CATORZE

1884 Palavras
Entre o Gatilho e a Carência Samira ganhou quinze dias de afastamento depois do intento na escolta. Quinze dias inteiros sendo tratada como heroína pela empresa, recebendo ligações de superiores, ouvindo elogios que jamais imaginou escutar na vida. A mulher da favela, a viúva problemática, a mãe que m*l tinha conseguido terminar os estudos por causa da vida atropelada… agora era vista como referência. Quando voltou ao trabalho, a mudança ficou evidente imediatamente. Não foi mais colocada em câmera de monitoramento. Nem em portaria. Agora carregava rifle. As cargas mais valiosas passaram a ser dela. Ninguém mais a tratava como “mulherzinha”, muito pelo contrário. Os homens da empresa olhavam Samira com respeito genuíno. Alguns até com admiração demais. A história da escolta tinha rodado entre todas as bases da região de Campinas e Paulínia. A mulher que se escondeu debaixo do parceiro morto, puxou a doze e derrubou criminoso junto com apoio aéreo. Aquilo virou quase uma lenda interna. Os supervisores passaram a lhe dar liberdade também. Nas primeiras horas dos plantões, se não houvesse movimentação, ela podia descansar, cochilar ou fazer o que quisesse. Queriam inclusive mudar sua escala para doze por trinta e seis, dizendo que ela renderia muito mais descansada. Samira recusou imediatamente. Na cabeça dela, aquilo significava perder tempo com Jeanzinho. Trabalharia um dia inteiro, dormiria no outro e logo precisaria voltar. Parecia c***l demais. Mas então Felipe apareceu. O novo parceiro de escolta. E conseguiu convencer ela. Felipe tinha vinte e oito anos, jeito tranquilo, humor ácido e uma calma que contrastava completamente com o temperamento explosivo de Samira. Explicou que trabalhando durante o dia ela ficaria mais alerta, mais segura e ainda poderia dormir todas as noites em casa com o filho. No fim, acabou cedendo. A empresa gostou tanto da adaptação que mudou praticamente toda a escala das equipes de escolta. Dias depois, Felipe apareceu rindo enquanto tomavam café na central. — O quê? Você achou mesmo que eu estava te fazendo um favor? — provocou. — Não, princesa. Era interesse pessoal. Agora consigo dormir toda noite com a minha velha, já que a desmiolada da minha irmã passa a madrugada inteira na gandaia. Samira acabou rindo. Ela e Felipe passavam tempo demais juntos dentro de carro blindado, aguardando rota, escolta ou carregamento. Era inevitável conversar. E a amizade entre eles cresceu rápido, leve, sem esforço. Felipe nunca tinha se envolvido sério com ninguém justamente por causa da mãe. Dona Olívia tinha problemas de saúde e ele não aceitava abandoná-la sozinha. — Mulher nenhuma aceita casar pra morar com sogra doente — falou uma vez, dando de ombros. — E alguém precisa cuidar da minha mãe. Ele também tinha uma irmã mais nova, Adelaide, que parecia uma versão loira de Adrielle. Espírito livre, rebelde, cheia de personalidade e completamente incapaz de aceitar autoridade. Saía com quem queria, chegava a hora que bem entendia e brigava com Felipe diariamente. Aquilo fazia Samira rir porque lembrava demais sua própria casa. Mas apesar da leveza daquela nova amizade, Alexis continuava rondando sua cabeça. Jean tinha sido parecido com ela. Branco, cabelo escuro, olhar intenso. Alexis não. Alexis era um n***o claro de olhos verdes absurdos, tatuado, bonito num nível quase ofensivo. E Samira sentia saudades dele. Saudades do jeito como ele olhava pra ela. Do jeito como fazia ela se sentir desejada. Do jeito como a tocava como se tivesse esperado a vida inteira por aquilo. Em uma de suas folgas, pediu que ele a levasse até o tatuador que fazia suas tatuagens. Sempre achou lindos os traços finos espalhados pelo corpo dele e queria algo parecido. Acabou tatuando no braço uma