O DOADOR DE SONHOS - parte 02

1992 Palavras
Três anos se passaram. Seu Mônaco já estava quase se esquecendo dos meninos, quando um jornal local anunciou o nome de um aluno da rede pública que tinha ganhado um concurso de redação feito pelo Governo Federal, para descobrir futuros leitores e escritores. Assim que viu o menino vencedor, não teve dúvidas: era Anselmo, agora com catorze anos, o vencedor do prêmio de melhor redação e ganhador de um micro computador. Perguntou um repórter, a quem ele atribuía essa vitória, e ele respondeu: "Dedico esse prêmio à minha mãe e a quem assinou umas revistas e livros que por terem errado o endereço eu os recebi durante esses três anos." Empolgado, seu Mônaco olha para a televisão e pensa em voz alta: — É isso aí garoto! Sua esposa passa por perto e pergunta: — Está sem empolgando com um menino pobre que ganhou um computador? Grande coisa... — Ele não ganhou porque alguém deu a ele. Ele fez com que merecer! — disse o senhor de 58 anos, sentado na sala assistindo tv — Ele me lembra de quando eu comecei na empresa: de baixo, conquistando cada lugar com muito suor, até me tornar sócio. Meu pai era rico, mas eu não ligava para o dinheiro dele. Queria era ter o meu! — E falando em dinheiro... — disse Norma — Vou sair com as meninas para o shopping. Sábado é a festa de formatura de Sophia e vamos comprar alguns vestidos. — Alguns? Você tem um armário abarrotado de vestidos de festa e ainda vai comprar mais? Tem roupa ali que você nunca usou! — Mas já estão ultrapassados! — exclamou a mulher — Além do mais, uma mulher rica sempre se sente mais animada quando faz compras. — Se fosse com seu dinheiro, eu nem me incomodaria! — Você é rico, vive numa casa confortável, não gosta de mostrar isso para as pessoas, mas eu sou o contrário! Eu amo mostrar quem eu sou e eu vou às compras sim! Norma saiu então de táxi com as meninas. "Mais uma maneira de gastar meu dinheiro". Pensou seu Mônaco. "Um dia vou dar o troco nessas megeras que nunca me dão retorno de nada! Dei umas revistas pra um garoto e ele ganhou um prêmio de melhor redação. Nenhuma das minhas filhas nunca me deu nada, nem um dez nas provas da escola, e sempre tiveram tudo nas mãos!" Ainda pensando em Anselmo, ele reflete: "Não se pode ter um computador sem internet. Vou providenciar uma internet sem que eles saibam, e manter isso em sigilo." Telefonou então para a companhia telefônica, solicitou a internet no nome dele e a conta seria paga com depósito automático, sem que precisasse chegar conta nenhuma na casa dos meninos. E em poucas semanas lá estavam os técnicos instalando a internet na casa de Anselmo, Bruno e Cássio. Que acharam que o governo tinha presenteado Anselmo também com a internet. Sua mãe com um pouco de esforço, pagou um curso de informática popular para Anselmo, que não demorou muito e aprendeu a mexer no computador e dominá-lo, ensinando também a seus irmãos. Pensando ainda nos meninos, que começaram a dominar a maior parte de seus pensamentos diários, seu Mônaco decide fazer um levantamento da vida deles e da mãe deles. Para isso, contrata um detetive particular para que ele descobrisse do modo mais sigiloso possível, tudo sobre a vida dessa mulher e desses três meninos. A investigação durou seis longos meses, o que estava deixando o pobre senhor de nervos alterados, chegando até a ligar várias vezes para o detetive num mesmo dia. Quando ele nem mais estava ligando para isso e já pensando em dispensar o detetive, chega a sua casa pelo correio, uma caixa com folhas encadernadas da largura de um livro, e com um bilhete grampeado nele: era o dossiê da vida da mulher e das crianças. Ela se chama Elenilde, tem 31 