Se a humanidade permitisse que a natureza tomasse o seu curso, Tim já estaria morto há muito tempo, de tanta confusão que ele consegue arrumar. Ele chega em casa, vê que os pais não estão, pois os mesmos trabalham o dia inteiro, esquenta o almoço (uma lasanha de forno dessas que se compram prontas em supermercados), pega um resto de refrigerante de limão que tem na geladeira e vai pro quarto dele. Lá dentro ele liga o som, coloca um CD pra escutar e começa a cantar uma de suas músicas preferidas:
“Fight, we will fight right! Living low in a world of our own destined to live right. We're taking hell as our home... Burning lives, burning... Asking me for the mercy of God... Ancient cries, crying... Acting fast upon the way of the dog... Welcome to hell! Welcome to hell! Welcome to hell! Welcome to hell!”...
Tim pula na cama, bate cabeça, faz guitarra invisível, engole a lasanha e entorna a vodca com refrigerante de limão. Ele entra no bate papo e fala que pensa em se vingar de tudo e de todos se apenas uma dessas pessoas imbecis que fingem se importar com Sam, começassem a ofendê-lo com palavras de conforto. As pessoas anônimas do bate-papo falam que ele é louco, que vão denunciá-lo, que isso é coisa do d***o, etc. Ele apenas ri e fica xingando as pessoas, até que se cansa daqueles anônimos e sai do chat. Depois ele abre um vídeo de velhas chupeteiras no X-Hamster, pois o mesmo ficou viciado depois de ter sido boytoy de uma VELHA SAFADA* e começa a bater punheta já ficando chapado.
O último resquício de euforia, o eco distante daquela transgressão furtiva, esvaiu-se como a fumaça de um cachimbo de crack, na mente embotada de Tim. O breve refúgio do sono, um interlúdio químico entre a ousadia e a ressaca, havia terminado, deixando-o à deriva em um mar de languidez alcoólica. Uma hora se arrastara, marcada apenas pelo tique-taque implacável de um relógio invisível, e agora, impelido por uma força obscura que m*l compreendia, seus dedos trêmulos buscaram a capa gasta do caderno de Sam.
A decisão de ler em voz alta, naquele santuário profanado de memórias escritas, surgiu como um impulso sombrio, uma necessidade visceral de trazer à luz as palavras aprisionadas, pois o mesmo percebeu que existe algo tenebroso naquele caderno. Ao abrir a primeira página com as bordas sujas, uma onda fria de presentimento o envolveu. Não eram meros rabiscos em papel: eram fragmentos da alma de Sam, lascas afiadas de sua mente atormentada, agora expostas à profanação da sua voz vacilante.
Cada sílaba proferida era como invocar um espectro, trazer à tona a essência fugaz de um espírito que havia se desvanecido para sempre. A voz de Tim, rouca e hesitante, preenchia o silêncio opressor do ambiente, transformando o quarto em um palco macabro onde as palavras de um morto dançavam em um balé espectral. Ele sentia como se estivesse trespassando as camadas mais profundas da consciência de Sam, aventurando-se nos labirintos escuros de seus medos e desilusões mais íntimos.
A cada página virada, a sombra da verdade se adensava. As palavras de Sam eram um abismo insondável, repletas de angústia e uma sensação lancinante de inadequação. Tim, preso na teia pegajosa da leitura, era confrontado com a dolorosa constatação de sua própria incapacidade de realmente compreender a profundidade daquele sofrimento. Ele nunca havia experimentado o mesmo grau de deslocamento, a mesma corrosiva desesperança que consumira seu amigo. Havia uma barreira invisível, intransponível, separando sua experiência de vida daquele mergulho fatal no vazio.
O peso das palavras de Sam se tornava quase físico, esmagando o peito de Tim com a inevitabilidade sombria do destino. Ele lia sobre noites insones, povoadas por demônios silenciosos e sussurros de autodepreciação. Ele acompanhava a lenta e inexorável erosão da esperança, o desvanecer gradual da luz nos olhos de Sam. E em cada descrição pungente, Tim via refletida sua própria fragilidade, a tênue linha que separava a sanidade do abismo.
Sua voz tremia, embargada pela crescente angústia, enquanto ele tentava articular a dor lancinante que emanava das páginas. Como Sam havia aceito aquele pacto demoníaco? Como ele havia caminhado por tanto tempo sob o peso esmagador daquela melancolia implacável? As palavras pareciam agarrar-se à sua garganta, sufocando qualquer tentativa de compreensão plena.