frase delicada: “Por onde quer que eu vá, vou te levar sempre comigo. Eu te amarei por toda a eternidade.” No final da frase, colocou pequenas asas e uma auréola. Não preenchia o vazio deixado por Jeffrey. Nada preencheria. Mas a tatuagem lhe dava a sensação de carregar o filho consigo. Como se ele estivesse marcado permanentemente em sua pele, acompanhando cada passo seu. Alexis gostou da ideia imediatamente. Foi dele, inclusive, a sugestão da auréola. — Assim fica mais com cara de tatuagem de criança — comentou, observando o braço dela. Depois da tatuagem, porém, algo mudou. Ele levou Samira direto pra casa. Sem motel. Sem insinuação. Sem sequer tentar beijá-la direito. E aquilo deixou Samira confusa. Porque Alexis nunca dispensava uma oportunidade de tocá-la. No dia seguinte, ela foi trabalhar pensando nisso. Mandou mensagens durante o dia inteiro. Nenhuma resposta. Mandou mais durante a noite. Silêncio. Na manhã seguinte ligou. Ele não atendeu. Então Samira perdeu a paciência. Mandou uma mensagem grosseira dizendo que, se ele não atendesse, ela iria pessoalmente atrás dele na boca. Quando ligou novamente, Alexis atendeu no primeiro toque. — O que é, c*****o? O tom ríspido fez Samira franzir a testa imediatamente. — Não precisa falar assim comigo, Alexis. O que está acontecendo? — Não tá pegando nada não, gata. Tô num trampo aqui. Cê pode me deixar em paz? E as gírias tinham voltado. Aquilo chamou atenção de Samira na mesma hora. Por semanas ela teve a impressão de que Alexis falava diferente com ela. Mais calmo. Mais articulado. Mais culto até. Mas agora parecia novamente apenas o gerente da boca da favela. Talvez ela tivesse imaginado coisas. — A gente pode se ver hoje? — perguntou mais baixo. — Tô com saudade. Do outro lado veio uma risada debochada. — Agora cê qué me vê? Devia ter desenrolado essa ideia antes. Agora tem uma lôra na minha goma, tá ligada? Tô sussa… Samira sentiu o sangue ferver. — Você tá dormindo com outra mulher na sua cama? — Desenrola essa fita aí, morena. Tu não tem dono, por que eu vou tê? Faz sua caminhada e eu faço a minha. Qualquer dia nóis se tromba, falou? Tu me deixou tempo demais no vácuo pra eu querê me amarrar de novo em você. Samira ficou em silêncio alguns segundos. O orgulho doeu mais do que queria admitir. — Suave, FD. Nóis se tromba. Desligou possessa. Voltou ao trabalho no dia seguinte mastigando ódio. E como desgraça pouca nunca vinha sozinha, tiveram uma tentativa de invasão em uma das empresas protegidas pela segurança deles em Paulínia. Toda a equipe foi deslocada para reforço e acabaram dobrando plantão. Felipe estava irritado desde o começo. — Toda vez nessa época é essa merda. — Isso o quê, Lipe? — Saidinha. Estamos do lado da Penitenciária de Hortolândia. Os caras ganham indulto já pensando em voltar pra cadeia com crime novo. É inacreditável. Samira ficou ouvindo ele reclamar enquanto ajustava o colete. — Se o cara foi condenado, tem que cumprir tudo — continuou Felipe. — Mas não. O vagabundo sai por “bom comportamento” cheio de ideia na cabeça. — Mas isso é bom pra nós, não é? Hora extra sempre cai bem. Felipe bufou. — Você fala isso porque teu filho tá dormindo seguro em casa. Eu queria era estar cuidando da minha mãe, que fica cercada desses “ressocializados”. Samira ficou quieta. Não iria explicar que seu próprio filho vivia cercado de criminosos de verdade desde que nasceu. Quando finalmente terminaram o plantão, ela estava destruída. — Nossa… acho que desacostumei com vinte e quatro horas acordada. Felipe riu. — Culpa minha. Fiquei colocando paranoia na tua cabeça. — Eu não tenho medo de bandido. Tenho uma doze. Ele riu mais forte ainda. Então Samira olhou em volta da cidade desconhecida. — Você sabe se tem algum hotel por aqui? Acho melhor descansar