UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL - final

1818 Palavras
Tim se despediu de Góes, sentindo o peso reconfortante da sacola de livros que acabara de adquirir pendurada no guidão de sua bicicleta. Com um aceno rápido, ele montou em sua velha bicicleta e começou a pedalar de volta para casa, os pensamentos ainda mergulhados nas páginas dos livros que acabara de receber. O sol já estava se pondo, pintando o céu de tons alaranjados e dourados, enquanto Tim seguia seu caminho pelas ruas movimentadas da cidade. Ele estava tão absorto em seus pensamentos que m*l notou quando as luzes começaram a falhar, anunciando o início de um apagão iminente. À medida que ele se aproximava da Avenida Coelho e Campos, uma das vias mais movimentadas da cidade, a escuridão começou a engolir tudo ao seu redor. De repente, o mundo ao seu redor estava mergulhado em uma escuridão opressiva, e os faróis dos carros se tornaram as únicas fontes de luz intermitente. Concentrado em encontrar um caminho seguro através da escuridão, Tim m*l teve tempo de reagir quando um carro surgiu do nada, cortando seu caminho de forma abrupta. Os pneus da bicicleta chiaram em protesto enquanto Tim se viu forçado a realizar uma manobra rápida para evitar uma colisão iminente. No momento exato em que Tim desviava da trajetória do veículo, um estrondo ecoou pela rua, anunciando o apagão completo. A avenida agora estava mergulhada em trevas absolutas, sem nenhuma luz para guiar o jovem ciclista em seu percurso. Desorientado pelo repentino caos ao seu redor, Tim m*l teve tempo de se recuperar do desvio quando sentiu a bicicleta ser arrastada para o lado, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse de forma desajeitada no asfalto áspero. O impacto foi brutal, fazendo Tim sentir a dor lancinante reverberar por todo o corpo enquanto seu corpo se chocava contra o chão duro. Ele se agarrou desesperadamente à bicicleta, tentando manter-se firme enquanto lutava para se levantar e avaliar os danos. A rua ao seu redor estava mergulhada em silêncio, exceto pelo som distante de vozes preocupadas e o ocasional ruído de metal retorcido. Finalmente de pé, Tim sentiu a adrenalina pulsar em suas veias enquanto tentava se recuperar do choque do acidente. Com cuidado, ele avaliou os estragos em sua bicicleta, agradecendo silenciosamente por escapar ileso de um encontro potencialmente catastrófico. Com a respiração ainda ofegante, ele pegou a sacola de livros que havia caído no chão durante o incidente e, com determinação renovada, continuou seu trajeto de volta para casa, agora mais consciente dos perigos que o aguardavam nas ruas escuras da cidade. De dentro do carro que quase o atropela sai uma jovem desesperada, pelo fato de ter atropelado um garoto. — Ai, meu Deus! — A jovem se joga pra ajudar Tim a se levantar — Você está bem, garoto? Tim, ainda atordoado pela cena inesperada, encontra-se momentaneamente desnorteado, como se tivesse sido atingido por um redemoinho de acontecimentos inesperados. Com um misto de incredulidade e alívio, ele se acomoda no meio-fio, sentindo o asfalto frio contra as palmas das mãos, enquanto tenta processar o que acabara de ocorrer. A mulher à qual Tim dirige seu olhar perplexo é uma jovem, com traços de juventude estampados em sua face. Seus olhos, ainda dilatados pela adrenalina do momento, refletem a surpresa de ter quase atingido alguém. A luz do farol do carro reflete em sua pele, evidenciando a tez imaculadamente clara, típica das jovens criadas entre os confortos da zona sul. O vento brinca com os cabelos dela, que caem graciosamente sobre os ombros, conferindo-lhe uma aura quase angelical. Tim, ao observar mais atentamente a jovem, percebe nuances que corroboram suas suposições. Seu modo de vestir, impecável e elegante, denota um estilo de vida privilegiado. As marcas de um carro luxuoso estacionado próximo ao local do incidente corroboram a hipótese de que ela pertence a uma classe social abastada. O semblante dela, agora mais calmo após o susto, carrega uma mistura de confusão e preocupação, como se estivesse ciente das consequências de suas ações. A análise rápida de Tim o leva a concluir que aquela jovem é uma típica representante da elite da cidade. Ele não pode deixar de sentir uma pontada de indignação diante da imprudência e da irresponsabilidade demonstradas por alguém que parece ter tudo na vida. No entanto, essa indignação é acompanhada por uma ponta de compaixão, ao perceber que, apesar dos privilégios materiais, a jovem parece carregar consigo suas próprias angústias e dilemas, como qualquer outro ser humano. Enquanto se esforça para se levantar do chão, Tim não pode deixar de questionar os valores e as prioridades da sociedade em que vivem, onde a riqueza e o status muitas vezes parecem sobrepor-se à consideração pelo próximo. Ele, vendo ali uma oportunidade de ganhar uma grana, começa a fingir que está bastante ferido: — Ai, ui... Você está cega, p***a? — Tim berra alto para ver se consegue chamar a atenção das pessoas, mas esquece que a Coelho e Campos é totalmente comercial e quase não existem mais moradores por lá depois das dezoito horas — Não me viu, não, sua merda? O jeito como Tim se expressou, deixou a jovem ainda mais nervosa, a ponto dela ficar trêmula. — Desculpa, garoto... — A jovem vai até o carro, pega sua bolsa, retira um cartão e entrega nas mãos de Tim — Vai pra