordida que ele deu no Sadan, bem na maçã do rosto. Parecia um bicho com o demônio no corpo.
O sangue escorria feito cachoeira, e mesmo assim ele não soltava.
As pessoas ficaram horrorizadas. E aí, quando ele finalmente soltou, foi a coisa mais fodida que já vi na vida. Tanto sangue que teve até gente vomitando. E olha que quem frequenta esse lugar estáacostumado com violência braba, mas o que o Don fez… foi bizarro pra c*****o.
— Don?
— O Pitbull — ele diz. — Don Santoro. É o nome dele. Bom, pelo menos é o que dizem. Desde então, os adversários começaram a ter pavor. Tentavam morder de volta, mas, além de rápido, ele era focado. Ninguém fazia o mesmo estrago. Parecia que tinha tanto, mas tanto ódio dentro do peito que isso se transformava em força brutal. Com o tempo, ele virou uma atração. Um espetáculo. Todo mundo nessa p***a de submundo clandestino queria conhecê-lo, vê-lo lutar e mastigar os adversários. O lance das correntes e a focinheira… as pessoas gostam da ideia de um homem brutal, uma fera enjaulada, prestes a ser libertada e fazer uma carnificina.
Enquanto Marlon fala, não consigo tirar meus olhos do ringue.
Don.
É como se a aura ao seu redor fosse de puro ódio. Como se ele realmente fosse um animal preso, sedento pelo estrago.
É tudo tão doentio, e, ainda assim, não consigo desviar.
— Bem-vindo de volta ao ringue de sangue. — Uma voz ecoa no microfone. — O estimado, a fera, a ameaça mordaz, o atual campeão invicto, Don: O Pitbull!
Duas mulheres de biquíni sobem no tatame e começam a remover as correntes e a focinheira. As marcas vermelhas em seus braços parecem dolorosas. Don se levanta, usando apenas um shorts preto. Sua postura imponente faz jus à loucura das pessoas aqui dentro.
As mulheres alisam seu corpo. É teatral. Uma encenação que excita os animais aqui dentro e, aparentemente, Camile também.
— Meu Deus — ela comenta. — Esse é o homem mais gostoso que já vi na minha vida.
O interlocutor anuncia a luta. Os homens ao redor da arena urram como se estivessem famintos pela violência. As luzes baixas refletem no sangue derramado no chão. É como se o tempo parasse. Cada golpe desferido, cada chute e soco são como notas de uma música primitiva e desordenada.
Eles nem mesmo usam luvas.
Quanto mais dor o outro sente, mais ensandecido Don fica.
Parece o seu combustível.
— Gente, eles não vão parar? — pergunto, atônita.
— Só termina quando um deles apagar — Marlon responde.
— Apagar?
— Não há regras, linda. A luta segue até o outro ficar inconsciente. Isso se der… sorte.
Com um movimento rápido, o adversário desfere um soco poderoso no queixo de Don. O impacto é tão forte que ele cambaleia para trás, perdendo o equilíbrio. Há um momento de silêncio ensurdecedor, como se isso fosse algo surpreendente para todo mundo.
Então Don avança. É como se a raiva em seus olhos estremecesse o ringue e plantasse a semente do medo no rosto do adversário. O cara vacila quando Don desfere uma sequência de golpes impiedosos, encurralando-o nas grades da gaiola.
Um, dois, três, quatro.
Socos tão fortes que cada pancada parece acertar a boca do meu estômago.
O impacto do último murro é avassalador, e o adversário finalmente cai no chão, inconsciente.
Espero que ele tenha sorte.
Meu coração bate na garganta, e eu fico na expectativa de que alguém diga que o homem está vivo. Enquanto isso, a plateia explode em gritos e aplausos, reconhecendo o impressionante nocaute. O interlocutor sobe no ringue e celebra Don como vitorioso, com sua mão escarlate em triunfo.
Ninguém parece ter a mesma preocupação que eu.
Todos só querem venerar Don Santoro como se ele fosse um deus. Mas, para mim, banhado no sangue do rival, com aqueles olhos sombrios, ele parece mais como o demônio.
Vejo dois homens arrastando o corpo do outro para fora do ringue. As luzes baixas refletem o rastro de sangue fica no tatame.
É como se o tempo parasse enquanto levo meu olhar de volta ao
Don.
Não é possível… dessa vez, ele está me encarando.
O choque me atravessa como levar um tiro no peito.
Embora eu esteja aqui por sua causa e o tenha visto primeiro,
de algum jeito assustador, em meio à escuridão, sinto que foi ele quem me achou.
Dou um passo para trás. Em seguida outro e outro. Don continua me observando como um caçador faminto que não pode perder sua única presa. Eu também não quebro o contato. É mais seguro ver a tragédia vindo na sua direção do que ser pega de surpresa.
— Opa, cuidado. — É Marlon quem segura minha cintura. Isso me faz desviar a atenção até seu rosto.
Ele ri quando quase derrubo sua garrafa de cerveja. Acho que minha expressão é levemente apavorada, porque ele une as sobrancelhas e me segura pelos cotovelos com certa preocupação.
— Tá tudo bem? — Suas mãos ainda estão em mim.
Abro a boca para responder, mas uma gritaria isolada começa.
Sons de vidro se quebrando. Mesas tombando. Homens xingando.
Uma briga. A multidão se agita. Começam a passar por mim, impacientes, me empurrando para que eu saia do caminho.
— Temos que ir — Marlon grita, me puxando com ele. — Segura sua amiga.
Agarro o pulso de Camile e a arrasto comigo. O tumulto se intensifica, e eu sou empurrada com força pelos homens. Recebo uma cotovelada tão forte nas costas que acabo soltando a mão dela e de Marlon para me contorcer.
É um segundo, apenas um segundo, e eu a perco.
— Camile! — eu grito, olhando para trás, mas tudo o que vejo são rostos borrados correndo. Meus olhos estão marejados com a dor do golpe, e conforme eu tento ir contra a maré, acertam meu peito, meus ombros, meu estômago.
— Camile! — Tento me equilibrar, mas sou empurrada de novo, mais forte. Cambaleio para trás e quase caio, mas mãos firmes me seguram outra vez.
— Se você cair, vão passar por cima de você — Marlon avisa, e então me agarra. Ele literalmente envolve seus braços ao redor da minha cintura e me carrega como uma boneca.
— Me solta! — Eu me debato violentamente, mas ele é muito mais forte que eu e continua me arrastando pelos dutos. Gritos e passos rápidos preenchem meus ouvidos. A escuridão começa a me deixar louca. Não vejo nada além de borrões. De pequenos feixes de luz pelos furos do esgoto.
Estou arranhando e tentando morder o homem que me prende, até o momento em que a confusão parece ter ficado para trás e ele finalmente me coloca contra uma parede gelada, pressionando seu corpo no meu. Sua palma tampa minha boca e abafa meus gritos, e meu coração bate forte com o receio do que pode acontecer.
— Para de gritar, c*****o! — ele esbraveja. — Escuta, eu vou te soltar, mas com uma condição: você não pode sair correndo feito uma maluca! É perigoso!
Eu paro de me contorcer. Minha respiração segue descompassada. E, quando ele enfim se afasta, o empurro com
toda a minha força.
— Nunca mais coloque suas mãos em mim, seu filho da p**a — rosno para ele.
Mesmo no escuro, consigo ver seu rosto irritado.
— Não queria te arrastar desse jeito, mas ficar lá era suicídio.
Eu o ignoro e tateio meu celular. p**a que pariu. Eu o enfiei no cós da calça, e agora não está mais. Ou caiu no meio da confusão, ou me roubaram.
— Perdi meu celular — minha voz sai trêmula. — Perdi a p***a do celular! Não acredito!
— Usa o meu.
Ele estende o Iphone desbloqueado na minha direção, e eu não hesito. Por sorte, sei o número de Camile de cabeça. Mas, quando ligo, a chamada vai direto para a caixa postal.