antes de pilotar pra casa. — Hotel eu não sei. Agora pousada pra mulher de preso tem um monte. — Credo. Acho mais seguro cair da moto então. Felipe hesitou alguns segundos antes de falar: — Minha casa fica a quinze minutos daqui… se você quiser. Samira arregalou os olhos. — Você mora em Paulínia? Sempre achei que morava em Campinas. — Eu vou de ônibus fretado da empresa até lá. A moto fica aqui. Ela aceitou sem cerimônia. Estava cansada demais pra fazer charme. Voltaram até a central, Felipe pegou a moto dele e Samira subiu na garupa. Outra coisa estranha depois de tanto tempo: ser carona na moto de um homem. Quando chegaram, Dona Olívia estava sentada na sala esperando. E antes mesmo de entrarem, uma voz feminina gritou do corredor: — Caramba, Felipe! Tive que pedir dispensa. A mãe tem médico hoje e eu tava de plantão! Adelaide surgiu colocando brincos, mas travou quando viu Samira. — Desculpa! Não sabia que tinha trazido visita. — Essa é a Samira. Minha parceira. Os olhos de Adelaide brilharam imediatamente. — A guardete f**a da doze? Mulher, entra! Sou tua fã! Samira acabou rindo. Felipe explicou rapidamente: — Adelaide é aspirante da PM. Formou faz seis meses. — Vocês dois trabalham com segurança então? — perguntou Samira. Adelaide respondeu antes do irmão: — Um privado e um público. Nosso pai tinha um comércio que foi roubado por vagabundo da penitenciária há anos. Juramos vingança de dedinho. Eu fui pra PM e esse frouxo abandonou Direito pra virar segurança armado. — Vai embora logo pro plantão — Felipe rebateu. Dona Olívia apenas sorriu para Samira, claramente acostumada com o jeito falante da filha. Depois do banho quente, Samira finalmente sentiu o corpo relaxar. Felipe disse que ela podia dormir no quarto de Adelaide, que tinha banheiro próprio. Ela agradeceu e entrou. Mas depois de deitar, percebeu que estava com sede. Achou que não teria problema caminhar pela casa silenciosamente enquanto todos dormiam. Então saiu do quarto. Só que ao entrar na cozinha, parou imediatamente. Felipe estava ali. Descalço. Vestindo apenas uma cueca branca. Tomando água distraidamente. Samira travou. O corpo dele era absurdo. Moreno escuro, musculoso na medida certa, sem exageros. Abdômen definido, braços fortes e completamente sem tatuagens. Diferente de Alexis, que carregava desenhos pelo corpo inteiro, Felipe tinha a pele limpa. Ela observou cada detalhe. Cada gomo do abdômen. Cada músculo das costas. E quando os olhos desceram até a b***a redonda marcada pela cueca, Samira mordeu a própria boca involuntariamente. Aquilo despertou uma coisa nela. Uma carência física que vinha ignorando há meses. Tentou procurar Alexis justamente por isso. Mas Alexis não a quis. Preferiu uma loira qualquer na mesma cama onde dormia com ela. O orgulho ferido falou mais alto. Antes mesmo de pensar direito, Samira atravessou a cozinha, apertou a b***a de Felipe com força e viu o homem quase derrubar o copo de susto. Ele virou imediatamente. Os olhos escuros desceram pelo corpo dela ainda úmido do banho, vestindo apenas camiseta larga e calcinha escondida sob o tecido. — Samira… Mas ela não deixou ele terminar. Puxou Felipe pela nuca e o beijou. Um beijo faminto. Cheio de raiva acumulada. Carência. Solidão. Felipe tentou resistir por exatamente três segundos antes de agarrar a cintura dela e prensar Samira contra a pia. E dali em diante, os dois simplesmente perderam o controle. Só pararam quando ouviram Adelaide chegando com Dona Olívia do médico. Samira saiu correndo pelo corredor segurando a roupa no corpo, entrou no quarto da irmã dele e se jogou na cama fingindo dormir, enquanto o coração batia tão forte que ela tinha certeza absoluta de que Adelaide ouviria do outro lado da porta.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR