“Pode devolver meu celular, por favor?” Estendo a mão, tentando demonstrar alguma confiança, mas logo percebo como meus dedos tremem. Apesar do conjunto de moletom folgado, posso ver o contorno de seus bíceps sobre o pano, o peitoral e as costas largas. Ele pode fazer o que quiser comigo. Meu estômago se contorce de medo. Quero que ele devolva a porcaria do telefone e pare de me olhar como se eu fosse a pessoa mais desprezível que já viu na vida e sua vontade fosse me desovar em algum lugar nessa escuridão. Dou um passo para trás. Se ele tentar alguma coisa, eu corro.
“Escuta, não sei qual é a sua, mas eu só quero ajudar, então…”
“Entre no carro.” Ele estende o aparelho na minha direção.
“Peça para te buscarem antes que você mate alguém.” Seu tom acusatório me deixa com vergonha. Ele sabe que estou alcoolizada.
“Só depois de ligar pra ambulância. Preciso saber se você está bem.”
“Se ligar, a polícia vem logo depois.” responde. “E nenhum de nós dois quer isso, quer?”
Nego devagar com a cabeça, sem tirar os olhos dele. Odiaria ter que fazer meus pais lidarem com essa merda bem no aniversário de morte da Íris. Mas quais as chances de ser atropelado por uma garota bêbada e irresponsável, dirigindo um BMW, e negar socorro e o envolvimento da polícia? O cara ainda por cima está com o ombro deslocado. Quer dizer, você tem a faca e o queijo na mão. Ninguém é tão bonzinho assim. Ele com certeza não parece esse tipo.
“Então… eu… é que acho que preciso de uma garantia” digo, incerta. “Sabe, você pode prestar queixa, dizer que te atropelei e depois fugi como uma v***a louca.” Ele cerra os olhos na minha direção, como se eu fosse uma piada. Mas eu estou certa. Não seria uma má ideia. Ele foi atropelado por um carro de meio milhão de reais. Tenho o atestado de filhinha de papai rico e, honestamente, ele tem um atestado de alguém que se aproveitaria disso.
“Quer uma garantia, Barbie?” ele pergunta, o maxilar firme e os olhos desafiadores. Tento esconder meu desespero no segundo que ele se aproxima de mim. Forte. Ameaçador. Perigoso. Há uma distância de um dedo entre nós quando minha atenção segue até sua cintura, onde ele puxa a barra do moletom para cima e revela a arma presa no cós da cueca.
“Bem aqui, Louise.” Paro de respirar.
Meu nome sai de sua língua como uma ameaça. Minhas pernas tremem como vara verde e faço menção em correr, mas ele me segura pela cintura e me puxa de volta, colocando o cano da arma no meu queixo e erguendo meu rosto para que eu olhe em seus olhos. Minha alma sai do corpo. Começo a suar frio. Espasmos me atingem com tanta violência que, ironicamente, se esse homem apontando a p***a de uma arma na minha cara não estivesse me segurando, eu já estaria no chão. Meus neurônios entram em pânico por um breve momento, me perguntando como ele sabe quem eu sou, até que sua mão deixa minha cintura e sobe até o colar em meu pescoço. Meu colar. O maldito colar.
“Nada inteligente andar por aí usando uma coleira com seu nome.” Ele puxa a joia com brutalidade, e eu arfo. O cano da arma continua no meu queixo.
“Não faz isso, por favor…” eu sussurro.
Ele me observa tão profundamente que consigo ver a violência queimando em seus olhos. Depois, em silêncio, guarda a arma na cintura. Eu me afasto, apalpando meu pescoço, como se seu toque, a pressão do cano e de seus dedos quentes tivessem deixado uma queimadura na pele.
“Eu fico com isso” diz, mostrando o colar. “Pelo dano que você causou.” Íris me deu a gargantilha de presente pouco tempo antes de morrer, com as letras L.O.U.I.S.E. Ela tinha uma igual com o nome dela. Parecia tão bonito e especial, sempre que saíamos juntas, perguntavam onde havíamos comprado. Mas agora… só parece incrivelmente i****a.
Mesmo assim, é minha. Ela me deu. Foi o último presente que ela me deu. Tem um significado pra mim. É importante. Meus olhos se enchem d’água. Eu a quero de volta. Devolva, seu filho da p**a desgraçado. Mas nenhuma palavra tem coragem de sair da minha boca.
“Preciso ser mais claro sobre não envolvermos a polícia nisso ou nossa conversa foi suficiente? Olho outra vez para a arma em sua cintura e engulo a saliva.”
“Foi suficiente.”
Seu olhar sustenta o meu por um segundo que se estende pela eternidade. Ele parece gostar da minha rápida submissão, do medo fluindo em cada poro do meu corpo. Enraizada no lugar, apenas observo quando ele coloca a gargantilha no bolso, me dá as costas e se afasta na escuridão da madrugada, me deixando sozinha no único feixe de luz que vem do farol do carro. No momento em que some de vista, finalmente solto o ar preso e sinto o sangue circular pelo meu corpo. p**a que pariu. Preciso sair daqui antes que ele mude de ideia e aquela arma seja a última coisa que eu veja na vida. Quando dou um passo para o lado, no asfalto onde ele caiu, vejo um papel.
