Claro que Samira precisou contar para Felipe que estava grávida. Não havia como esconder a barriga crescendo por muito tempo, e muito menos fazia parte de sua personalidade fugir das consequências dos próprios atos. A reação dele foi exatamente o que ela imaginava: um verdadeiro vendaval. Antes mesmo de ela terminar de explicar toda a situação, Felipe já estava planejando mudanças, organizando soluções e decidindo os próximos passos da vida deles.
— Samira, é óbvio que você tem que se mudar pra cá! É mais perto do serviço, vamos ficar juntos. Não quero criar filho de 15 em 15 dias!
Samira observou o entusiasmo dele com uma mistura de irritação e preocupação. Para Felipe, tudo parecia simples demais. Ele estava feliz com a notícia, enquanto ela enxergava uma montanha de problemas se aproximando.
— Você está todo feliz porque não perde nada! Na hora que eu contar na firma que tô grávida, sou afastada da escolta e vou fazer serviço burocrático até voltar da licença! Muito provavelmente, vou trocar de horário e ficar nas câmeras e portaria!
— Você está falando como se eu fosse culpado de ter te engravidado!
— Você saí por aí transando com qualquer uma sem camisinha!
— Você sai por aí transando com qualquer um sem camisinha!
Aquela resposta a fez rir, mesmo contra a própria vontade. A discussão perdeu a força imediatamente, porque os dois sabiam que procurar um culpado não mudaria absolutamente nada. O bebê existia, e os dois tinham participado igualmente da situação.
Aproveitando que ela havia relaxado um pouco, Felipe mudou o tom da conversa.
— Escuta, Samira. Vamos fazer o seguinte: vem morar em casa. Eu cuido de você durante a gravidez. Se não quiser ficar comigo, tudo bem, você fica no quarto da Adê. Depois que o bebê nascer, a gente vê como faz!
A proposta parecia razoável. Na verdade, quanto mais ela pensava, mais sentido fazia. Ainda assim, antes de tomar qualquer decisão, Samira sentiu necessidade de conversar com a mãe. E isso a irritou um pouco consigo mesma. Já era uma mulher adulta, tinha vinte e quatro anos, morava sozinha, sustentava a própria casa e não dependia financeiramente de ninguém. Mesmo assim, ainda sentia aquele frio na barriga infantil quando precisava contar algo importante para Dona Edna.
Quando terminou de explicar a situação, ficou esperando a explosão.
Ela não veio.
— Eu acho que seu namorado está certo, Samira.
A resposta foi tão inesperada que Samira chegou a ficar em silêncio por alguns segundos.
— Você deveria se mudar pra lá, sentir como o relacionamento de vocês desenvolve e, se não der certo, você volta pra casa. Aqui sempre vai estar aberto pra você. Eu sou sua mãe, avó do seu filho. Essa é sua casa.
Aquilo já era surpreendente o suficiente, mas Dona Edna ainda não havia terminado.
— Mas eu acho que você deveria deixar Jeanzinho aqui comigo e com Dona Zita. Pra gente cuidar dele enquanto você sente seu novo relacionamento.
— Não quero ficar longe do meu filho, mãe!
A resposta saiu imediata.
— Eu sei disso. Mas você precisa lembrar que está indo morar na casa de outra pessoa. E você não aguentou morar comigo depois que casou, imagina alguém que nem é seu parente.
Samira precisou controlar o impulso de revirar os olhos.
— Sei exatamente o que está pensando, Sâmi. Que eu sou insuportável. E sabe de uma coisa? Toda mãe é. Não existe ninguém mais insuportável do que a própria mãe. Isso até você invadir o espaço de alguém que acha que não tem obrigação nenhuma com você.
Por mais que doesse admitir, havia verdade naquelas palavras.
— Então vai. Organiza sua vida nessa nova configuração. Quando você sentir que é um ambiente saudável para o Jeanzinho, busca ele. Ele continua sendo seu filho. Ninguém vai tirar isso de você. E, além disso, conviver com um irmãozinho novo pode fazer muito bem para ele. Não acredito que ele se lembre do trauma que passamos, mas toda criança precisa de um pouco de alegria.
A conversa seguiu por mais alguns minutos até que Dona Edna fez uma pergunta que pegou Samira desprevenida.
— E você pretende se casar?
