UMA DÚVIDA E O INÍCIO DE UMA SUCESSÃO DE COINCIDÊNCIAS

1938 Palavras
Tim terminou de ler essa primeira história e de repente se viu perante uma realidade, que era a mesma realidade que envolvia Sam: o mistério. O adolescente parou para refletir que por trás desse caderno existe uma realidade terrível: a realidade das pessoas que nele estão citadas. E diante deste horrível ser que é o ser humano, Tim percebeu que aquilo o que seu amigo escreveu existe um abismo existencial que envolvem aqueles personagens, que são pessoas que existem, mas... Porque Sam escreveria sobre elas? As perguntas começam a povoar a mente do jovem e, já embriagado devido à vodca, Tim adormece. Quando acorda, Tim reflete intensamente como será a nova história que Sam preencheu as páginas do seu caderno. Ele está disposto a decifrar cada entrelinha escrita naquele caderno, pois sabe que ali existe um enigma profundamente ligado, não apenas a Aracaju, mas a todo o estado sergipano. Mas ele já percebeu que aquela primeira história mexeu com o modo dele ver as coisas, pois ao sair de casa para a escola, já que a diretora não decretou luto pelo fato de Sam ser um aluno totalmente apagado da história do CEAS, como milhares de milhares que passaram pela escola, tudo o que ele avistava, sentia ou tocava no trajeto até o CEAS, lhe dava a sensação de que não existia. Tim então percebeu que ele também era mais um dos milhares de alunos apagados daquele colégio, cujas pessoas só sabiam da sua existência devido ao fato dele ser problemático. Tim passou parte do trajeto da sua casa até a escola tão distraído, que ao chegar na Avenida Barão de Maruim, o mesmo foi fechado por um carro de luxo, o fazendo girar a bicicleta para o lado oposto, se arremessando no chão. O condutor do veículo automotivo sai do carro para tentar ajudá-lo e o jovem, ao olhar para o homem, fica extremamente assustado com quem era o motorista: ninguém mais, ninguém menos do que Odin Eliakin de Mônaco. — Você está bem, garoto? — O senhor de Mônaco saiu do carro, indo ao encontro de Tim — De onde você surgiu que eu não te vi? — Eu... Eu estava distraído. — Disse Tim assustado — Ei... eu conheço o senhor. O senhor é o senhor Odin, dono da Golden Hammer. O senhor já está aposentado, não é? Ao ouvir aquilo, o senhor Odin parou no tempo e, por longos e preciosos segundos, ficou ali pairando como se não houvesse um novo tempo a viver. — Me aposentar? Onde você ouviu isso? Você é parente de algum concorrente? Ainda faltam sete anos para isso. Sergipe só vai ter concorrência no ramo de ferramentas depois que eu largar o osso. Ainda tenho muito chão pela frente! Quando Tim se levanta e volta a si, ele percebe que a cidade, o tempo depois que ele começou a ler o caderno de Sam e tudo ao redor já não estava mais como antes. Se Odin de Mônaco ainda vai se aposentar, ele ainda não conheceu os irmãos Cássio, Bruno e Anselmo, fazendo do caderno de Sam uma obra escatológica. O senhor Odin abre a carteira, entrega a Tim uma nota de cem reais para compensar o susto e ambos vão embora, cada um para o seu lado. Tim chega extremamente feliz no CEAS e m*l fala com o porteiro, o senhor Edgard, ele dá de cara com o estranho objeto de seus desejos: Natasha. Mas ao vê-la o mesmo tomou um enorme susto, pois a garota tinha pintado os cabelos de vermelho acobreado e estava totalmente ruiva. — p**a que pariu! Até aonde meus olhos não podem avistar, eu vejo aquela ruiva, p*****a dos infernos! Aquela vontade absurda de Tim passar o dia de olhos na Natasha já não dava mais t***o no adolescente, pois existe mais mistério dentro dele pra ele resolver, porque ele sabe que seu amigo, seu melhor amigo em todos esses anos, não está mais por aqui, pra quando ele quiser poder falar dos s***s ou da x**a da Natasha. Diante desta ilusão, no peito de Tim bate uma saudade fria, que dói incessantemente, que se criou no ato da partida eterna de seu amigo Sam. Essa saudade que a diretora da escola não teve a menor consideração em decretar luto, fazendo jovem odiar ainda mais aquelas pessoas, mas infelizmente, até um adolescente problemático como Tim, é incapaz de suportar um sentimento tão sombrio. Hoje, nesse primeiro dia sem Sam Tim sabe bem o quanto algo dura o tempo suficiente para se tornar inesquecível, e por isso a saudade de Sam, mesmo no coração duro e frio dele, começa a se tornar algo presente. Durante a manhã toda no CEAS, muitos foram os alunos e professores aqueles que “aconselharam” Tim, para que de algum modo ele aprendesse de uma única vez, a não despertar nenhum tipo de sofrimento pela perda de Sam e acalmar seu coração. Mas essa falsidade inteira das pessoas só alimentou ainda mais o ódio que ele tinha por toda aquela gente. — Vai tomar no cu, todos vocês! Sam era espancado todos os dias por um bando de vagabundos chefiados por aquele maconheiro do Yan e vocês nunca fizeram nada! Seus hipócritas do c*****o! Esses grandes conselhos de bosta que vocês me dão, nenhum deles sabe a merda do significado de ter um amigo! Vocês todos agora querem parecer fortes e experientes, mas no fundo eu sei que querem que eu domine essa dor! f**a-se! E embora os alunos e professores tenham dito muitas palavras sobre diversas coisas, qualquer um ali era incapaz de falar algo suficientemente bom para fazer o jovem suportar a perda de seu amigo. Com exceção de quem a realmente