UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

1859 Palavras
Tim, com o caderno de Sam entre as mãos, mergulhava cada vez mais fundo nos enigmas que permeavam a história de Aracaju. Cada página virada parecia desvendar um novo mistério, mas também trazia consigo um turbilhão de interrogações ainda mais complexas. A figura do d***o pairava sobre seus pensamentos como uma sombra sinistra, provocando-lhe uma sensação de inquietação que se misturava com a curiosidade. A ideia de invocação demoníaca ecoava em sua mente, lançando-o em um labirinto de conjecturas. “Quem teria ousado chamar tal entidade para aquela cidade pacata? E, mais intrigante ainda, por que a presença de Yan parecia tão entrelaçada com os eventos sobrenaturais que assolavam Aracaju?”. Era como se o jovem carregasse consigo um fardo invisível, uma herança macabra que o vinculava a algo além da compreensão humana. Tim sentia-se compelido a conectar os pontos dispersos dessa trama sombria. Cada personagem, cada relato, parecia ser um elo em uma corrente cujo propósito final permanecia obscuro. E no centro desse enigma complexo estava Annabel, uma figura enigmática que parecia tecer os fios invisíveis que ligavam todas essas vidas emaranhadas. A urgência de buscar respostas crescia dentro de Tim, alimentada pela incerteza e pelo desconhecido. Sabia que precisava recorrer novamente à sabedoria enigmática de Góes, aquele homem cuja loucura talvez escondesse uma verdade inesperada. Contudo, o adiantado da hora lhe pesava nos ombros, e a ideia de perturbar o idoso em seu repouso noturno o retinha. Assim, entre o desejo ardente por respostas e o respeito pelo sono alheio, Tim encontrava-se em um impasse, ciente de que o amanhã traria consigo novas oportunidades, mas também a angústia de enfrentar um mistério que parecia crescer a cada instante. — Ah, f**a-se! Eu preciso ir na casa dele! Na calada da noite, quando a tranquilidade da vizinhança era interrompida apenas pelo sussurrar das folhas ao vento, o jovem decidido tomou suas precauções meticulosas. Com cuidado para não perturbar o silêncio que envolvia a residência, deslizou pelas sombras, passo a passo, até estar livre das paredes familiares. A bicicleta, testemunha silenciosa de inúmeras aventuras, aguardava paciente, como um fiel companheiro pronto para mais uma jornada. As engrenagens rangiam levemente em protesto contra os anos de uso, mas seu propósito estava claro: levar seu dono à casa de Góes. O trajeto, conhecido de cor e salteado, desdobrava-se diante dele como um caminho familiar e reconfortante. A lua, discreta em sua luminosidade, iluminava-lhe o caminho com um brilho suave, suficiente para guiar seus passos sem revelar sua presença à cidade adormecida. Cada pedalada era um impulso rumo ao encontro esperado, uma mescla de expectativa e nervosismo que o impulsionava adiante. Ao alcançar o destino, a cena que se desenrolava diante de seus olhos era quase surreal. Contrariando as expectativas, a casa de Góes não jazia em quietude noturna. Uma luz amena escapava das frestas das janelas, pintando o gramado com sombras dançantes. O portão, habitualmente imponente em sua solidez, estava fechado, mas não barrava os sons que ecoavam de dentro. Com cautela, o jovem abandonou sua bicicleta ao pé da cerca e avançou sorrateiramente em direção à moradia do amigo. A curiosidade se misturava à surpresa ao notar que Góes, conhecido por seu hábito de recolher-se cedo, estava acordado e imerso em uma atividade incomum para aquela hora tardia. Através das cortinas entreabertas, vislumbrava-se a figura familiar do amigo, concentrado em suas leituras, como se o tempo não tivesse poder sobre sua sede insaciável por conhecimento. Aquela imagem, iluminada pela fraca luz de uma lâmpada, ecoava a essência de Góes: um espírito inquieto, sempre em busca de novas aprendizagens, mesmo sob o véu da noite. O jovem, observando-o por um momento, sentiu-se invadido por uma sensação de admiração e conexão, como se naquele instante, através do silêncio da noite, compartilhassem não apenas o espaço físico, mas também uma parte do próprio ser. Tim para a bicicleta na porta dele, quase matando o coroa do coração: — Tá maluco, garoto! — Disse Góes quase jogando o livro pra cima — Vai assustar outro assim, lá na p**a que o pariu! — Desculpa Góes... — Tim fala um pouco afoito — É que eu preciso conversar mais com você sobre o caderno de Sam. — Aquele caderno cheio de histórias? — Góes pergunta um pouco cético — O que tem ele? Tim, com um brilho nos olhos, começou a desenrolar diante de Góes um intricado novelo de conexões entre as histórias que ele havia descoberto. Cada trama entrelaçava-se de forma surpreendente com acontecimentos do mundo real, revelando um universo onde a ficção e a realidade se fundiam em uma dança misteriosa. Ele mergulhou na narrativa de Chico Marques, cujo nome ecoava mistério e aventura, descrevendo em detalhes a exposição que tanto intrigara Sam. Cada obra de arte parecia ser um portal para um mundo distinto, um convite para explorar dimensões além das páginas. Tim não se contentava apenas em citar eventos; ele pintava um quadro vívido de cada personagem, cada cena, dando vida às palavras de Sam de uma forma que transcendia o papel. As ruivas, mencionadas de passagem por Sam, agora ganhavam contornos de enigma, cada uma representando um mistério a ser desvendado, uma peça crucial em um quebra-cabeça maior. Mas não parava por aí. Tim desvendava os laços que uniam Annabel ao mundo de Sam, revelando uma teia de relações que envolvia não apenas os personagens fictícios, mas também aqueles do