Diferente da superfície, aqui faz um calor que torna impossível continuar usando minha jaqueta. Camile e eu paramos em um cantodo subsolo, cercada por uma multidão de homens brutos e mulheres seminuas. Hip-hop ecoa no ar, a fumaça de cigarro cria uma neblina densa na penumbra e o cheiro de suor azeda minhas narinas.
De longe, consigo ver uma espécie de palco. Está coberto por uma lona preta que vem no teto, como uma tenda de circo, e impede que o que há lá dentro seja visto. Verifico Camile, que já prendeu seus cabelos cacheados em um nó e também tirou o casaco. Ela usa calça jeans e uma camisa branca de gola alta, diferente do meu maldito decote. Fico de queixo caído quando ela puxa seu vape do bolso e dá uma tragada, o cheiro de melancia mesclando-se no ar com o da maconha no ambiente.
— Que p***a é essa, Camile?
— Temos que nos misturar — ela se defende —, não podemos parecer duas idiotas aqui. Olha o naipe desses caras.
— E acha que fumar um cigarrinho eletrônico vai ajudar? Parecemos duas filhinhas de papai.
— Você é uma filhinha de papai. Mas pelo menos temos seus p****s. — Ela desce o olhar até meu colo. — Belo decote.
Respiro fundo, cruzando os braços, e isso só piora o volume.
Meus p****s são como dois míseros limões, mas nesse ambiente são suficientes para chamar atenção.
— Com o frio que estava fazendo, não passou pela minha cabeça que eu teria que tirar o casaco.
— Não, isso é bom — Camile diz. — Basta observar as mulheres aqui. As roupas curtas, uma cara de quem sabe o que quer. Agora, vamos torcer para que não percebam nosso pânico total.
— Então vocês precisam fazer uma aposta. — A voz vem de um cara ao nosso lado, quase encostado em nós duas. De onde esse d***o surgiu, não sei, mas ele tem um cigarro atrás da orelha e olhos tão verdes que nos prendem no mesmo instante.
Entro em alerta, segurando o pulso de Camile. Ele deve ter ouvido toda a nossa conversa.
— Relaxem. Não são as primeiras curiosas por aqui. E você, cachinhos, tá certa. — Ele fita Camile com um sorriso charmoso. — O negócio é agir como se não fosse a primeira vez, como se soubessem tudo o que rola aqui.
— Lutas clandestinas — Camile diz, confiante. — Viu? Nós sabemos do que se trata.
Matamos a charada assim que entramos. Os pôsteres espalhados pelas paredes, imagens rasgadas de lutadores famosos, pichações de luvas, bandagens e personagens de filmes icônicos de boxe. Além das conversas exaltadas dos homens sobre lutas.
— Espertinha — o homem brinca, e Camile ergue o rosto, convencida. — Por isso, as apostas. O caixa fecha em cinco minutos. Ainda dá tempo de ir até lá.
— Pela quantidade de droga passando, não é só luta que rola aqui — murmuro para Camile. — Não fala mais com esse cara, não sabemos quem ele é.
— Mas deve ser a atração principal — ela sibila de volta —, e a não ser que a gente comece a cheirar uma carreira de pó no ombro da outra, só nos resta apostar, ou vamos começar a chamar ainda mais atenção. E eu não confio nele, mas não custa ouvir o que tem a dizer. — Camile volta a encará-lo. — E aí? Em quem devemos apostar?
Ele acena com a cabeça para o letreiro que passa acima da cabine de caixas.
ROCHA contra PITBULL — 00h40
— O Rocha é um cara durão — ele explica —, mas o Pitbull é
invicto.
— Parece bem óbvio, então — Camile deduz.
— Não exatamente. A graça é ver alguém tentar tirar o título dele. Se sabemos que o Pitbull sempre ganha, então, sim, a aposta é óbvia, por isso o valor a receber é pequeno, quase insignificante. O lance aqui é apostar no convidado. Torcer para que alguém consiga quebrar a invencibilidade do Pitbull.
— Então… as pessoas apostam para o invicto perder?
— É.
— Mas, se ele sempre ganha, por que se arriscam?
— Primeiro, porque, se o convidado der a sorte de ganhar, metade dessas pessoas aqui ficam ricas. Segundo, pela satisfação de vê-lo lutar. É sanguinário. E terceiro… — ele pega uma ficha e balança entre os dedos — pelo vício.
É claro.
— Mas — ele continua enquanto tira o cigarro da orelha e o acende com um isqueiro — vocês vieram em um dia bem atípico. A casa está mais cheia que o normal, e, pela primeira vez em anos, as pessoas estão realmente levando fé que o Pitbull pode perder.
— Acabou de dizer que o cara é invencível — retruco.
— Boatos de que semana passada ele teve uma luxação no ombro. Ninguém sabe o que aconteceu, nem se ele está totalmente recuperado.
Estou prestes a respondê-lo quando um sino de ringue ressoa na caixa de som e os gritos dos homens vibram as paredes.
— A propósito, meu nome é Marlon. Aproveitem o show.
De repente, as poucas luzes acesas se apagam.
Uma escuridão assombrosa nos cobre.
O lugar ferve em euforia, como em um estádio de futebol. Os urros me arrepiam dos pés à cabeça.
— Camis?
— Aqui — ela responde, segurando minha mão outra vez.
Um segundo depois, um clarão desponta pelo ambiente. A luz do refletor central ilumina a tenda preta. Não é um palco. É um ringue. A tenda começa a subir lentamente, revelando longas barras
de ferro que formam uma gaiola.
Os gritos aumentam.
Meus ouvidos zunem.
Espremo os olhos, tentando entender se o que estou vendo é real. O refletor agora ilumina um homem do lado esquerdo. Seus braços estão amarrados por grossas correntes que se prendem aos ferros da jaula, os músculos se destacam sob a pele suada, a focinheira apertada em torno de sua boca parece pesada.
Ele está preso.
Acorrentado feito um animal selvagem.
Mesmo contido por aquela máscara, seu olhar é feroz e penetrante. Chego a estremecer diante dessa visão. Posso sentir a fúria reprimida e a energia pulsante que vem rasgando de dentro dele.