O tempo passou. Anselmo estava casado, era colunista social do jornal onde começou a trabalhar, e ganhava suficientemente bem como repórter da TV Atalaia. O bastante para se mudar com a mãe e os irmãos para um apartamento no bairro 13 de Julho, não de frente ao calçadão, mas perto da Igreja Católica do bairro. Bruno também estava casado, começou a trabalhar na GOLDEN HAMMER como operador de máquinas e logo subiu para diretor assistente da área de montagem da fábrica. Cássio estava namorando, noivou, fez curso técnico de enfermagem, e depois um concurso para socorrista do SAMU municipal e assim que passou, começou a estudar mais ainda: agora para prestar vestibular para enfermagem na Universidade Federal. Seu Mônaco estava com quase 80 anos, mas ainda se mantinha lúcido e com o corpo em forma apesar das limitações causadas pela idade. Sua obstinação pelos meninos ficou ainda mais latente, pois suas filhas se casaram. As duas no dia do aniversário de cada, que resultou em duas cerimônias caríssimas, que foram notícia em todos os jornais e revistas da capital, e saíram de casa, deixando-o sozinho, contando apenas com a companhia de alguns poucos empregados, pois uma grande parte já tinha se aposentado. Valquíria se casou com um rico empresário do ramo de carnes e derivados, chamado George Gonçalves de Freitas, e Sophia se casou com o sócio dele e também empresário do ramo de leite e derivados, Afrânio de Souza e Silva.
Um dia, após uma animada noite dançante, quando estava saindo da seresta do baiano, que fica dentro do parque dos cajueiros, estava Seu Mônaco dirigindo seu Honda Civic púrpura-metálico, até sua casa pela Avenida Beira Mar, quando um Fiat Palio de cor preta, com cerca de quatro jovens totalmente embriagados se choca violentamente com ele. O impacto faz com que Seu Mônaco fique preso nas ferragens desmaiado. Pessoas começaram a se juntar ao redor do acidente, grande fora o barulho provocado pela batida. Os bombeiros e o SAMU são acionados e chegam à questão de minutos, pois de madrugada o trânsito é quase zero na cidade, com exceção em dias de festas ou shows. Era mês de junho, e estava acontecendo o forró-caju no mercado Albano Franco. Tudo indicava pelas vestimentas dos quatro jovens, que eles estavam vindos de lá.
Seu Mônaco estava consciente, mas seu estado era grave, pois o mesmo perdia muito sangue. Rapidamente os bombeiros retiraram-no de dentro do carro e os enfermeiros do SAMU o colocaram na maca, prestando os primeiros-socorros. Para admiração do velho sócio da fábrica de ferramentas, quem o estava socorrendo, era ninguém mais, ninguém menos do que o enfermeiro Cássio. Ver o garoto de frente, fazendo de tudo para salvá-lo, fez com que seus olhos se enchessem de lágrimas. E não tendo mais como segurar aquilo o que estava guardado dentro dele, Seu Mônaco disse:
— Eu tenho plano de saúde. Me leve até o São Lucas. E como eu estou sozinho em casa, me acompanhe até o quarto do hospital.
— Mas temos que acompanhá-lo até lá dentro senhor — disse o jovem Cássio – senão fizermos isso, nosso trabalho foi em vão.
Nisso eles chegam até o hospital São Lucas. Cássio adentra, a pedido do próprio acidentado, e pede para que o jovem enfermeiro não saia de perto dele em nenhum momento. No mesmo instante em que eles entram no hospital, as redes de televisão locais, fazem um plantão na porta do São Lucas. Anselmo está lá fora, transmitindo ao vivo, a notícia de que “acontecera um acidente grave, envolvendo o antigo sócio majoritário da fábrica de ferramentas GOLDEN HAMMER em uma forte colisão na Avenida Beira-Mar. O veículo dirigido por Odin Eliakin de Mônaco, sofreu uma forte colisão dada por outro veículo, um fiat Pálio de cor preta placa IAM 4666. Os jovens que estavam dentro do veículo, três homens e uma mulher de cabelos vermelhos, sofreram escoriações leves e evadiram-se do local. Odin Eliakin de Mônaco está neste momento internado em estado grave. Mais informações a qualquer momento na sua TV Atalaia.”
Dentro do quarto do hospital, Cássio ajuda os médicos e enfermeiros a entubarem Seu Mônaco. A pressa nesse momento tinha que ser amiga da perfeição, pois a vida de um senhor de 80 anos dependia da agilidade dos presentes dentro daquele quarto de hospital. Assim que a agitação acabou dentro do quarto, Seu Mônaco despertou e chamou Cássio para que ele ficasse mais perto da cama. O jovem colocou uma cadeira perto e então ele começou a contar a história de como começou a ajudar três meninos desde pequenos. Ele contou sobre o dia em que conheceu os três; contou que fez um levantamento sobre a vida da mãe deles, e de como foi ajudando-os sem que os mesmos se dessem conta de que estavam sendo ajudados e sabia de todos os passos de cada um deles.
