Passados alguns anos, Anselmo estava no ensino médio, já estudando para o vestibular e pensando em arrumar um emprego de meio expediente pra ajudar com as contas dentro de casa e com a faculdade, caso conseguisse passar. Bruno e Cássio estavam terminando o ensino fundamental e queriam seguir os passos de Anselmo. Tudo aquilo era observado por seu Mônaco. Que estava com os nervos á flor da pele dentro de casa, pois Norma fez de tudo para que as filhas arrumassem maridos ricos e elas acabaram se apaixonando por dois playboys iguais a elas, que não queriam nada com a vida. Aquilo para ele era frustrante. "Anos gastos com essas duas merdas, e além de não retribuírem o que gastei, me trazem pra porta de casa esses dois vagabundos! Ainda bem que tenho esses meninos para dedicar o resto do tempo que tenho nesta vida".
Uma vez, passando de carro em frente ao prédio do Jornal da Cidade, viu Anselmo bem arrumado, barba feita e com uma pastinha na mão. Não tinha como não notar que ele estava procurando um trabalho. Passou por ele e ele não o reconheceu. E por ser um homem ainda de influências na cidade, mesmo depois de aposentado, entrou no jornal, chamou o dono e disse:
— Entrou um jovem de camisa de botão branca, calça jeans e sapatos marrons aqui não tem cinco minutos. Contrate-o, é uma recomendação que eu dou. Você só vai ter a ganhar.
Assim que saiu do jornal, ligaram para o celular de Anselmo pedindo que ele voltasse ao jornal. Fez uma entrevista rápida e foi contratado como auxiliar de redator, pois logo o dono o reconheceu como o aluno vencedor do concurso de redações do estado, e com oito meses no serviço, começou a gostar da profissão e fez vestibular para jornalismo e radio-televisão. Anselmo passou em décimo oitavo, na universidade Federal de Sergipe, numa turma de quarenta vagas.
Mônaco acompanhou Anselmo do pré-vestibular até a lista de aprovados no vestibular. Quase chora de alegria em casa, ouvindo o nome dele no rádio. Sua esposa e suas filhas começam a achar que ele está ficando louco, pois está vibrando por alguém que ninguém da casa conhece.
— Quem foi que passou no vestibular da Federal papai? — Perguntou Sophia.
— O filho de uma amiga minha.
— Mas com essa empolgação até parece seu filho — disse a inocente e fútil patricinha.
Aquilo soou como uma bomba para Norma, que já vinha estranhando esse comportamento há alguns anos, e estava esperando uma oportunidade como essa: a de que o marido tivesse uma amante para que ela pedisse o divórcio e ficasse com metade de tudo o que ele possuía. Ela então contratou um detetive para segui-lo e arrumar provas de que ele se encontrava com alguma amante. O detetive passou um ano vigiando-o e nada! Fuçou e-mails e nada! Rastreou as suas ligações do celular e nada! O homem mantinha a sua rotina de sempre. Só que o que ele não contava era que o detetive que seu Mônaco contratara para levantar o dossiê de Elenilde e dos meninos, uma vez viu o companheiro de profissão seguindo-o e deu um jeito de contar para ele. Por isso ele passou um ano sem ter notícias dos meninos. Mas ele estava seguro do futuro de Anselmo como repórter de alguma rede de TV local ou nacional, ou como editor de textos do próprio jornal da cidade. Frustrada com o insucesso do detetive e sem poder ter um motivo para pedir o divórcio, Norma pegou o carro, foi para todos os shoppings de Aracaju, e fez a única coisa que podia fazer pra se vingar: compras, compras e mais compras.
Quando estava voltando para casa com o carro abarrotado de sacolas, já perto de casa, vindo do Shopping Prêmio, que ficava localizado em Nossa Senhora do Socorro, adentrando na Avenida Augusto Maynard, um ônibus da linha Sanatório, chocou-se de forma violenta com o carro dela. O impacto mostrava claramente que ela tinha avançado o sinal, pois a perícia constatou que ela tinha ido à cima do coletivo, quando o mesmo saía da Augusto Maynard e estava adentrando a Rua da Frente. O acidente chamou a atenção de muita gente que passava pelo local, ou estava nos arredores. A imprensa chegou primeiro que o socorro e começou a registrar o acontecido. Norma Eloísa de Mônaco foi internada no Hospital São Lucas e ficou na UTI por cinco dias. Várias mulheres da nata de Aracaju que a conheciam, começaram a fazer correntes de Oração em redes sociais (pessoas hipócritas e idiotas fazem orações na internet, e acham que São e-mail vai salvá-las ou salvar suas almas), em programas de socialites nas TVs locais, e até mesmo compraram espaço em jornais impressos locais. Porém esse esforço tinha sido em vão, e cinco dias após ser internada na UTI do Hospital São Lucas, a esposa do executivo aposentado Odin Eliakin de Mônaco, Norma Eloísa de Mônaco vem a falecer, trazendo um profundo pesar para suas duas filhas, e certo alívio para o seu esposo.