anos, morava no povoado Junco, perto do município de Itabaiana, e casou-se duas vezes. Do primeiro casamento nasceu Anselmo, cujo pai biológico nunca registrara o filho, alegando que ele não era o pai. Por ser ele de uma família de fazendeiros influente no município, conseguiu na justiça, na época em que Anselmo nascera o direito de não fazer o teste de DNA. Por causa disso ela teve de registrar o menino somente com o nome dela. Mas esse primeiro marido morreu em uma viagem pra Brasília: dormiu ao volante depois de altas doses de uísque e capotou o carro. Depois de uns anos, ela foi morar em Canindé do São Francisco, na casa de umas tias solteironas e lá conheceu o segundo marido. Com esse ela teve dois filhos, Bruno e Cássio. Mas por causa do marido ser alcoólatra e nunca parar em emprego nenhum, largou-o e foi tentar a sorte na capital. Os outros dois menores também foram registrados apenas com o nome da mãe. O segundo marido foi preso por roubar bebidas em um armazém e foi morto numa briga dentro do presídio de Nossa Senhora da Glória. Aqui chegando, trabalhou tomando conta de uma senhora idosa durante vários anos, que gostava das crianças e a ajudou com a compra da casa que mora hoje. Essa mesma senhora antes de falecer, a incentivou a fazer um concurso público e hoje, ela trabalha pela parte da manhã como merendeira em uma escola estadual, que fica próximo de casa. A mesma escola em que os filhos estudam pela tarde. Após ler o dossiê de Elenilde e tomado de um desejo de continuar a fazer algo por esses meninos e ao mesmo tempo querendo dar o troco nas ambiciosas que tem dentro de casa, seu Mônaco começou a pensar em um plano. Passou quase o dia inteiro tentando achar uma solução que fosse de acordo com as suas expectativas. Quando anoitecera ele teve a solução: como as crianças não tinham pai, ele iria registrá-las em seu nome sem que Elenilde soubesse, e acrescentar o nome deles no testamento, fazendo com que a parte que iria deixar para as filhas e a esposa ficasse bem menor do que o pretendido. "Preciso falar com o Rocha, urgente!" Pensou seu Mônaco, discando do seu celular para o cartório 30º Ofício, que fica no centro de Aracaju. "O Rocha me deve favores e eu nunca cobrei nada dele. Esse ele vai ter que fazer!" Assim que a ligação foi completada, do outro lado da linha, atendeu um senhor alto e gordo, de bigode enorme estilo morsa, olhos pretos e vivos, parecendo um velho segurança aposentado, e que para segurar suas calças, utilizava-se de suspensórios. — Cartório 30° ofício, Rocha falando, quem fala? — Rocha? É o Mônaco, tudo bem com você? — Um momento — ele se afasta do telefone e fala — Mauro, registre essas cópias de documentos e leve na quinta para a Dra. Giovana. É só entregar. Alô? Oi! Está brincando comigo? O Mônaco não me liga há meses! Deixe de trote rapaz, eu não gosto desse tipo de brincadeira! — Se é trote, eu não saberia que você “trepou” com aquelas garotas de programa universitárias, no ano passado, lá na minha casa de praia. E eu que paguei, pelas três, pois era seu aniversário. Sem contar que você “financiou” a formatura de uma delas. — p**a merda Mônaco. É você? Eu nem reconheci a sua voz! Parece mais novo! Nem parece que tem quase sessenta anos. — Pois é, voltei a fazer caminhadas e a treinar boxe, só que não no ritmo de antes. Lembra-se dos tempos da faculdade? — Pois é, bons tempos aqueles em que atividade física era praticada por prazer. Hoje em dia, pra estimular os alunos a se exercitarem, eles têm que dar notas. É o cúmulo! — Isso eu sei. Minhas filhas só começaram a fazer aeróbica depois que uns exames acusaram alta na glicose, nos triglicérides e no colesterol. E elas