casa e me liga amanhã, que eu não tenho nada de valor que eu possa dar pra você fazer uns curativos ou beber alguma coisa pra se acalmar. Tim, furioso por não poder extorquir a garota, puxa o cartão da mão dela com força. Era um desses cartões feitos em casa, com a finalidade apenas de apresentar a pessoa, pois só tinha nome e número. Ele olha para o cartão, mas a raiva logo se converte em espanto ao ver o nome dela: Luz Abnara Kouji. Ele olha para a jovem que aparentava ter uns dezenove anos, vê os traços orientais dela e ao invés dela começar a se tremer, era ele quem se tremia agora, pela grande quantidade de coincidências que estavam se sucedendo, desde que começara a ler o caderno de Sam. Era como ele tinha dito a Góes: os personagens estavam ficando reais demais, até mesmo para ele. — Luz? Seu nome é Luz? É você mesma? — Sim, sou eu e... Ah, você deve ter ouvido falar da minha história não é? A de que eu nasci sorrindo ao invés de chorar? — S... Sim... — Tim balbuciou uma resposta qualquer — Eu li num cad... Num... Num jornal antigo que encontrei em casa. Achei interessante. — Bom, o jeito como eu nasci é realmente interessante... — Disse a jovem um pouco mais calma — Afinal não é todo bebê que não ganha as palmadinhas quando nasce, porque deu um sorriso quando veio ao mundo. Tim estava completamente atordoado, seus pensamentos giravam em um turbilhão de incredulidade e surpresa. A cena diante dele parecia surreal: ali, bem diante de seus olhos, estava a pessoa que, de acordo com as anotações meticulosas no caderno de seu amigo Sam, estava destinada a se tornar a futura namorada do maior inimigo de seu amigo. A descoberta era como um soco no estômago para Tim. Ele piscou várias vezes, tentando processar o que via. Como poderia ser possível que essa coincidência bizarra estivesse acontecendo bem na sua frente? Ele nunca teria imaginado que um encontro casual pudesse revelar algo tão monumental. As palavras no caderno de Sam ecoavam em sua mente, cada frase agora ganhando uma nova profundidade de significado. Ele se lembrou das vezes em que Sam havia mencionado suas teorias sobre o destino e como o universo muitas vezes parecia brincar conosco, tecendo os fios invisíveis do tempo e do espaço para unir pessoas de maneiras imprevisíveis. Tim se viu imerso em um turbilhão de questões. Seria essa coincidência um sinal do destino, como Sam sempre acreditou? Ou era apenas uma estranha reviravolta do acaso, um capricho do universo para confundir ainda mais as coisas? Enquanto observava a figura da pessoa à sua frente, Tim sentiu um nó se formar em sua garganta. Ele sabia que precisava tomar uma decisão: confrontar a estranha com o conhecimento que tinha, ou manter tudo em segredo e deixar que o curso do destino se desenrolasse conforme previsto nas páginas do caderno de Sam. Cada opção parecia carregar suas próprias consequências, e Tim se sentiu paralisado pela magnitude da escolha que estava prestes a fazer. Mas uma coisa era certa: sua vida estava prestes a mudar de uma forma ou de outra, e ele teria que encontrar forças dentro de si mesmo para lidar com as repercussões dessa descoberta inesperada. — Bom, se não tiver mais nada pra falar, vou embora. — Disse Luz indo até o carro — Se meus pais souberem que atropelei um garoto, eu tô ferrada! Tim estava tão cético de ver que aquilo estava acontecendo com ele, que de sua boca só conseguiu pronunciar uma frase: — Você... Você tem namorado? — Claro que não, garoto! — Luz falou rindo, como se fosse a dona do mundo — Estou muito focada em meu trabalho como herdeira. Acha que usufruir do patrimônio dos pais é fácil? Tim estava ansioso para voltar para casa após receber a sacola de livros de seu amigo Góes. Assim que Luz finalmente entrou em seu carro do ano e se afastou, ele aproveitou o momento para sair. Montou em sua bicicleta com cuidado, garantindo que a sacola de livros estivesse bem acomodada. O peso extra não era um problema para ele; afinal, estava acostumado a carregar livros para cima e para baixo. E enquanto pedalava pelas ruas, Tim percebeu que as luzes da movimentada Avenida Coelho e Campos foram ligadas novamente, tornando seu percurso mais iluminado e seguro. A sorte estava ao seu lado naquela noite. Ele aproveitou a tranquilidade da cidade para refletir sobre os novos livros que tinha em mãos, ansioso para mergulhar em suas páginas assim que chegasse em casa. Ao chegar em sua residência, Tim executou sua rotina habitual de entrar sem fazer barulho. Seus pais, que normalmente dormiam profundamente graças aos remédios, continuavam alheios às suas atividades noturnas. Fechando suavemente a porta da frente, ele se dirigiu diretamente ao seu quarto, ansioso para começar a explorar os tesouros literários que Góes havia compartilhado. No entanto, uma tentação ainda maior o aguardava: o caderno misterioso de Sam. Tim lutou contra o impulso de abrir aquele diário intrigante naquela mesma noite, decidindo adiar essa aventura para o dia seguinte. Afinal, queria aproveitar plenamente a experiência de cada palavra escrita, sem interrupções. Assim, guardou os livros gentilmente oferecidos por Góes em sua estante, ansioso para se aprofundar neles no dia seguinte, quando sua mente estivesse fresca e alerta. Ele então resolve ler mais um capítulo do caderno de Sam e inicia em voz alta a sua leitura...
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