DEZESSETE

1325 Palavras
Aquela barriga imensa, homens trabalhando dentro de casa, Dona Olívia querendo palpitar em tudo. Samira estava irritada. Sim, e muito. Felipe tentava mediar a situação entre a mãe e ela, mas Dona Olívia parecia medir forças com Samira o tempo inteiro. Não fazia tarefa nenhuma de casa, dizia que era muito doente, mas Samira até hoje não entendia que doença era aquela, porque a mulher tinha bastante energia quando o assunto era estressá-la. Ela entendeu facilmente por que Adelaide e Felipe puxavam plantões quase insanos. Precisavam ficar longe da mãe sem abandoná-la. E Adê, igualzinha a Adrielle, queria fugir da tirania materna. Deus a livre de ser uma mãe daquelas. Além de tudo, fazia muito tempo que não via Jeanzinho. Samira era praticamente refém naquela casa. Não podia pilotar, nem subir em uma moto, já que estava com uma barriga de quase oito meses. E se recusava terminantemente a receber o filho naquela casa, com aquela mulher maluca. Tinha certeza de que quando a reforma terminasse, e graças a Deus já estava na fase de acabamento, tudo melhoraria. Poderia trazer Jeanzinho para ficar com ela e então tudo ficaria bem. Em um dos dias em que já não aguentava mais ficar presa dentro daquela casa, pegou um táxi e foi para o centro. Lá encontrou uma concessionária de carros usados e gastou metade do dinheiro que ainda tinha no banco para comprar um carro à vista. Sabia que depois que Guilherme nascesse não poderia andar com ele de moto, então já estava se precavendo enquanto ainda tinha dinheiro. Foi um verdadeiro auê em casa. Aquela velha maldita que se metia em tudo infernizou a cabeça de Felipe. Disse que as coisas não eram daquele jeito, que Samira não podia sair gastando o dinheiro deles assim, por conta própria, com coisas inúteis. Felipe foi duro com a mãe. Disse que o dinheiro era de Samira e que ela deveria estar envergonhada de estarem usando um dinheiro que deveria ser empregado com o filho dela. Disse também que a obrigação de um homem era suprir as necessidades da esposa e dos filhos, e que ele, como homem da casa que Dona Olívia fazia tanta questão de dizer que ele era, tinha por obrigação dar uma casa para Samira e assumir também o filho que ela já tinha, não permitir que ela fizesse tudo sozinha e ainda bancasse boa parte das despesas. A mulher pareceu compreender e Samira acreditou que, finalmente, as coisas ficariam em paz. Mas no plantão seguinte de Felipe, Dona Olívia entrou em seu quarto sem sequer bater na porta. — Essa é minha casa e aqui eu não preciso pedir licença pra entrar! Samira, ainda meio sonolenta, sentou-se na cama com dificuldade. Dona Olívia puxou uma cadeira, sem fazer cerimônia, sentou-se ao lado dela e começou: — Você viu o que você fez? Eu acho que você é mandada do capiroto pra separar meu filho de mim. Ele sempre foi um bom menino, teve os casos dele, nunca trouxe mulher pra dentro de casa, dava todo o dinheiro dele pra mim. Eu era a mulher da casa dele! E ele nunca, nunca ousou afrontar minha autoridade! — A senhora cria filho pra você, e isso não existe! Felipe tem quase 30 anos, é um homem e tem que seguir com a vida dele, não pode cuidar da senhora o resto da vida! — Ele deveria ter arrumado uma mulher mais calma, mais submissa. Não uma que se acha a dona de tudo. Conseguiríamos viver tranquilamente, sem esse gasto dispendioso que você fez pra construir outra casa, porque não tinha necessidade! Dava muito bem pra colocar o berço no quarto dele, que é o maior da casa. Tudo ia ficar bem se você não fosse gastadeira. E nunca está bom pra você, agora inventou de comprar um carro, matou a garagem de casa, sendo que a Adê estava projetando comprar o carro dela, onde vai guardar com duas motos e um carro agora lá? A mulher sábia edifica uma casa, a tola a destrói. Você