— Casar? Nem pensei nisso.
— Se eu fosse você, não casava.
Samira soltou uma risada cansada.
— Sabia que vinha alguma coisa...
— Você vai perder a pensão de viúva.
Dessa vez ela realmente revirou os olhos.
— Você deve estar pensando que eu sou gananciosa e só penso em dinheiro. Mas para e pensa um pouco, Samira. Tudo do Jeanzinho está guardado para ele. A sua parte da pensão ajuda vocês dois a viverem confortavelmente. Quando esse bebê nascer, ele vai depender do seu salário e da ajuda do pai. E se alguma coisa acontecer?
O tom da mãe ficou mais sério.
— Vocês dois têm profissões perigosas. Trabalham armados, perto de penitenciárias, lidam com criminosos. Não é nenhum absurdo imaginar que algo possa dar errado. Você não deveria abrir mão dessa segurança. E, sinceramente? Não é favor nenhum. Jean enganou você, destruiu sua vida de muitas maneiras. Esse dinheiro não paga nem metade do sofrimento que deixou para trás.
Pela primeira vez em muitos anos, Samira concordou integralmente com a mãe.
Poucas semanas depois, ela se mudou para a casa de Felipe. Combinou que, enquanto ainda pudesse pilotar, veria Jeanzinho pelo menos duas vezes por semana. Na teoria, tudo parecia organizado. Na prática, demorou pouco para ela perceber que a convivência seria muito mais difícil do que imaginava.
A casa de Felipe sempre lhe pareceu simples, mas ela nunca tinha prestado muita atenção nos detalhes. Só depois da mudança percebeu como o espaço era pequeno, como as rotinas eram rígidas e como Dona Olívia gostava de dar opiniões sobre absolutamente tudo.
Nos primeiros meses, Samira suportou bem.
Depois dos primeiros meses, começou a enlouquecer.
A mãe de Felipe comentava sobre a forma como ela arrumava a cozinha, sobre os horários em que descansava, sobre o jeito que lavava roupas, sobre as visitas que recebia e até sobre a maneira como organizava os móveis do quarto.
O pior era que Samira sabia que estava contribuindo financeiramente. Mais da metade do seu salário ficava naquela casa, mas ainda assim sentia que estava ocupando um espaço que nunca seria realmente seu.
Quando atingiu quase cinco meses de gestação, ela explodiu.
— Felipe, eu não aguento mais! Quero meu canto, minha casa! Estou de quase cinco meses e sua mãe não para de pegar no meu pé!
Felipe suspirou. Aquela conversa já era esperada.
— Eu entendo, meu amor. Olha só... vamos construir nos fundos. Assim você vai ter sua casa independente da dela. Já conversei com minha mãe e ela gostou da ideia.
Samira sentiu um alívio imediato.
— Eu também acho ótimo! Quando vamos começar?
O silêncio dele foi suficiente para deixá-la desconfiada.
— Tenho que esperar as férias, Sâmi.
— E quando vai ser isso?
— Em março.
Ela ficou olhando para ele sem acreditar.
— Mas estamos em julho!
Felipe passou a mão no rosto.
— Eu vendi minhas últimas férias.
— Então você está me dizendo que quer que eu espere até março? O bebê já vai ter nascido!
— Infelizmente, é quando vou conseguir.
Samira ficou alguns segundos em silêncio antes de tomar sua decisão.
— Se eu financiar, você começa antes?
Felipe não gostou da ideia.
— Não acho justo, Sâmi...
— Eu acho. E não quero criar meu filho aqui nem por um dia. Quero o quarto dele pronto quando ele nascer.
Foi assim que ela acabou mexendo novamente no dinheiro que havia sobrado da venda da antiga casa. Quase toda sua reserva desapareceu na obra que começou nos fundos do terreno.
Como se isso não bastasse, pouco tempo depois a empresa decidiu afastá-la da escolta. A barriga já era evidente, o colete balístico não fechava mais corretamente e não existia nenhuma vaga disponível nas câmeras ou na portaria para acomodá-la temporariamente.
Pela primeira vez desde que reconstruíra a própria vida, Samira se viu obrigada a ficar em casa.
E ela descobriu rapidamente que lidar com sogra, obra, gravidez e falta de trabalho ao mesmo tempo era muito mais difícil do que enfrentar qualquer escolta armada.