A família da esposa de Seu Mônaco, ainda no velório de Norma, já estava incentivando as duas filhas dele cobrar a parte da mãe delas e dividir a herança. Só que para espanto de todos, foi apresentado pelo advogado da família, o contrato pré-nupcial que fora assinado por ela antes dela casar, mostrando claramente que o regime escolhido foi o de separação total de bens. Isso frustrou não só a família dela, mas também suas duas filhas, pois a única coisa que a mãe tinha colocado dentro de casa foram roupas, bolsas, sapatos e joias. E mesmo assim compradas com o dinheiro do pai. Os irmãos e irmãs de Norma queriam alegar que o contrato era falso e não conseguiram, pois o mesmo tinha registro em cartório e tudo mais. Aí então houve uma calmaria e as filhas de Seu Mônaco começaram a entender que se a mãe não tinha deixado nada para elas, provavelmente elas teriam que bolar algum meio de tirar dinheiro do pai. E resolveram então seguir os passos da mãe, passando a comprar coisas sem motivo.
Uns quatro anos depois, quando a poeira da ambição que pairava a vida do velho Mônaco baixou, ele resolveu procurar mais uma vez os meninos que estava ajudando às escondidas. De Anselmo ele já sabia que havia ido empregado em uma rede televisiva daqui do Estado. De Bruno foi que ele teve mais admiração: o jovem com apenas 18 anos entrou para a Universidade Federal de Sergipe no curso de Administração, e já começava a planejar a carreira do jovem dentro da GOLDEN HAMMER. Já o pequeno Cássio estava terminando o Ensino Médio, e fazia um cursinho técnico de enfermagem durante a noite, pois queria fazer concurso para ser enfermeiro do SAMU, e trabalhar salvando as vidas das pessoas. O pequenino estava obstinado a ser um super-herói de carne e osso.
Aos 73 anos, quando visitava a sua antiga fábrica, lá na Serra do Machado, onde dera seu sangue, suor e lágrimas, Seu Mônaco deu de cara com Bruno. O choque foi desconcertante, pois o garoto percebeu pelo olhar do senhor de mais de setenta anos que este lançara nele um olhar de reconhecimento. Só que o velho senhor era esguio e rapidamente conseguiu disfarçar, adentrando na diretoria da fábrica. Ao chegar ao departamento de RH, pergunta, apontando para Bruno:
— Aquele garoto, veio deixar currículo, procurar estágio ou acabou de ser entrevistado?
— Ele acabou de ser entrevistado — disse a diretora do departamento de RH. Estamos selecionando pessoas novas para trabalhar como auxiliares do administrativo.
— Sei o que vocês querem: querem office-boys com diploma, para trabalharem mais, ganhando pouco. Deixe-me ver o currículo dele. — falou o senhor, com uma seriedade enorme, como se estivesse faminto e esperando algo para comer.
— Aqui está Seu Mônaco — disse a diretora do departamento de RH, com um sorriso no rosto, pois acabara de reconhecer o sorridente senhor que estava à sua frente.
O velho executivo analisa cada detalhe do currículo de Bruno, como quem estivesse procurando algo que as pessoas não conseguissem ver. Então como quem acabara de encontrar o “X” de um mapa do tesouro, ele pede uma caneta e risca um departamento onde o garoto deve ser rapidamente contratado e encaixado, assina e entrega de volta para a diretora do RH da GOLDEN HAMMER. Assim que a mesma recebe o currículo do jovem Bruno de novo, ela liga para a sala da presidência e anuncia que o velho Mônaco, o Midas da fábrica, a lenda viva, tinha aparecido sem marcar horário, sem avisar, e tinha assinado um currículo, como sempre fazia. A notícia rapidamente se espalhou por toda a fábrica de ferramentas e muitos funcionários que haviam sido contratados recentemente e que tinham muito ouvido falar dele, queriam conhecê-lo. E antes que uma confusão se iniciasse dentro do RH, Seu Mônaco apressou o passo e começou a se preparar para sair, pois os funcionários já estavam chegando e se acotovelando, querendo conhecer o antigo sócio da fábrica, que tanto acertava em suas vendas e em seus fechamentos de negócios, no tempo em que começou a trabalhar como sócio majoritário da GOLDEN HAMMER.