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1147 Palavras
Quando chego à cozinha na manhã seguinte, minha mãe já tomou o desjejum sozinha. Na noite anterior, enquanto eu me arrumava para sair, ela preparou o jantar assim que meu pai avisou que chegaria a tempo. Era um dia difícil para os dois e ela, mais do que tudo, precisava do apoio dele, mas ele não apareceu, é claro. Fico imaginando qual foi o motel dessa vez. Quanto gastou. Qual p**a escolheu. Desde o primeiro ano da morte de Íris — quando as traições ficaram escrachadas, porque ele não fazia mais questão de escondê-las —, esses ciclos ficaram ainda mais intensos. Pelo menos uma vez por semana ele não dorme em casa, e então no dia seguinte os dois se trancam no quarto e despejam ofensas tão pesadas que esse lugar se torna um purgatório e eu, ouvindo tudo, desejo morrer. Sei que ele é um merda. Já aceitei isso. A decepção, o nojo e a revolta são sentimentos que ele plantou e me forçou a regar. Mas sumir em um dia como esse, quando minha mãe está fragilizada além do normal, é conseguir descer ainda mais o nível. “Oi, mãe” cumprimento, ligando a cafeteira. Ela nem sequer tira os olhos da xícara de chá. “Bom dia” tento outra vez. Sem resposta. A sensação incômoda se instala na minha garganta. Com a caneca na mão, eu a encaro por longos minutos. “Sobre o Calebe essa noite, não vai acontecer de novo.” Silêncio. É até constrangedor me pegar desejando que ela fale alguma coisa, nem que seja para me xingar e despejar essa raiva contida. Sua expressão na madrugada, quando vi Calebe ao seu lado, foi um aviso de que uma discussão viria pela manhã. Parte de mim temeu por isso. A outra, se conformou. Pelo menos, ela teria um motivo para olhar na minha cara. No entanto, tudo o que ela faz é respirar fundo — uma tragada tão forte que deixa claro que estou sendo um incômodo —, e dar o último gole no chá. Silêncio. Sou insignificante. Quando ela se levanta e deixa a cozinha, engulo a ardência entalada e limpo a garganta. Por sorte, sou boa nisso, em fingir que nada aconteceu, assim como ela finge que eu não existo. Mas, mesmo que eu tente negar, sinto falta dela. De quem Maitê Salles era antes. Por mais imparcial que fosse, aquela versão pelo menos olhava para mim através dos ombros de Íris. Me enxergava. Trocava meia dúzia de palavras. Se importava. Me sento na cadeira com minha caneca e fito o porta-retratos na estante. Meu pai, ela, Íris e eu. Todos rindo. Parece que aconteceu em uma outra vida. Éramos outras pessoas. Acho que nos transformamos de forma irreversível depois daquela tragédia. As emoções que achamos controlar são exatamente as que nos controlam. Elas nunca morrem. Só são afogadas bem no fundo, mas sempre acabam voltando à superfície, mais desesperadas, mais sedentas. Traição. Depressão. Obsessão. Eu fiquei com a última. Me lembro de passar a primeira madrugada em claro pesquisando qual era a sensação de morrer queimada. O que acontecia com o corpo humano naqueles últimos minutos. Até que ponto Íris agonizou antes de mergulhar na escuridão para sempre. Em alguns chats, essa é considerada a pior forma de morrer. Além de toda a dor alucinante e a percepção do corpo cozinhando, a retração da pele do pescoço pode ser forte o bastante para estrangular a pessoa. É quase como uma lesma em contato com sal, se contorcendo em tormento, se desintegrando em uma massa viçosa e derretendo até a morte. Me pergunto se a intoxicação pela fumaça a poupou de um sofrimento longo ou se ela ficou consciente a ponto de sentir o cheiro da própria carne queimar. O laudo da autópsia tinha as respostas, mas ninguém além de mim quis saber, então nunca pude sanar minhas dúvidas. “Sua irmã morreu”, minha mãe disse, “saber o quanto ela sofreu é sadismo.” Não insisti. Ela estava certa. O funeral com o caixão fechado foi demais para todos nós. Havia um retrato enorme de Íris bem acima dele, o rosto perfeito, pincelado igual a uma obra de arte, como se ele fosse capaz de afastar a noção de que jazia ali uma garota com rosto retorcido. Mesmo com as flores e os aromatizadores na capela, às vezes podíamos sentir a lufada de ar carregada do cheiro de carne queimada. Ainda assim, não parava de pensar no incêndio. Era mais forte que a razão. Uma necessidade masoquista de me torturar. A maior dor física que Íris tinha enfrentado foi quando Sara, sua melhor amiga, fechou a porta do carro e prensou sua mão, quebrando quatro dedos dela de uma vez só. A dor foi tanta que minha irmã se mijou na frente de todo mundo. A urina escorreu por baixo da saia lápis enquanto ela urrava em agonia. Me lembro de como ela olhou para Sara — que conhecíamos desde a infância, aquela que fazia os trabalhos de Íris, que passava horas na nossa casa, que estendia um tapete vermelho para que ela passasse, sempre tão, tão gentil e doce — e cuspiu: “Sua p*****a do c*****o!” Fiquei em choque. Nunca tinha visto Íris falar com ela daquele jeito. Por isso sei que, se minha irmã pudesse me assombrar, eu a veria parada na porta do meu quarto todas as noites antes de dormir. “Sua p*****a do c*****o! Você me deixou morrer!” Às vezes, confesso que imagino isso. Íris me observando. Me amaldiçoando. Me culpando. Foram algumas semanas totalmente obcecada por esse assunto, até concluir que, se eu quisesse entender de verdade o que ela passou, então teria que me trancar em um quarto e deixar o fogo me engolir. Do contrário, era melhor esquecer e seguir em frente. Aceitar que ela se foi da pior forma que alguém poderia ir. Que seus últimos minutos de vida foram terríveis e dolorosos e que nada, jamais, mudaria isso. Foi o que eu fiz. Segui. Agora estranhamente sinto a mesma fixação daquelas noites, só que em algo peculiar. A obsessão forma raízes perigosas envolta de uma coisa que eu deveria ignorar, mas é mais forte que eu. Puxo o cartão preto do bolso da calça jeans e observo o cão de três cabeças que implora para ser decifrado. Eu o escaneio com a câmera do meu celular e espero. Não dá em nada. Deslizo o polegar devagar, tentando sentir o alto-relevo, e percebo uma sequência numérica minúscula no canto inferior direito. Contra a luz, eles reluzem um pouco mais. -23.517635,-46.703601 Não faço ideia do que significam. Pela sequência estranha, não pode ser um número de celular, nem um documento. Mas, se isso realmente tiver algum significado e me levar a algum lugar, então só há uma pessoa que pode decifrá- lo.
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