“Si vis pacem, para bellum” é uma expressão do latim que, traduzida para o português, significa “se quer paz, prepare-se para guerra”. Minha irmã tatuou isso no antebraço quando completou dezoito anos. Meu pai quis saber o que uma garota rica e bonita entendia de guerras, já que a frase era um tanto agressiva para alguém tão angelical como sua primogênita. Íris nunca lhe deu uma resposta verdadeira. Tudo o que fez foi esticar os lábios, exibindo uma perfeita fileira de dentes brancos, agindo como se de fato pudesse ser taxada de ingênua. “É uma frase interessante, só isso”, disse ela — a garotinha doce do papai. Era curioso assistir ao teatro dela. Minha irmã sabia como conquistar o público com seu espírito indomável. Às vezes, eu sentia que seu corpo era pequeno demais para sua alma selvagem, faminta e ocultamente perturbada.
Tudo se tornava muito intenso. A passividade era tediosa. Ela ansiava pela ação. Precisava dos olhares, dos holofotes, do papel principal. Se Íris não fosse protagonista, não haveria história. Se desejasse ganhar, então a vitória já estava fadada. Se quisesse o lugar de alguém, o tomaria; os afetos e conquistas alheias, os roubaria. Tão sorrateira e hábil que, quando você percebesse, tudo já teria lhe escapado como água entre os dedos. Foi assim que ela conseguiu o primeiro lugar em uma das universidades federais mais disputadas de São Paulo. Depois, o estágio em direito em um escritório renomado, algo que ninguém na fase inicial conseguia, a não ser que deixasse o patrão casado te comer como uma p**a em cima da mesa dele.
Íris, com seu vício em competir, conseguia tomar até o que era meu. Segundo ela, eu merecia alguém que não a olhasse com o desejo que meu namorado fazia e que eu deveria dar a ele o direito de escolha.
E eu dei.
Ele a escolheu, e ela… bom, ela o escolheu de volta.
É claro que Íris, tão obstinada e indomável, sabia o que era melhor para mim. Minha admiração pela minha irmã mais velha era maior do que qualquer dúvida ou qualquer mágoa frívola. Ditar escolhas era o que fazia com excelência, ainda mais se fossem as minhas.
E eu permitia.
Porque Íris era incrível.
Eu me espelhava nela.
Me inspirava.
Ela era um fenômeno desde sua concepção.
Sua vinda ao mundo custou caro.
Minha mãe não podia ter filhos, mas, com tratamentos milionários, Íris chegou e se tornou intocável.
O grande amor da vida deles.
O bem mais precioso da prestigiada família Salles. Quando eu cheguei, me tornei apenas uma sombra: bem-vinda, mas não tão desejada. Uma benção, mas nunca um milagre. O curioso era que eu havia nascido sem esforços da ciência. Sem milhares de reais injetados. Eu era a real surpresa da mulher com o útero doente. Mas era Íris quem carregava todos os títulos. Éramos divergentes. Opostas em cada detalhe. Admitia que ela me superava na maioria das coisas, e, ainda assim, nossa relação significava tudo para mim. Ela era minha melhor amiga. Minha confidente.
Cinco anos de diferença nos separavam quando o acidente aconteceu. A pior noite das nossas vidas. Todo aquele fogo, a fumaça… Seus gritos rasgaram o ar enquanto ela clamava por mim. Os olhos cheios de pavor fixos nos meus. Seus punhos chocando-se contra o vidro temperado da porta, incapaz de se estilhaçar e libertá-la. Não pude salvá-la. Vi minha irmã ser consumida pelo fogo. A pele soltando-se da carne. Os gemidos de um fim enlouquecedor e agonizante. A culpa da morte de Íris recaiu sobre meus ombros. Me devorou. A partir daquela noite, ela, que sempre ditava nossos caminhos, decretou o mais tortuoso deles: a dor dos meus pais se tornou mais forte do que todo o resto que sobrou.
Íris se foi.
Eu sobrei.
A primogênita de sucesso morreu, por que não a caçula decepcionante? Depois do incêndio, minha mãe m*l conseguia olhar para mim. O luto se instalou como um hóspede inconveniente e nunca mais foi embora. Foi nossa ruína. Empurro os pensamentos para longe. Dou um gole no Mojito, sua bebida favorita e encaro a tela do celular: todo cinco de julho é como se Íris morresse outra vez. Hoje, em especial, é sufocante ficar em casa. Meus pulmões se enchem com a dor palpável que paira naquele lugar. Tantos metros quadrados luxuosos não são capazes de me livrar dos olhos acusadores da minha mãe, que me perseguem como fantasmas à espreita. A sensação é de que ela poderia irromper no meu quarto e atear fogo em mim, em uma tentativa psicótica de me trocar por Íris. Porque ela trocaria. Sem pensar duas vezes.
É por isso que estou na Le Rêve, às três da manhã, uma boate no centro de São Paulo, onde Íris vinha com as amigas aos finais de semana. Ela me trouxe aqui no seu aniversário de vinte e um anos. Na época, eu tinha dezesseis, não podia entrar, mas seus cabelos loiros e o corpo curvilíneo conseguiam qualquer coisa, qualquer passagem. Me lembro de ouvi-la pedir uma dose de Mojito ao barman. Experimentei e odiei, mas fingi gostar para parecer tão descolada quanto as amigas dela. Tentava a todo momento impressioná-la e fazê-la me enxergar com a mesma admiração que via nela, mas o esforço era ridículo. Nós não tínhamos nada em comum. Ela sempre parecia brilhar mais. Se destacar mais. Até na aparência, em que podíamos ser razoavelmente comparadas, ela conseguia mais evidência. Meu cabelo também era loiro, mas não tão brilhante quanto o dela. Olhos verdes, mas não como suas esmeraldas. Bonita, mas não igual à Íris. Mais um gole. Outra careta.
