Entre o medo e a escolha
Depois do que aconteceu entre ela e Felipe, o clima no trabalho nunca mais voltou a ser exatamente o mesmo. Samira tentava agir como se nada tivesse mudado, como se aquela madrugada na casa dele tivesse sido apenas uma necessidade física m*l resolvida, uma recaída causada por carência, cansaço e rejeição acumulada. E, para ela, tinha sido exatamente isso. Felipe era bonito, gostoso, gentil e divertido, mas não ocupava em sua vida o espaço que imaginava ocupar. Samira gostava da companhia dele, confiava nele dentro da escolta, ria das piadas dele durante as horas mortas dos plantões, mas aquilo não significava amor. Nem perto disso.
O problema era que Felipe não parecia enxergar daquela forma.
Ele começou a agir como se existisse alguma coisa séria entre eles. Pequenos gestos começaram a irritar Samira aos poucos. O jeito como ele sempre queria tomar café junto antes do plantão, como aparecia trazendo lanche para ela sem pedir, como fazia questão de ficar perto dela nas trocas de turno, tudo aquilo começou a sufocá-la. E quanto mais ele demonstrava interesse, mais ela percebia o quanto seu coração ainda estava preso em outro lugar. Preso em alguém que ela fingia ter deixado para trás.
Alexis.
Era ridículo admitir aquilo até para si mesma. Alexis era tudo que sua mãe odiaria em um homem. Sub da boca, envolvido com o crime, criado no meio da favela, cercado de gente perigosa. Dona Edna quase teve um troço quando viu a tatuagem que Samira fez para Jeffrey. Não pela homenagem ao neto morto, mas porque reconheceu imediatamente o traço do tatuador ligado ao pessoal da parte de baixo da avenida.
A partir dali, a implicância da mãe piorou num nível absurdo.
Vivia gritando pela casa que agora tinha “uma filha p**a e uma filha maloqueira”. Como Samira já não morava mais no quintal dela, sobrava para Adrielle ouvir as humilhações. E Samira começou a perceber que talvez a irmã estivesse realmente descontando toda a revolta daquela vida em sexo, bebida e provocação. Adrielle parecia viver numa necessidade constante de desafiar tudo e todos, como se quisesse provar que ninguém mandava nela.
E, no fundo, Samira sentia culpa.
Porque tinha saído de casa, arrumado trabalho, começado a reconstruir a própria vida… enquanto Adrielle continuava presa naquele ambiente sufocante.
Talvez por isso Samira tivesse ainda menos paciência para os dramas românticos de Felipe.
Ela não queria namoro.
Não queria compromisso.
Não queria precisar pensar em outro homem além das obrigações que já carregava nas costas.
Felipe, porém, parecia determinado a transformar uma transa em relacionamento. Começou a insistir para saírem juntos fora do trabalho, queria buscá-la em casa, levá-la para jantar, fazer programas normais de casal. Samira já estava ficando irritada com aquilo, principalmente porque relacionamento entre funcionários era proibido pela empresa. Se alguém descobrisse o envolvimento dos dois, um deles seria transferido de posto.
E, sinceramente, ela não estava disposta a perder o melhor trabalho que já teve por causa de homem.
Então resolveu cortar aquilo pela raiz.
Numa tarde mais tranquila, enquanto aguardavam liberação para sair com uma carga, Samira chamou Felipe para conversar perto dos carros da escolta. O sol forte batia no asfalto quente, e ela ficou alguns segundos observando os caminhões entrando e saindo antes de falar. Precisava encontrar as palavras certas para não humilhar ele, porque Felipe não era mau sujeito. Só estava criando expectativas erradas.
— Felipe, você se lembra que meu primeiro marido cometeu suicídio?
Ele imediatamente perdeu o sorriso.
— Sim. Aquele idiotä. Abriu mão de um mulherão da porrä.
Samira soltou um suspiro cansado antes de balançar a cabeça.
— Ele abriu mão de muita coisa, Felipe. Mas você lembra nossa última conversa antes de ele se colocar na coleira?
Felipe demorou um pouco para responder, como se puxasse aquilo da memória.
— Ele te perguntou se você tinha certeza que não ia voltar pra casa… não foi?
Ela assentiu lentamente.
— Foi. E porque eu me recusei a sair do bairro, ele fez aquilo. Eu não quero que aconteça o mesmo com você, nem começar um relacionamento com alguém que já deixou claro que tem obrigação em outro lugar.
Felipe franziu a testa, sem entender onde ela queria chegar.
Samira então continuou, mais calma:
— Namorar por namorar, tudo bem. A gente se pega de vez em quando, resolve a carência e pronto. Mas relacionamento sério exige compromisso. E o seu compromisso é com sua mãe. Você mesmo deixou isso claro desde o começo. Você não vai sair de perto dela. E eu também não vou sair do meu bairro, da minha família, da minha mãe, da minha sogra, do meu filho. Então me fala… pra que começar uma coisa sem futuro?
Felipe ficou em silêncio.
Pela primeira vez desde que tinham dormido juntos, Samira viu o semblante dele realmente abatido.
— Você tá me dispensando antes mesmo da gente tentar? — ele perguntou, sem esconder a frustração.
— Não estou dispensando ninguém. Só estou sendo honesta. A gente funciona bem como parceiro de trabalho. E foi só isso aquela noite.
Ele abaixou a cabeça, claramente contrariado, mas acabou assentindo.
— Certo. Entendi.
E, para alívio dela, realmente entendeu. Depois daquela conversa, Felipe diminuiu bastante a insistência. Continuavam próximos durante os plantões, conversando normalmente, mas sem aquela tensão sufocante de antes.