sente quando alguém se mata inesperadamente, com a extrema certeza de que não conseguiria entender de imediato, Tim ainda buscava respostas sobre a morte de Sam e principalmente sobre as histórias escritas por ele naquele caderno, que parecem ser mais do que simples palavras e sim, elas podem ter se tornado um vislumbre do futuro tenebroso das pessoas daquela cidade. Tim cogita o tempo todo sobre essa ligação da ruiva com Sam, o beijo que ela deu nele e as histórias escritas no caderno dele, antes dele se suicidar, que ele passa a aguçar seus sentidos e fica com a mente permeada de pensamentos investigativos, se perguntando, se isso o que ele está vivendo nesse novo dia após a perda de Sam é uma utopia profunda, uma nova realidade ou um sonho. “E se isso não for um sonho, porque eu fui permitido acordar nesta realidade?”, Tim falava para si. Ele queria muito bem, estar morto e permanecer ali trancado eternamente na sua própria ilusão, mas algo dentro dele dizia-lhe que o mesmo não podia. “Deslumbrar-se de luz em seu coração e apoderar-se de todo amor que ele pode transmitir, a fim de viver intensamente sem Sam? Que merda de pensamento é esse?”, o adolescente falava para si em voz alta pelos corredores do CEAS, enquanto se dirigia até o portão da frente, para ir embora para casa. Enquanto voltava para casa montado na sua bicicleta, Tim sabe, bem lá dentro de si, que ele acordou de um sonho intenso e descobriu que aquele mundo ali onde estava não era a realidade mundana que ele vivia diariamente. Ele pedalava pensando nos momentos de t***o que Natasha poderia lhe proporcionar, em todas as palavras safadas que ele poderia dizer a ela durante uma f**a digna de um filme Buttman, Brazzers ou até mesmo da Brasileirinhas e em cada gota do suor que aquela garota poderia lhe transmitir nos batimentos de seu p*u pulsante e ofegante por somente ver ela chegando na escola. Tim perdia-se somente com um olhar dela e tornava-se indefeso diante do mundo por todas as qualidades que Natasha demonstrava possuir, mas no fim, o indefeso era ele. Foi exatamente neste momento que Tim percebeu que vai carregar pra sempre esta marca que foi cravada na sua essência: a de viver um amor não correspondido. O jovem abaixou a guarda e colocou-se inteiramente desarmado diante de Natasha. O mais abestalhado de seus erros foi o de deixar sua inteligência se tornar artificial por causa daquela garota, a ponto de fazer ele perder-se na originalidade que possuía. Ele então percebeu que não estava no seu mundo real e se deu conta de toda a verdade que o cercava, quando ele, de garoto problema, passou a ser tachado pelos outros como um pobre coitado, onde todos conheciam os movimentos dele, menos ele. Sim! Algo fez com que Tim naquele momento, percebesse que existia algo sobrenatural naquele caderno de Sam. Ele percebeu que como Sam não podia mais viver neste mundo, ele foi para o outro mundo onde ele pode ser alguém melhor que aqui. “Pensando bem, certo ele de ter se matado”, Tim fala sozinho enquanto pedala até a sua casa, “Eu, que estou vivo e me mexendo, ganhei cem reais hoje. Não vou precisar de arrumar dinheiro para a bebida e ainda vou beber o morto”. Tim passa no depósito de bebidas do Estranho, que fica na Rua de Siriri e pede uma garrafa de vodca. Estranho é um hippie que resolveu parar de ser nômade e abriu um depósito de bebidas onde, além das bebidas convencionais que todo depósito vende, o mesmo também vende bebidas alucinógenas que ele mesmo faz nos fundos da sua casa, mas só para quem é maior de idade. Claro que para os garotos-problema como Tim, ele também facilita as vendas, mas sempre na surdina. — E aí Estranho, tem vodca? — o garoto para sua bicicleta bem na porta do depósito — Ou essa birosca agora só vende refrigerante? — Sai fora Tim, seus pais me proibiram de vender bebida pra você. — Estranho fala olhando Tim por cima dos óculos de lentes vermelhas que ele usa — Além do mais você deixou uma conta fiado pendente e sumiu! — Ah, agora vai dar uma de moralista agora, seu veado velho? Vai tomar no cu, Estranho! — Tim fala rindo, fazendo gesto com o dedo médio pro dono do depósito — Se é grana que eu estou devendo, vim liquidar a conta. Tim retira os cem reais de dentro de sua carteira e mostra pro Estranho, que sorri ao ver o dinheiro. — Agora a gente tá se entendendo, moleque! — Estranho fala pegando o dinheiro da mão de Tim e abrindo um caderno de dívidas que os moradores da rua tem com ele — Deixa ver... Você me deve dezesseis reais pelas duas vodcas que comprou da última vez, mais uma coca de dois litros que dá mais sete reais, totalizando vinte e três reais, mais dois reais de juros, vinte e cinco. Ao ouvir o valor que ele tinha de pagar, o garoto esbraveja, espumando pela boca de raiva: — Tá querendo me roubar Estranho? Dois reais a mais por uma dívida? Você é o que, agiota, seu filho-da-p**a? — Tim bate a mão no balcão do depósito e aponta o dedo pro dono — Me cobre o que tem que cobrar e me dá uma vodca. Só isso, p***a! Estranho salda a dívida de Tim, lhe dá a vodca e o troco: — Toma aqui sua vodca e vê se não aparece mais aqui, senão eu desço a madeira em você, seu moleque folgado! — E quem disse que eu preciso desse brega? — Tim pega a vodca e enfia dentro da mochila — Só venho aqui por pena de você, veado velho!
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