Para ser sincera, ainda odeio essa merda de bebida e essa boate. Só vim por ela. Onde quer que esteja, está rindo de mim e pensando que nunca chegarei aos seus pés — nem mesmo nos defeitos —, observando meu esforço para me igualar, para fazer nossos pais pensarem que posso ser boa e que valho tanto quanto ela. Pareço uma invejosa falando assim da minha irmã, e, embora me culpe muito por agir dessa forma, nunca consegui controlar esse sentimento. Eu a amava. Muito. Mas viver toda a minha vida sendo diminuída e comparada não era exatamente a melhor coisa do mundo.
“Mais uma dose?” o garçom sugere. Fito meu reflexo no espelho do bar: cabelos desgrenhados, lápis de olho borrado pelas lágrimas intrusas. A visão é tão decadente que decido colocar um fim na minha noite.
“Não, obrigada.”
Meus saltos me condenam e eu tropeço quando decido me levantar para ir embora. A boate roda. O torpor nubla minha visão. A música eletrônica faz meu coração vibrar. Pago a comanda com o cartão de crédito e saio. Meu carro está estacionado a duas ruas daqui. Caminho com pressa, tentando recuperar a sobriedade. Em seguida, pego as chaves na bolsa e entro no meu BMW. Poderia ligar para Camile vir me buscar, mas a essa hora ela deve estar no sono profundo de alguém que trabalha em dois empregos e não merece o transtorno de ter que lidar comigo. Então, faço a próxima burrada da noite e dou partida no carro.
Poucos quilômetros à frente, tentando não deixar minha vista turvar, ouço um alerta do GPS para uma blitz, o que me faz mudar de rota sem pensar duas vezes. Me ajeito no banco, desconfortável com o breu das ruas no novo percurso. As lentes de contato parecem secas em meus olhos, dificultando ainda mais a p***a toda. Começo a piscar rápido para ajustá-las, e então, de repente, um vulto atravessa o para-brisa. O que acontece depois é tão rápido que m*l posso raciocinar. Sinto um impacto pesado na lataria. Paro o carro bruscamente e o som da colisão contra o capô faz minha respiração estrangular na garganta. Puxo o freio de mão e aperto o volante, os dedos pulsando com a força que o agarro, o corpo petrificado pelo susto.
Que p***a foi essa?
É como se eu acabasse de ficar sóbria instantaneamente. Meus ouvidos zunem, e meus pensamentos são como sussurros desesperados. Continuo olhando para frente, mas não vejo nada além de uma sombra que se move devagar no chão. Me obrigo a reagir. Tateio o banco do carona, à caça do celular, e saio devagar do carro. O farol do BMW ilumina o homem jogado no asfalto da rua completamente deserta.
“p**a merda, eu sinto muito.” Meu murmúrio não chega até os ouvidos dele. Corro e me agacho, ficando na sua altura.
“Machucou?” O cara solta um grunhido rouco quando toca o braço direito sob o moletom preto. Que pergunta i****a pra c*****o! É óbvio que o ombro dele deslocou com a pancada.
Meu Deus, me desculpa, de verdade, eu vou ligar agora pra ambulância e… Antes que eu possa discar o 192, seus dedos agarram meu pulso e o toque quente e firme me assusta. Usando a outra mão, ele puxa meu celular com grosseria e o bloqueia, como se a ligação fosse a coisa mais estúpida do mundo.
“Não.” O baixo profundo de sua voz rouca me atinge em cheio, o timbre carregado de ódio. Não?
Eu o atropelei. O machuquei.
Estou — embora ligeiramente — bêbada. Ele poderia acabar com a minha raça e, ainda assim, não quer que eu faça a ligação? Péssimo sinal. Volte para o carro, Louise. A ordem, no entanto, não chega até minhas pernas e eu o estudo com mais clareza: parece mais velho que eu, talvez uns vinte e oito, vinte e nove anos. Tatuagens sobem por seu pomo de adão, desenhando a pele alva com tinta escura. O capuz do moletom faz sombra em seu rosto, mas não impede que eu encontre o brilho sinistro de seus olhos sombrios. Não sei dizer se são verdesescuros ou pretos porque meu corpo bloqueia a luz do farol, mas o semblante intimidador me paralisa.
“Eu…” Entreabro os lábios, reagindo. “Por que não?” Condeno o receio no meu tom de voz quando ele olha sobre meus ombros. Está sondando se tem mais alguém comigo. Temo pelo que ele possa fazer ao perceber que estou desacompanhada. Apesar de ser ele o atropelado e estar aparentemente com o braço deslocado, quem se sente em perigo aqui sou eu, sozinha com ele. Vendo meu celular ainda em suas mãos, reparo que elas estão machucadas. Todos os nós dos dedos com hematomas recentes, mas não parecem fruto do atropelamento. É como se ele tivesse socado alguma coisa, ou alguém, até a pele arrebentar. Cada detalhe desse homem é um grito para que eu me afaste. Meu coração volta a bater rápido quando ele começa a se levantar. Me ergo junto, atenta, e nossa diferença considerável de altura só intensifica os sinais de alerta.