O DOADOR DE SONHOS

1769 Palavras
Depois de mais de trinta e cinco anos de trabalho e dedicação exclusiva à sua empresa, que se localizava na Serra do Machado, um povoado do município de Ribeirópolis em Sergipe, faltavam poucas semanas para o mais extrovertido sócio dela se aposentar. E além de se aposentar iria entrar para a história do empresariado nacional, pois ia ser um dos mais jovens executivos aposentados do Brasil. E com menos de sessenta anos de idade, o senhor Odin Eliakin de Mônaco, ou simplesmente "seu Mônaco" como era chamado, era um dos sócios-majoritários das empresas GOLDEN HAMMER, que era uma fábrica especializada em produzir ferramentas para carpinteiros, pedreiros, encanadores, eletricistas e todos os tipos de trabalhadores que manuseavam ferramentas para exercer seu ofício. Diz uma lenda urbana, que um médico de férias em Sergipe retirou parafusos de titânio de um homem acidentado para fazer curativos em seu braço usando um alicate da GOLDEN HAMMER, pelo fato de que o atendimento deveria ser emergencial. O mito se espalhou e as empresas cresceram no mercado de vendas de ferramentas de um modo incrível nos últimos anos, produzindo até mesmo instrumentos para a área médica. Muitos dos funcionários apostavam que o "seu Mônaco" voltaria para a empresa em menos de três meses de aposentado. Mas ele por si já estava decidido e iria parar de trabalhar mesmo com 55 anos, pois queria “curtir a vida, adoidado”. Seu Mônaco era um senhor muito animado, carismático, perseverante e rígido nas horas certas. Ele sabia dosar muito bem o seu posto na empresa. Nunca demitia um empregado se este não cometesse o mesmo erro mais de duas vezes. Ele era diferente dos outros sócios, que só se preocupavam com o capital e o lucro constante. Para ele, tudo surgiria no tempo certo. Isso lhe garantia certo prestígio entre os funcionários de todos os níveis da fábrica, sem contar em todas as vezes que ele apostava em uma venda: todos sabiam que dos sócios da empresa, o Midas era ele, pois tudo o que ele negociava, seja em compra ou venda, dava lucro. E ele atribuía essa sorte à sua descendência, pois a família de sua mãe era descendente do apostador mais sortudo do velho oeste americano, o caubói fora-da-lei Sólomon Eliakin Thompson, mais conhecido como Sólomon “Knight Rider” Thompson. Sólomon virava as noites nos casinos americanos e saía deles muitas vezes trocando tiros, pois conseguia deixar os demais caubóis sem nenhum tostão, e sempre era acusado de trapaceiro. Isso o deixava extremamente puto de raiva, e por causa disso, a bala comia pra todo lado. A alegria de seu Mônaco diminuía quando o mesmo chegava a sua casa e encontrava com sua esposa e suas duas filhas. Sua esposa se chamava Norma e suas filhas Valquíria e Sophia. Norma é uma mulher bastante consumista e superficial: um comportamento típico das mulheres de classes menos abastadas que se casam com homens ricos. Norma nunca conseguiu nada que não fosse tirado de alguém que tivesse uma condição a mais do que a dela. E para aumentar ainda mais a sua frustração avarenta, antes de se casar, assinou um acordo pré-nupcial, e ela só tinha direito dentro da casa, o que ela colocasse com seu dinheiro. O que tinha sido colocado pelo marido, antes de se casar, pertencia ao mesmo. E o que Seu Mônaco havia colocado dentro de casa, fora a casa, correspondia a cerca de mais de 90% de tudo. Por isso, todos os dias, aparecia uma novidade dentro da casa, que fora por ela comprada nas lojas de grife da cidade. O guarda-roupa do casal era abarrotado de roupas, sapatos, perfumes, joias e bolsas que muitas vezes ela nem usava. Até mesmo um caríssimo quadro deles dois junto com as filhas ainda pequenas, pintado pelo pintor mais famoso do estado, o Chico Marques, que não pintava quadro nenhum por encomenda, ela conseguiu fazê-lo pagar. Mas o seu vício de comprar, que surgiu depois de casar era terrível, mas tão terrível, que passou a incentivar as filhas a seguir seu exemplo, pois a mesma dizia para as meninas que “se quisessem casar com um homem rico igual ao pai, teriam de estar sempre bem arrumadas, com o corpo perfeito e maquiadas”. Aquilo para seu Mônaco era um martírio, pois ao invés de pensarem em coisas menos materiais, só se preocupavam com dinheiro e já estavam comentando sobre herança e quem ficava com que imóvel. "Vou dar o troco nessas ambiciosas" era o que muitas vezes pensava em voz alta, o rico senhor de alma franciscana. Um mês depois de aposentado, estava seu Mônaco revirando o quarto dos fundos, onde ele guardava seus pertences mais antigos, quando encontrou uma caixa contendo sua antiga coleção de revistas em quadrinhos da adolescência. Eram revistas de super-heróis variados. Tinha revistas do Hulk, Thor, X-men, Turma da Mônica e muitas outras. Achou também alguns livros infantis que lia para suas filhas quando elas tinham apenas 5 e 6 anos (hoje estão com 29 e 30 anos). Colocou tudo na mesma caixa e resolveu entregar tudo a uma sobrinha-neta bastarda, filha da aventura