Os meses seguiram relativamente tranquilos.
Até Alexis reaparecer.
Dois meses depois daquela conversa com Felipe, FD mandou mensagem chamando Samira para sair. E ela odiou o quanto ficou feliz com aquilo. O simples nome dele aparecendo no celular foi suficiente para fazer seu coração acelerar como uma adolescente i****a.
Naquela noite, Samira deixou Jeanzinho na casa da sogra, se arrumou inteira e até passou gilete na virilha com um cuidado que fazia tempo que não tinha. Escolheu roupa, perfume, maquiagem. Estava nervosa. Nervosa de um jeito que Felipe nunca conseguiu deixá-la.
Porque Alexis mexia com ela em outro nível.
Quando ele apareceu para buscá-la, cheiroso, bonito e absurdamente charmoso naquele jeito perigoso que carregava, Samira já entrou no carro sentindo o corpo inteiro arrepiar.
Ele a levou para um motel luxuoso, muito acima dos lugares onde costumavam ir antes. E o mais estranho foi que Alexis parecia tranquilo demais. Sem aquela fome imediata que normalmente tinha quando estavam juntos.
Assim que entraram no quarto, ele entregou uma sacola de papel craft para ela.
— Tudo o que você precisa vai estar aí. Eu vou enchendo a banheira. Vai escolhendo um filminho pra nós.
Samira ficou parada olhando para ele, completamente sem entender.
Filme?
Banheira?
Ela tinha ido ali para ser comida. E muito bem comida. Não para assistir filme igual casal de comercial de margarina.
Enquanto Alexis desaparecia no banheiro, Samira tirou a roupa inteira e foi abrir a sacola.
O susto veio imediato.
Três chocolates diferentes.
Cibalena.
Batata de lata.
E um pacote de absorvente extra fino.
Ela ficou encarando aquilo em choque.
Foi quando Alexis saiu do banheiro e encontrou Samira completamente nua, segurando os absorventes com os olhos arregalados.
Ele entendeu na hora.
— Você não está menstruada?
Samira apenas balançou a cabeça negativamente.
Os olhos já enchendo de lágrimas.
— Você usou camisinha?
Foi aí que ela começou a chorar de verdade.
Porque naquele instante tudo desabou dentro dela.
O atraso.
Os sintomas.
O enjoo leve dos últimos dias que ela ignorou.
O cansaço constante.
Ela estava grávida.
De novo.
E o pior nem era isso.
O pior era perceber o quanto Alexis a conhecia. Conhecia seu corpo, seu ciclo, suas cólicas, suas manias. Preparou aquela noite inteira pensando no conforto dela. Abriu mão de sexo fácil para simplesmente cuidar dela.
E ela tinha dado para Felipe.
Sem camisinha.
Como uma irresponsável.
Alexis não brigou. Não levantou a voz. Apenas a abraçou.
Pegou Samira no colo e a levou até a banheira já cheia de água quente. Entrou com ela ali dentro e ficou abraçado em silêncio enquanto ela chorava.
Depois de muito tempo quieta, tentando organizar a própria cabeça, Samira finalmente perguntou algo que a incomodava havia meses:
— Porque às vezes você fala na gíria e outras vezes fala igual gente rica?
Alexis soltou uma risada baixa.
— Como você, eu não fui criado pra viver na quebrada.
Ela virou o rosto lentamente para olhar ele.
— Então porque vive lá?
O semblante dele mudou na mesma hora.
— Vim passar uns dias na casa da minha tia. Deco me chamou pra ser aviãozinho. Eu aceitei… e nunca mais saí.
— Mas você não parece gostar dessa vida.
— Não gosto. Mas preciso.
— Precisa por quê?
Alexis então respirou fundo e deu um sorriso cansado.
— Sâmi… eu conheço seus truques. Você tá me enchendo de pergunta pra parar de pensar no bebê.
Ela ficou quieta.
Porque era verdade.
— Não vai passar, Samira. Tem uma criança aí de novo. E de outro homem que não sou eu.
A voz dele saiu amarga daquela vez.
— Estou há anos esperando você. Anos aceitando migalha. E você sempre faz isso comigo.
Samira abaixou os olhos.
E então Alexis fez algo que ela jamais esperava ouvir.
— Então deixa eu assumir essa criança. Diz que o filho é meu e pronto. Nem fala pro mané. E se ele vier te encher o saco, eu resolvo.
Ela arregalou os olhos.
— Você tá maluco?
— Não. Tô cansado. Cansado de ficar te esperando. Eu sei que você gosta de mim, mesmo que seja só um pouquinho. Então vamos ficar juntos logo. Eu largo tudo na quebrada. Vou pra onde você quiser comigo.
Samira sentiu o peito apertar.
Porque, pela primeira vez, Alexis estava oferecendo exatamente aquilo que ela sempre quis ouvir.
Mas tarde demais.
— Não posso.
— Por quê?
Ela fechou os olhos antes de responder:
— Porque o bebê é de um gambá.
Alexis soltou uma gargalhada incrédula.
— p***a, Sereia. Sério isso?
— Se eu escondo isso… se você faz alguma coisa com ele… eu trago a polícia inteira pra cima da quebrada.
Alexis passou a mão no rosto, irritado.
— Os irmãos pesadelo me matam antes disso acontecer.
— Foi exatamente o que pensei quando cogitei dizer que o filho era seu.
Ele ficou olhando para ela em silêncio durante alguns segundos.
E então balançou a cabeça devagar.
— Você fudëu com tudo.
Samira soltou uma risada sem humor, sentindo as lágrimas voltarem.
— De novo.