A curiosidade me atinge e eu o pego entre os dedos. Parece um dos cartões do escritório de advocacia da minha mãe. Embora seja todo preto em frente e verso, há uma imagem sinistra de um cão de três cabeças aterrorizante no centro. Se essa coisa pertence ou não a ele, não sei, mas sinto a necessidade urgente de levá-lo comigo. Dou mais uma olhada ao redor e volto para o carro. Com a impressão de estar sendo observada e minha pele ainda em chamas pela sensação do cano da arma e o toque do maldito bandidinho de merda, vou embora.
São quase quatro da manhã quando giro a chave na porta de casa e vejo Calebe sentado na poltrona. Minha mãe está ao lado dele, envolta em um roupão de cetim. Os dois cessam a conversa e me encaram logo que entro. Os olhares que me lançam até poderiam me fazer sentir como uma c****a arrependida, que fugiu de casa e voltou com o r**o entre as pernas. E, embora talvez eu seja uma, arrependimento é a última coisa que sinto agora.
Na verdade, sinto raiva. Aquela que brota tão violenta que você m*l consegue disfarçar. Pra começo de conversa, eu ando cansada. Cansada pra c*****o. Ainda tive que lidar com um maldito enfiando uma arma na minha cara e roubando o presente da Íris. Tudo o que eu quero é a escuridão da casa até meu quarto, uma ducha quente e os lençóis da minha cama. Não estou com saco para aturar Calebe e seu olhar cheio de acusações. Principalmente hoje.
“Vou deixar vocês conversarem” minha mãe diz, a voz carregada de promessas cortantes que só eu entendo.
Noto a repreensão apenas no timbre. Os olhos inchados e vermelhos dela e sua aparência exausta me fazem questionar se Calebe é cego, além de inconveniente. Ele foi um incômodo. Um incômodo que eu terei que lidar amanhã. Ela caminha devagar, quase se arrastando, até o segundo andar. Coloco minha bolsa na mesa. Calebe espera mais um pouco. Precisa se certificar de que ninguém vai nos ouvir. Afinal, a versão que minha mãe conhece dele não é a que eu conheço. Não é a mesma que vai me torrar a paciência agora. — “Estou indo dormir, boa noite.” — Ele fita o celular, se referindo à minha última mensagem de quatro horas atrás. — Pode me explicar isso? Sim, eu posso. Adoraria dizer com todas as letras que a enviei já dentro do carro, indo para a boate disposta a encher a cara e, se desse sorte, ser fodida com tanta força que esqueceria toda a merda por alguns minutos. Infelizmente, só deu para ficar bêbada.
“que você quer a uma hora dessas?” Cansada, removo minhas argolas e amarro o cabelo em um coque. O olhar minucioso de Calebe estuda meu pescoço exposto, à procura de marcas que não vai achar.
“Um amigo te viu no centro” ele diz. “Vim confirmar se realmente tinha mentido para mim.”
“Dirigiu três quilômetros em plena madrugada só pra se meter na minha vida?”
“Eu atravessaria o mundo por você, Lou, sabe disso.”
Eu o encaro por um segundo antes de balançar a cabeça negativamente. Tiro os saltos, mas não sigo para o meu quarto. Não darei essa chance a ele. Já estou com álcool no sangue e deixá-lo entrar seria burrice demais até para mim.
“Sabe que dia é hoje, Calebe?”
“Sim, eu sei e sinto muito por isso.” Ele se aproxima.
Os olhos pretos se conectam aos meus. O cabelo loiro bem cortado, o mesmo aroma do primeiro perfume que eu dei há três anos. Ele é bonito. E manipulador. Eu o conheço como ninguém. Dou um passo para trás, esquivando-me de sua redoma.
“Acho melhor você ir embora” sugiro. “Não devia nem estar aqui.”
“Pra que me evitar? Você quer que eu fique e sabe que também quero. Posso cuidar de você.”
“Ah! Me poupe.” Ele ri.
“Tão teimosa…” Ele tenta tocar o fio solto do meu cabelo, mas eu desvio.
“Ok. Você quer falar? Então vamos falar. Ano passado, quando fui burra o suficiente pra te ligar porque o aniversário da morte da Íris era algo infernal pra mim, você falou com os meus pais. Eu desabafei com você, e você os fez achar que eu era a p***a de uma suicida.”
“Óbvio. Você queria o quê? Fiquei preocupado pra c*****o. “Não sei se aguento mais tudo isso” lembra? O que você pensa quando alguém diz esse tipo de coisa?”
“Que talvez seja só um dia de merda? Que talvez essa pessoa só precise desabafar, conversar, sentir que tem alguém em quem possa confiar?”
“Não consegue admitir, Lou, mas seu comportamento em relação à Íris não é normal. Sempre acho que nesse dia você pode… perder a cabeça.”