de um sobrinho muito querido com uma atendente de lanchonete. Esse sobrinho havia falecido num acidente de carro, e só depois foi que souberam dela, e descobriram que ela morava no outro lado da cidade. Apesar do padrão de vida que possuía, e de ter trabalhado por vários anos numa empresa que ficava no interior do Estado, seu Mônaco morava num bairro de classe média alta de Aracaju: o bairro São José. E ainda morava de frente à Praça Tobias Barreto, frequentando a feira que acontecia todos os domingos. Isso lhe dava algumas vantagens, pois podia gastar pouco com o que quisesse e ainda manter um padrão de vida de muito conforto. Porém sua simplicidade irritava a sua esposa, pois ela passou a vida inteira reclamando que eles deveriam se mudar para um bairro de classe alta, como na Atalaia ou na Aruana, pois o dinheiro que ele ganhava na empresa e agora na aposentadoria dava muito bem pra comprar um apartamento em qualquer bairro nobre da cidade. Quem conhecesse os dois, pensaria logo: “pessoas educadas, um nível social alto, porém tão distintas! Quanta diferença de caráter existe entre as pessoas de uma mesma classe social”. Passando de carro por um bairro perto do seu, o bairro Cirurgia, onde a sua sobrinha-neta mora, ele vê dois meninos pobres revirando um cesto de lixo e retirando umas revistas em quadrinhos rasgadas. Os meninos estavam tentando juntar as partes e ler as histórias. Mas antes que pudesse ler, apareceu um terceiro menino, maior do que os outros dois que chamou os menores, dizendo que o almoço estava pronto. Foi aí que o seu Mônaco seguiu os meninos com os olhos para ver mais ou menos onde eles moravam. Ele então pegou a caixa de revistas e livros e deixou na porta da casa dos meninos. Bateu e saiu apressado. Assim que eles saíram para ver quem é, tomaram um susto: uma caixa cheia de livros e revistas estavam ali, na porta deles. Rapidamente eles entraram com a caixa e já começaram a folhear os livros e revistas. Seu Mônaco foi embora se sentindo um dos homens mais felizes do mundo com aquilo. Foi aí que refletindo sobre a atitude que ele teve, surgiu uma ideia: iria ajudar aqueles meninos a batalharem e a serem alguém na vida. Coisa que nem as filhas dele sonham em fazer. Passados uns dois meses, ele resolve voltar para o bairro onde encontrou os meninos, para ver se as revistas estavam sendo bem aproveitadas. Assim que foi se aproximando, viu os mesmos dois meninos mais novos, que vira revirando o lixo, brincando na rua. Eles estavam brincando de super-heróis. Um dizia que era o Hulk, e o outro era o Wolverine. Depois mudaram de super heróis, dizendo que um era o Ciclope e o outro o Capitão América. O mais velho estava sentado na porta da casa, lendo uma revista dos X-men enquanto vigiava os mais novos. Não aguentando mais de curiosidade, seu Mônaco se aproximou dos meninos e perguntou: — Vocês não deveriam estar na escola meninos? Eles pararam, olharam para aquele senhor vestido apenas com boné, bermuda, tênis e camiseta e disseram: — A gente estuda de tarde moço. É que a mãe trabalha o dia todo, aí o nosso irmão o Anselmo, aquele ali ó, toma conta da gente e vamos todo mundo pra escola de tarde. — Entendi. E qual o nome de vocês dois? — Me chamo Bruno e esse aqui é o Cássio. Não parece, mas somos irmãos. Nossa mãe teve dois maridos. O primeiro é o pai do Anselmo, e o segundo é o pai da gente. Mas nenhum dos dois deu certo e ela agora mora sozinha com a gente. Nossos pais nem nos visitam mais. — Entendi. E qual a idade de vocês? — Eu tenho seis e o Cássio tem cinco — falou o Bruno — E o Anselmo ali tem onze. — Legal e estão em que série da escola? — Eu estou no terceiro ano, o Bruno no quarto ano e o Anselmo no sexto ano — Disse o pequeno Cássio. — E gostam de ler? — Sim! Outro dia, a gente achou uma caixa de revistas e livros na porta de casa. O Anselmo já leu tudo junto com a gente umas duas vezes — Disse Bruno. — Poxa... Muito legal — falou seu Mônaco — pena que não posso ficar mais tempo conversando com vocês. Preciso comprar umas coisas no supermercado. — Desculpou-se. — Apareça de novo tio — disse o pequeno Cássio. — Não sei se vou aparecer outro dia por aqui, pois sou ocupado demais com as tarefas de casa. Mas se der eu apareço. Até mais. — Despediu-se e foi embora. Mas decorou o nome da rua que os meninos moravam e o número da casa deles. Passaram-se mais dois meses e seu Mônaco fez uma assinatura de revistas em quadrinhos e de revistas de atividades variadas no nome dos meninos. Como achou barato, pagou à vista pelas assinaturas por três anos. Quando os meninos começaram a receber as revistas, ficaram loucos! O brilho nos olhos deles era demais! A mãe não acreditava no que estava vendo: "quem mandaria tantas revistas assim, e no nome dos meninos? Quem seria essa alma caridosa?" Pensava ela todos os meses que chegavam as revistas. E como toda mãe sábia que era, incentivava os meninos a lerem sempre que terminavam os deveres da escola.
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