QUATRO

740 Palavras
O Acidente Naquela manhã fatídica, Chiquinho saiu para o trabalho com a pressa de sempre. Ele era apaixonado por motos e costumava dizer que nada o fazia sentir mais vivo do que a velocidade. Isso preocupava Samira, que muitas vezes o alertava sobre o perigo. — Chiquinho, você vive correndo com essa moto envenenada. Um dia ainda vai se machucar! — ela o advertiu na última conversa que tiveram. Ele apenas riu. — Relaxa, Sâmi. Eu sou bom no que faço, sei cuidar de mim. Mas Samira não conseguia tirar a preocupação da cabeça. Mais tarde, naquele mesmo dia, enquanto retornava para casa, Chiquinho perdeu o controle ao bater em um Fusca que fazia uma curva apertada. O impacto foi forte. A moto foi arremessada a alguns metros, e Chiquinho caiu no chão, aparentemente sem grandes ferimentos. Os vizinhos correram para ajudar. Ele se levantou, atordoado, e tirou o capacete enquanto dizia que estava bem. Mas em questão de segundos, desabou no chão. Sua mãe, que estava em casa, ouviu o alvoroço e correu para a rua. A cena que encontrou foi desesperadora: Chiquinho estava no chão, inconsciente, mas ainda com vida. Ela o segurou nos braços, implorando por ajuda, enquanto os vizinhos chamavam o resgate. Quando os paramédicos chegaram, explicaram o que havia acontecido: o capacete havia mantido a pressão intracraniana estável, impedindo que o traumatismo craniano se agravasse imediatamente. Ao tirá-lo, ele liberou essa pressão, causando uma hemorragia fatal. — Se ele tivesse mantido o capacete até chegarmos, poderia ter tido uma chance mínima de sobreviver. Mas, mesmo assim, o impacto foi muito forte... — explicou um dos socorristas. A mãe de Chiquinho não conseguiu conter o choro. Ele morreu ali, nos braços dela, antes que pudesse ser levado ao hospital. O Luto de Samira Quando a notícia chegou a Samira, ela estava em casa, descansando com Jeanzinho. A ligação foi curta e devastadora: — Samira, o Chiquinho sofreu um acidente... ele não resistiu. O telefone caiu de suas mãos. O mundo parecia girar. Ela abraçou Jeanzinho com força, como se o contato físico pudesse afastar a dor que crescia em seu peito. Chiquinho não era apenas o irmão de seu marido. Ele era parte dela, um amigo de toda a vida, alguém que a conhecia como ninguém. Sua morte foi um golpe tão profundo que, por um momento, ela sentiu que m*l conseguia respirar. Grávida de sete meses, Samira tentou manter a calma pelo bem do bebê, mas a dor era esmagadora. Cada canto da casa parecia lembrar Chiquinho: as brincadeiras, as risadas, as vezes em que ele aparecia de surpresa com alguma guloseima para Jeanzinho. — Como você foi me deixar assim, Chiquinho? — sussurrava para si mesma, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. Mesmo com um bebê pequeno para cuidar e outro a caminho, Samira mergulhou em um luto profundo. Ela fazia o possível para continuar, mas o vazio deixado por Chiquinho era impossível de ignorar. Jean e a Transformação Jean, por sua vez, lidava com a dor de maneira diferente. O irmão mais novo era sua inspiração e orgulho, e perder Chiquinho abalou profundamente sua visão de mundo. Ele começou a questionar tudo, desde as decisões do passado até o futuro que construía com Samira. — Talvez tenhamos nos casado cedo demais, Samira. Perdemos tanto... talvez não tenhamos aproveitado a vida como deveríamos — desabafou, certo dia. Samira ficou em silêncio. Não sabia se a dor estava falando por ele ou se aquilo era algo que Jean sempre pensara, mas nunca teve coragem de dizer. A morte de Chiquinho criou uma distância entre eles que nenhum dos dois sabia como atravessar. Jean mergulhou no trabalho, tentando distrair-se da perda, enquanto Samira lutava para encontrar forças em meio ao caos. A Lembrança de Chiquinho Apesar de tudo, Samira se apegava às memórias que tinha de Chiquinho. Lembrava-se das brincadeiras, das conversas longas e das vezes em que ele a fazia rir até chorar. — Ele era luz, mamãe. Não sei como vamos viver sem ele — disse a Jean um dia, enquanto embalava Jeanzinho. E, de alguma forma, a memória de Chiquinho também dava forças para seguir em frente. Ela sabia que ele jamais permitiria que a tristeza a dominasse. Enquanto olhava para Jeanzinho, Samira sentiu uma centelha de esperança. Mesmo diante da perda, a vida continuava, e ela precisava ser forte — por seus filhos, por Jean e, acima de tudo, por si mesma!
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