nem são gordas! — Mas esses problemas não são problemas de gente obesa Mônaco. Tem muito magricela por aí enfartando de graça. — Isso é verdade. Mas não é pra falar dos velhos tempos que liguei pra você. Preciso te ver aí no cartório essa semana, o mais rápido possível. — Passe aqui amanhã pela manhã então. O cartório abre as oito, mas eu só chegarei às oito e meia. — Ok então. Amanhã eu passo aí, pois preciso conversar com você sobre algo sério. No outro dia, dando a desculpa de que ia ao shopping, seu Mônaco foi até o 30º Ofício e explicou ao seu velho amigo Rocha qual era o seu plano: registrar os meninos em seu nome como pai adotivo deles. — Está louco Mônaco! — Disse o enorme Rocha — Você quer registrar três meninos que nem conhece e nunca teve sequer nenhum contato afetivo com eles? A mãe deles foi alguma amante sua? — Estou louco sim! Sou casado há quase quarenta anos e em todos esses anos, nem minha mulher e nem minhas filhas me deram nenhum orgulho. Todas as duas estudaram em escolas particulares e até a faculdade das duas fui eu que paguei. E ainda tem aquela ambiciosa da Norma, que fez das minhas filhas cópias perfeitas dela. Quero as fazer valorizarem o dinheiro que gastei durante todos esses anos e não tive nenhum retorno. — E porque não se separou logo no começo do casamento? — Praquela megera e a família dela moverem processos e mais processos querendo tomar meu dinheiro? Conviver com aquele estorvo ainda é mais barato do que me divorciar. Invejo às vezes os pobres, que se separam e gastam bem pouco com divórcio. E eu prefiro perder dinheiro com investimento sem retorno do que com divórcio. — E você acha que registrando esses meninos, esse assunto não viria logo à tona? Eles podem muito bem se voltar contra você e começarem a exigir dinheiro e podem sujar sua imagem nos jornais e revistas desse país. — Eu já pensei em tudo. Vou ajudá-los de uma forma que eles não vão nem perceber. Você nem acredita o que aconteceu um tempo desses: eu dei a eles uma assinatura de revistas em quadrinhos e revistas de atividades, e só com aquelas simples leitura, o menino mais velho ganhou um concurso de redação em primeiro lugar. Por isso não vou investir de maneira direta: vou deixar eles pensarem que as coisas estão acontecendo por sorte deles. — Isso você pode fazer sem precisar registrá-los em cartório. Você pode fazer doações anônimas aos meninos. — Faça o que estou te pedindo Rocha. Quando estiver tudo pronto e ajeitado do jeito que quero, eu vou te revelar o porquê de eu estar registrando eles como meus filhos. — Mas e se eles vierem pegar a certidão de nascimento pra alguma admissão de emprego? — É aí onde você entra! Você vai manter os originais deles sem os nomes do pai e vai fazer outras certidões, me colocando como pai deles. Veja aqui que só falta o sobrenome de um pai pra eles ficarem com os nomes mais completos: Anselmo, Bruno e Cássio Santana. Falta um sobrenome, o do pai. E eu quero colocar meu sobrenome e registrá-los como meus filhos! — Por nossa amizade Mônaco é que vou fazer isso, e também pelos favores que eu te devo. Vou registrar, assinar, carimbar e depois você resolve o que fazer com essas certidões. Lavo minhas mãos e nunca mais me peça algo tão difícil de fazer. — Obrigado Rocha. Você não sabe o bem que estará fazendo a mim e a esses meninos! Seu Mônaco pegou os registros e os levou para casa, guardando-os em seu cofre particular. Um cofre que nem a esposa e nem as filhas dele sabiam que existia dentro de casa, e que ele descobrira por acaso, quando comprou a casa. Por isso que ele nunca se mudara dali do São José para bairro nenhum.
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