Quando Jeffrey nasceu, Jean não quis ir ficar com Samira na casa da mãe dela. Ele decidiu que viria vê-la todos os dias, mas dormiria em casa. Samira queria entender o que estava acontecendo, mas não podia perguntar a sua cunhada recém-casada. Achava que tudo era reflexo da morte de Chiquinho, afinal, só fazia dois meses que ele havia falecido.
Quando o bebê tinha um mês, Samira decidiu que voltaria para sua casa. Sentia que algo estava errado e, se não voltasse, acreditava que seu casamento poderia acabar. Quando comunicou sua decisão à mãe e aos irmãos, Adrielle começou a chorar e se trancou no quarto. Samira deixou a mãe com os meninos e foi conversar com a irmã, mas Adrielle se recusou a contar o motivo de seu choro. Rodrigo, o irmão, disse que falaria com Adrielle. Samira esperou ele fechar a porta e o seguiu. Ouviu Adrielle chorando inconsolável:
— Eu vi ele beijando ela, eu vi! Você sabe que eu vi porque ele confessou! Ele disse que ia contar pra ela, mas não contou. E agora ela vai voltar pra ele sendo enganada!
— Eu sei o que você viu, Adrielle. Mas a gente precisa lembrar que nossa irmã tem dois filhos com ele. Eles vão achar um jeito de se entender, e nós dois vamos ficar como os fofoqueiros!
— Lá vem você com seu machismo. Os homens se defendem sempre. Você deve achar que é normal aquele filho da p**a traindo nossa irmã enquanto ela está aqui, de resguardo, cuidando de dois filhos pequenos!
O mundo de Samira desabou. Então Jean estava beijando outra mulher? Como faria para ter certeza? Se o confrontasse, ele saberia que descobriu pelos irmãos. Não podia fazer isso. Adrielle sempre teve verdadeira adoração por ele!
Quando Jean chegou à noite, Samira o tratou normalmente, mas decidiu segui-lo. Se ele estava com a amante que Adrielle dizia ter flagrado, deveria ser alguém próximo. Porém, só viu Jean entrando na casa da mãe dele e, em menos de dez minutos, saindo novamente. Ele entregou o capacete de Samira para Cíntia, e ela subiu na garupa da moto.
Cíntia era amiga de Eduarda, irmã de Jean. Desde que eram crianças, Cíntia sempre estava por perto. Mesmo com Eduarda morando longe, continuava muito próxima da família. Após a morte de Chiquinho, Cíntia passou a visitar frequentemente a sogra de Samira para dar apoio. Samira imaginou que talvez ela tivesse ficado até mais tarde e Jean estivesse apenas levando-a para casa.
Samira decidiu não dizer nada a Jean até o fim de semana. Durante os dias seguintes, seguiu-o e percebeu um padrão: Cíntia saía todas as noites na garupa da moto de Jean usando o capacete de Samira. Primeiro, achou que Cíntia estava sendo folgada por esperar Jean para ir embora, mas algo não estava batendo. Planejou confrontá-lo no domingo, diante da família dele, se não descobrisse nada até lá.
No sábado, porém, teve um desentendimento na casa da mãe de Samira. Adrielle queria sair com uma das meninas para quem Samira tinha dado aulas, mas a mãe delas não gostava da companhia da irmã. Temia que Adrielle acabasse se envolvendo com o crime. Samira encontrou uma solução: pediu para Adrielle ajudar a cuidar dos meninos, pois precisava sair à noite. Então, chamou Rodrigo e contou que sabia que Jean estava traindo-a com Cíntia. Disse que precisava flagrar os dois e pediu sua ajuda. Ele concordou. Assim que Jean se despediu naquela noite, Rodrigo saiu de moto. Ficou parado em frente a uma farmácia, de onde tinha visão da casa da sogra de Samira, mas sem ser visto por quem estava lá.
Enquanto esperava, escondida no portão de casa, Samira refletia sobre a loucura de envolver seu irmão de 16 anos naquela situação. Rodrigo pilotava bem, mas foi Chiquinho quem o ensinou. Ele usou parte da indenização do pai para comprar a moto. Era uma "cabrita", claro, e ainda faltavam dois anos para ele tirar a habilitação, mas ele dirigia o caminhão e o carro da família desde os 13 anos. Lembrou-se do acidente de Chiquinho e sentiu o ar faltar, imaginando-se morta em uma poça de sangue e Jean criando os filhos com Cíntia. Quase desistiu, mas Rodrigo apareceu e disse:
— Segura firme, porque quando a gente passar na lombada você vai subir, e, se não estiver segurando, quando voltar, não tô mais lá.
Samira segurou com força na cintura do irmão, lembrando-se dos rachas que assistiram juntos. Logo ele reduziu a velocidade, ficando a dois carros de Jean. Era assustador vê-lo pilotar devagar, conversando com Cíntia, às vezes colocando a mão na perna dela. O pior foi perceber que ele estava indo em direção à casa de Samira.
Ao vê-lo parar na esquina da casa, Samira não queria acreditar que ele levaria Cíntia para seu lar, para sua cama. Jean parou, e Cíntia desceu, abriu a garagem e ele entrou. Ela fechou o portão. Rodrigo perguntou:
— O que você quer fazer agora?
— Esperar eles saírem.
Quase duas horas depois, Samira tomou uma decisão: entraria.