Antes que Seu Mônaco terminasse de contar a história, Cássio o interrompe, pega o celular e liga para Anselmo, que estava do lado de fora do hospital, fala o ocorrido e o mesmo rapidamente acorda Bruno, que estava em sua casa dormindo e manda que o mesmo se arrume e venha depressa pro São Lucas. Quando Bruno chega no hospital, ele e Anselmo entram e sobem até o quarto onde Cássio está lá com Seu Mônaco. Ele, ao ver os três dentro do quarto junto com ele, sentiu uma enorme nostalgia e por um momento, viu naqueles três homens feitos e vencidos na vida, os meninos pobres que encontrara à quase trinta anos atrás. Ele então se espanta, quando Anselmo fala que os três sempre acreditaram que alguém era quem os estavam ajudando durante toda a vida, e que um dia eles iriam encontrar essa pessoa ou essas pessoas que os estavam ajudando sem que ninguém soubesse. Mas nunca sonhariam que essa pessoa fosse alguém tão importante para a sociedade sergipana.
Os três, com os olhos encharcados de felicidade, abraçam o Seu Mônaco, como se estivessem abraçando um pai que nunca tiveram. Emocionado, Seu Mônaco, tomado pela emoção fala:
— Espero que me perdoem por nunca ter aparecido na vida de vocês. Mas as pessoas dessa cidade não iriam deixar vocês em paz. E espero que aceitem o que ainda está por vir, pois essa história ainda não terminou meus filh...
Antes que pudesse encerrar suas palavras, Odin Eliakin de Mônaco, em 2013, aos 79 anos, deu seu último suspiro e partiu deste mundo, abraçado com aqueles pelo qual fez sua última aposta e seu último investimento, fazendo com que todos soubessem que Seu Mônaco morreu fazendo jus à sua fama de dar tiros certeiros quando se trata de investir em alguma coisa às cegas. Os três irmãos choraram, pois passaram mais de quinze anos tentando descobrir quem era a bondosa alma que os estavam ajudando tanto a vencer na vida, e quando encontraram, viram que essa alma bondosa estava passando desse plano para outro. Eles ficaram ao lado de Seu Mônaco do hospital, até que o caixão fosse coberto de terra, no cemitério Colina da Saudade. Suas filhas estavam no enterro, mas apenas por puro marketing, pois nenhuma das duas derramou uma lágrima, pelo ocorrido com Seu Mônaco, pois as duas só estavam lá, visando a herança que o pai havia deixado para cada uma delas.
Um mês depois da morte do executivo, Anselmo, Bruno e Cássio já tinham voltado às suas vidas normais, quando no apartamento da mãe dos três toca o telefone. Era Mariana, a secretária do advogado da família de seu Mônaco, Dr. Gabriel. Ela estava fazendo uma convocação para que os três irmãos se apresentassem ao Bradesco do centro da cidade, assim que a carta que chegaria às mãos deles pelo correio fosse lida. m*l terminou de atender ao telefone, Elenilde desce até a caixa de correio do condomínio e vê lá três cartas oficiais do Bradesco. Rapidamente Elenilde, já idosa, mas firme e lúcida, entra em contato com Anselmo, que entra em contato com Bruno e com Cássio e os três marcam para chegarem juntos no banco. Assim que entram com a carta nas mãos, eles são encaminhados até o gerente, que entrega a cada um, um cartão de crédito com uma senha individual para Anselmo e Cássio, e para Bruno, a chave de um cofre. Seu Mônaco havia deixado para Anselmo e Cássio, uma poupança no valor de R$ 65.000, 00 para o mais velho e o mais novo, que ele havia criado sem que a esposa ou as filhas soubessem, logo que estava com as certidões dos três meninos nas mãos.
Para Bruno, que havia sido o único que se interessou em fazer administração e ingressar na fábrica de ferramentas que ele havia ajudado a erguer, ele deixou ações da GOLDEN HAMMER suficientes para torná-lo um dos sócios da fábrica e dar continuidade ao seu trabalho. Suas duas filhas ficaram apenas um terço da herança, com os dois carros importados e a casa, pois o resto fora doado para uma sobrinha-neta bastarda, que morava no bairro Cirurgia, o mesmo bairro que moravam Anselmo, Bruno, Cássio e para as instituições que cuidam de crianças carentes, espalhadas por todo o Estado de Sergipe. A venda da casa e dos carros rendeu um bom dinheiro para as duas filhas, mas elas nunca foram visitar o pai no cemitério depois que ele fora enterrado. Entretanto, como que religiosamente, Anselmo, Bruno e Cássio vão todos os anos, junto com suas famílias, sempre no dia de finados, depositar flores no túmulo daquele que às escondidas fora o único pai que eles tiveram até hoje.