mundo real. Cada menção, cada nome evocava uma história não contada, uma trama secundária prestes a ser revelada. Enquanto Tim falava, a sala parecia se transformar em um palco onde os personagens ganhavam vida, onde as histórias se desdobravam em cores vibrantes e nuances profundas. Era como se Sam estivesse presenciando não apenas uma conversa, mas sim uma jornada através de mundos paralelos, onde cada palavra era um convite para explorar os segredos enterrados nas entrelinhas das páginas. Mas ao escutar aquilo, Góes foi categórico: — Você tem alguma religião? — Sou ateu, porque? — Se você é ateu, como tem tanta certeza de que essa garota de quem você fala é o d***o em pessoa? — Porque está tudo conectado! — Tim olha pro homem de mais de quarenta anos com os olhos arregalados e com o caderno de Sam na mão — Olha aqui, ó... Ele menciona pelo menos uma figura pública conhecida! Já bateu com o que eu investiguei sobre o Odin de Mônaco, sobre o pior inimigo dele na escola, o Yan, e agora o Chico Marques! Tem alguma coisa sobrenatural nesse caderno! Góes fica escutando calmamente o que Tim fala, mas retorna a pergunta: — Você não escutou o que eu perguntei? Eu perguntei como você tem certeza de que essa garota é o d***o em pessoa, se você é ateu? — E precisa ter religião para saber que o d***o está nessa cidade? Góes, já um pouco irritado com a ignorância de Tim, fala a plenos pulmões: — MAS É ÓBVIO, GAROTO! Para conhecer entidades espirituais, sejam elas encarnadas em nosso plano ou não, precisa-se de conhecimento espiritual, pois lidar com o espiritual sem que antes seja espiritualizado é como prometer dar aquilo que não possui. Isso porque de boas intenções o inferno estaria cheio, caso existisse um para você! Tim sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao perceber a impaciência vibrante na voz de Góes. As palavras pareciam martelar em sua mente, ecoando com uma intensidade que o deixou momentaneamente desconcertado. Ele se viu paralisado, absorvendo cada sílaba com uma mistura de temor e perplexidade. O olhar de Góes, carregado de urgência e convicção, parecia atravessar sua alma, desafiando-o a compreender um universo além do tangível. Cada gesto, cada inflexão na voz, alimentava a aura de mistério que envolvia a conversa. Tim, ainda atônito com a fervorosa expressão de seu interlocutor, tentava processar a ideia de acreditar em algo tão transcendental quanto anjos e demônios. Parecia uma jornada para além dos limites da razão, um mergulho no desconhecido que o deixava tanto intrigado quanto apreensivo. A perplexidade de Tim se misturava com uma súbita compreensão. Ele começava a perceber que, para Góes, essas entidades não eram simples figuras de um folclore antiquado, mas sim elementos vivos e pulsantes de sua própria realidade. Era como se cada palavra proferida por Góes carregasse consigo séculos de mitologia e crença, moldadas pela experiência e pela fé. Nesse momento de epifania, Tim compreendeu que a fé de Góes não era apenas uma questão de aceitação cega, mas sim o resultado de uma jornada íntima e pessoal em busca de significado. Era como se ele estivesse testemunhando não apenas uma conversa casual, mas sim um encontro entre dois mundos: o palpável e o espiritual. Enquanto a conversa avançava, Tim sentiu-se compelido a explorar mais profundamente essa dimensão desconhecida, questionando suas próprias convicções e abrindo-se para a possibilidade de algo além do que seus sentidos podiam captar. A impaciência inicial de Góes deu lugar a uma sensação de urgência compartilhada, uma ânsia mútua por desvendar os mistérios que permeavam o universo. — Eu ainda não entendi o que você quer dizer. Eu não posso acreditar que o d***o está presente aqui em Aracaju, só porque não tenho uma religião? — Ainda bem que você entendeu! — Góes sorri para o jovem — Pois eu não ia saber ajudar quem está se afogando sem que antes eu ensine a nadar. — Você pode me ajudar? É isso? Góes se levanta da cadeira em que está sentado, entra em sua casa e deixa Tim do lado de fora, esperando. Ele volta com alguns livros dentro de uma sacola, abre o portão de sua casa e os entrega para Tim. — Já que você diz que não tem uma religião mas afirma de pé junto que acredita no d***o, o que eu posso recomendar só é estudar, adquirir o devido conhecimento, praticar a reflexão e a meditação, para poder compreender uma obra sobrenatural. Contudo tenha consciência de que a mente racional adora teorias e se perde nelas! Por isto você precisa praticar noventa porcento e teorizar somente dez porcento. Estude, entenda, compreenda, mas pratique os noventa porcento. Falácias e palavrórios, só dez porcento. Entendeu? — Sim, entendi... — Tim fala recebendo a sacola de livros das mãos de Góes — E com certeza vou estudar muito! — Já que você diz tanto não ter uma religião, encare isso como uma etapa espiritualista na sua vida. — Góes sorri para Tim — O progresso espiritual que você vai ter é diretamente proporcional ao conhecimento que adquirir com esses livros! — Tem certeza de que esses livros me ajudarão? — Tim pergunta vendo as capas e os títulos, rindo feito louco — Não vai dar uma de evangélico e querer me evangelizar não, né? — Você conhece o bem, a humildade, a fidelidade, os valores espirituais? Se sim, ótimo. Entretanto, a questão maior é: será que esses tesouros conhecem você, não de ouvir falar, mas de andar lado a lado? — p***a Góes! — Tim esbraveja — Eu não conheço nada disso não! — Então você vai adorar ler esses livros. — Góes sorri — Vá pra casa e comece já a ler.
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