pode achar que tem poder sobre o meu filho. Mas eu vou aguardar. Você já abandonou um filho pra trás pra viver sua vida, quando abandonar esse pra eu criar, meu filho vai ver o tipo de pessoa que você é e vamos voltar a ser a família que sempre fomos! Samira ficou muito m*l depois daquela conversa. Quando Felipe chegou, percebeu imediatamente que alguma coisa tinha acontecido, mas não insistiu em saber o que era. Ela pensou que ele queria apenas tapar o sol com a peneira. No dia seguinte, porém, Felipe acordou cedo e foi acompanhar a obra. Gritou com a peãozada, assumiu o papel de homem da casa e, da janela do quarto, Samira o ouviu dizendo ao pedreiro que eles precisavam se virar, porque ela e ele se mudariam assim que os móveis chegassem. Se não estivesse pronto, terminariam a obra com eles morando lá dentro. Pouco depois, ele entrou no quarto e mandou que ela se arrumasse. Iam comprar móveis. Samira se empolgou imediatamente. Compras eram com ela mesma. Quando estavam saindo, a velha maluca resolveu questionar novamente. Disse que Samira deveria trazer os móveis antigos e que não havia necessidade daquele novo gasto. Felipe perdeu a paciência. — Mamãe, entenda uma coisa: eu sou homem, mas não o seu homem! Te ajudo, porque minha obrigação como filho é te honrar. Mas você tem a pensão do papai e a Adê te ajuda também. Agora eu tenho uma nova família e minha obrigação é com eles. Samira, Jeanzinho e Guilherme! E eu vou mobiliar a casa que a minha mulher construiu, do jeito que ela quiser, não vou poupar em nada e ela não vai desembolsar mais nem um real! E a senhora, por favor, não se envolva por que não quero brigar com você! Aquilo fez Samira sorrir por dentro. Compraram tudo o que ela quis, exatamente do jeito que ela queria. Claro que o parcelamento ultrapassou o valor que Felipe poderia assumir sozinho. Então Samira deu uma entrada substancial. Ele prometeu que a pagaria depois. Apesar de ter ficado com uma merreca no banco, um valor que m*l serviria para uma emergência, ela estava tranquila. Aquela era a atitude que esperava do homem com quem iria viver. E, obviamente, depois que a casa ficou pronta, com tudo em seu devido lugar, bonitinho, aconchegante e perfeito, exatamente como ela havia imaginado, até mais do que quando montou sua primeira casa, Dona Olívia entrou lá criticando absolutamente tudo. Disse que Samira havia gastado demais, como sempre. Disse que tinha comprometido quase todo o salário do filho dela com coisas desnecessárias. Criticou principalmente a máquina de lavar e o forno micro-ondas, porque, na cabeça dela, Samira poderia muito bem viver sem aquilo. Também disse que ela era uma pobre metida a b***a e que as consequências de suas atitudes chegariam muito em breve. Que ela podia apostar nisso. De repente, Samira entendeu perfeitamente tudo o que as pessoas diziam sobre sogras. Ela nem sonhava o que era isso. Sua mãe sempre tinha sido uma mãe para Jean. Tratava-o como filho, e talvez por isso a decepção tivesse sido tão grande quando ele aprontou tudo aquilo. Dona Zita, por sua vez, tinha nove noras e genros e sempre tratou todos exatamente da mesma forma: com carinho, respeito e ajuda quando precisava. Fora o período de estresse depois que Jean cometeu suicídio e a culpou pelo ocorrido, Samira nunca teve problemas com ela. Dona Zita costumava dizer que ajudar uma nora era ajudar um filho. Que agradar um genro era garantir que ele tratasse bem sua filha. E que tudo o que uma mãe precisava era saber que seus filhos estavam bem. Mas Dona Olívia não era assim. Ela parecia sentir prazer em irritar Samira. Gostava de desestabilizá-la. Gostava de provocá-la. Nada estava bom o suficiente para ela. Queria se meter em tudo. Uma sogra típica. E perfeita.
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