A cada frase lida, Tim sentia o espectro de Sam pairar mais perto, sua presença invisível permeando o ar carregado de arrependimento e mistério. Ele imaginava o rosto pálido do amigo, os olhos antes vibrantes agora velados por uma tristeza profunda. Ele tentava reconstruir os últimos dias, as últimas horas, buscando em vão algum sinal, alguma pista que pudesse ter evitado o desfecho trágico.
As reflexões de Sam eram um espelho distorcido, refletindo as próprias inseguranças de Tim, ampliando suas falhas e expondo suas vulnerabilidades. Ele se via confrontado com a superficialidade de suas próprias alegrias, a futilidade de suas preocupações cotidianas diante da profundidade abismal da dor de Sam. Havia uma disparidade gritante entre suas existências, uma dissonância que o deixava com uma sensação nauseante de culpa e impotência.
As palavras escritas por Sam naquele caderno, pintavam um quadro sombrio do mundo, um lugar frio e indiferente onde a beleza era efêmera e a crueldade persistente. Ele descrevia a sensação de ser um estranho em sua própria pele, um exilado em sua própria vida. Tim nunca havia se sentido assim, mas a intensidade das palavras de Sam o fazia questionar sua própria percepção da realidade. Será que ele estava cego para a escuridão que espreitava sob a superfície? Será que ele havia falhado em perceber os sinais de desespero em seu amigo?
Lágrimas quentes escorriam pelo rosto de Tim, manchando as páginas com a sua própria tristeza tardia. Cada lágrima era um reconhecimento de sua falha, uma confissão silenciosa de sua incapacidade de ter realmente conhecido Sam. Ele percebia agora que as conversas casuais, os risos compartilhados, haviam apenas arranhado a superfície da alma complexa e atormentada de seu amigo.
A leitura se tornava uma tortura lenta e excruciante, mas Tim não conseguia parar. Havia uma compulsão mórbida em continuar, uma necessidade de absorver cada fragmento da dor de Sam, como se ao fazê-lo pudesse de alguma forma redimir sua própria ignorância. Ele queria entender, desesperadamente, o que havia levado seu amigo à beira do abismo, mesmo que essa compreensão chegasse tarde demais.
A noite avançava, engolindo o quarto em sombras cada vez mais densas. A voz de Tim se tornava um murmúrio rouco, quase inaudível, mas ele persistia, impulsionado por um misto de luto e uma vaga esperança de encontrar algum sentido na tragédia. As palavras de Sam eram agora suas próprias palavras, ecoando em sua mente como um mantra sombrio.
Ele se perguntava sobre o momento derradeiro, o instante final de desespero que havia levado Sam a cruzar o ponto de não retorno. Ele tentava imaginar seus pensamentos, seus sentimentos, o vazio avassalador que o havia consumido. Mas a mente de Sam permanecia um enigma impenetrável, selada para sempre pelo silêncio da morte.
Ao se aproximar da última página, uma sensação de terror gelado percorreu a espinha de Tim. Havia uma premonição sombria, uma certeza visceral de que as palavras finais de Sam o confrontariam com uma verdade ainda mais dolorosa. Seus dedos hesitavam sobre o papel, como se temessem despertar um fantasma adormecido.
Finalmente, com um suspiro trêmulo, ele leu as últimas palavras, a caligrafia de Sam vacilando como se a própria mão que as escrevera estivesse à beira do colapso. E naquele instante, Tim sentiu o peso total da perda esmagá-lo, a compreensão brutal de que Sam havia partido para sempre, levando consigo um universo de pensamentos e sentimentos que jamais seriam totalmente desvendados.
Ele permaneceu ali, na penumbra do quarto, o caderno de Sam aberto em suas mãos trêmulas, as lágrimas escorrendo incessantemente. A leitura havia terminado, mas o eco das palavras de seu amigo ressoava em sua alma, assombrando-o com a fragilidade da vida e a escuridão insondável que pode consumir até mesmo as almas mais sensíveis. A jornada de Tim em busca de compreensão m*l havia começado, uma trilha sombria e incerta pavimentada com as palavras de um fantasma. Ele cria coragem e então começa mais uma leitura em voz alta...