“Meu comportamento se chama “luto”, p***a. Tenho direito de me sentir como eu quiser pela morte da minha irmã!”
“Já faz três anos e só piora.”
“Existe algum prazo de validade pra esse tipo de coisa?”
“Você entendeu o que eu quis dizer.”
“Não, não entendi. Acho que é assim que funciona quando você perde alguém que ama. Você sofre. Por toda a vida. Talvez uns lidem mais fácil com o luto que outros, mas eu lido assim. E não preciso de um cara que fodeu minha cabeça, achando que tem o direito de me dizer o que fazer com a p***a dos meus sentimentos.”
“Louise…” Sua voz parece uma advertência. Eu odeio esse tom.
“Não vou me desculpar por me preocupar com você. Olha aí a comprovação. Mentiu pra mim, saiu sozinha, está bêbada. Você voltou dirigindo?”
Solto o ar, exausta. A falta de resposta é a confirmação que ele precisa.
“Age por impulso e ainda fica brava porque me importo com seu bem-estar? Parece uma criança. Uma garotinha mimada e irresponsável.”
“Engraçado. Quando era Íris agindo assim, tudo o que você sentia era tesão.”
Minhas palavras o desmontam. O comportamento manso e compreensivo são pura fachada. Sua expressão muda em segundos. Já sei o que vem a seguir. O aumento da voz. A postura defensiva. A avalanche de culpa nos meus ombros. Previsível. Calebe é extremamente previsível.
“Já vai começar com isso?” Ele sobe o tom. “Estou aqui tentando te ajudar e você quer ser baixa a esse nível?”
“É porque sua hipocrisia suga minha energia. Como eu disse, você nem deveria estar aqui.”
“Vim porque me importo com você, c*****o, quantas vezes tenho que repetir?”
“Provou o contrário há muito tempo.”
“Ah, Louise, você sempre leva as coisas pra esse caminho.”
“Vai embora.” Calebe se n**a e chega mais perto.
Tento me desvencilhar, mas seus dedos envolvem meu pulso.
“Bastou um erro pra você desconsiderar tudo o que eu fiz por nós. Quer mesmo voltar nesse assunto? De novo? Você é injusta pra caralho.”
“O que eu quero é que suma da minha casa e me deixe dormir!”
“Você tinha terminado comigo.”
“Vai embora.”
“Você tinha.”
“Eu vou ligar pro porteiro e chamar a segurança.”
“Foi você, Louise.”
Tento avançar pela sala, mas ele entra no meu caminho.
“Começa o assunto e não quer continuar?” Agora sua voz não passa de um sussurro nervoso.
“Você me chutou sem mais nem menos. Me deixou com cara de o****o sem saber o que eu fiz de errado. Então, não coloque a culpa de tudo em mim. Você terminou.”
“E você ficou tão triste que foi afogar as mágoas na b****a da minha irmã. Trepou com Íris da forma mais suja e ainda tem coragem de insinuar que a culpa foi minha?”
Ele infla as narinas, raivoso. É natural: quando você raspa a ferida, ela sangra.
“Eu estava bêbado. Não queria ter feito aquilo.”
Solto um riso incrédulo. Eu estava bêbado e fiz o que morria de vontade de fazer há muito tempo, essa é a resposta certa. Meu sangue escalda sob a pele. Meu olhar vibra na garrafa de conhaque suspensa atrás dele, na adega do meu pai. Eu a quebraria na cabeça dele com o maior prazer.
“Calebe, eu imploro, vai embora antes que eu faça uma loucura e justifique que também é pelo álcool. Você sabe. Comer a irmã da namorada e enfiar um pedaço de vidro no pescoço de um desgraçado é quase a mesma coisa.”
Ele me encara por alguns minutos.
“Você é louca.”
“Já fui chamada de coisa pior. Corna foi uma delas.”
A expressão ferina suaviza-se conforme o cinismo surge.
“Você está bêbada. É isso. Enche a cara e começa a falar essas merdas. Você sempre foi assim. Nós conversamos amanhã.”
“Não, não temos nada para conversar, nem agora, nem amanhã.”
Me esquivo logo que ele tenta tocar em um fio solto do meu cabelo. Então, Calebe sorri como um adulto que entende a birra de uma criança. É isso que eu sou para ele. Uma garotinha mimada, que dá importância ao fato de que foi traída pela própria irmã e pelo filho da p**a que tirou minha virgindade. Já tivemos essa discussão um milhão de vezes.
Nós dois somos um ciclo vicioso de merda, e Calebe fode tanto com minha cabeça que agora estou com raiva por ele finalmente ir embora. Vai porque julgou necessário, não porque eu mandei. Concluiu que tudo o que eu disse não é real, que é fruto do álcool no meu sangue. Ele me desacredita. Me diminui. Me tira do sério. Desperta meu pior lado. Ele me lembra de toda a merda que aconteceu há três anos.
“Durma, Louise.” Puxo o ar, trêmula, quando ele deixa o apartamento e desaparece. Mas, infelizmente, nunca da minha vida.