O silêncio imperava pelos cômodos na casa grande da fazenda Paradise. O mobiliário francês e os lustres de cristal traziam um ar elegante que remetia a uma exemplar propriedade rural do ciclo cafeeiro do século XIX. Os 27 cômodos eram decorados com o que havia de mais moderno
A luz do sol banhava a suíte logo que a bela mulher verificou a hora no relógio de ouro, faltava pouco mais de quinze minutos para às nove da manhã. Após o asseio, Dayanne escolheu um visual mais leve, colocou a blusa de cetim branca e uma saia transpassada na cor preta um pouco acima do joelho.
Captou a imagem da mulher com pescoço esguio e traços suaves, o rosto iluminado pela melanina refletia vivacidade e a inteligência nos olhos castanhos. Arrumou os cachos com as pontas dos dedos e devolveu um sorriso bem alinhado para o espelho na porta do guarda roupa de nogueira envernizado.
Dayanne caminhou de forma graciosa pelos corredores até a cozinha gourmet no interior da residência. O ambiente tinha uma paleta de cores baseada nos tons de cinza e preto. A moderna cozinha tinha um formoso piso de madeira de demolição. As paredes eram revestidas por cimento queimado e os eletrodomésticos na cor preta davam um ar de sofisticação à decoração.
― Onde está o meu esposo?
Dayanne acomodou-se na cadeira do lado direito da mesa redonda rústica com um tampo de vidro e olhou para a Daisy.
― Noah saiu cedo, ― replicou a mulher robusta. ― Ele tinha uma reunião com alguns fazendeiros da cidade.
― E o Peter?
― Ele também saiu.― Daisy serviu o café.
― Onde esse garoto foi?
Daisy deu de ombros e colocou a travessa de cerâmica branca com algumas fatias do bolo sobre a mesa. Notou o olhar caído na fisionomia angustiada de Dayanne antes de sentar de frente a ela.
― Fica tranquila, filha! Acho que o Peter foi encontrar com uma amiga em Petrópolis, ele está com saudade do clima acolhedor da cidade imperial.
― Meu filho está agitado, ele não parou em casa nesses últimos dias, ― resmungou. ― cansei de aconselhar e pedir para que ele seja resiliente com o pai, mas Peter parece que não me escuta
― Deixa ele se acostumar com a cidade, ele morou por um bom tempo fora do país.
Apesar de morar na cidade bucólica há mais de 20 anos, Dayanne fez questão que o filho estudasse nos melhores colégios no exterior, sempre tinha orgulho de comentar com as amigas sobre o intercâmbio e a faculdade de engenharia que Peter cursou nos Estados Unidos.
― Bom dia, mãe! ― Tinha animação na voz grave.
Peter adentrou a cozinha e beijou o rosto de Dayanne.
― Bom dia, filho! Acabamos de falar de você.
― Sobre mim ? ― Os cílios castanhos se juntavam um pouco acima dos olhos negros. ― Espero que tenham falado bem!
― Fiz bolo de milho. ― Daisy mostrou os dentes brilhantes quando Peter beijou-lhe a testa.
― Huuum! ― Peter olhou para a travessa com algumas fatias. ― Antes de tomar café, eu quero apresentar alguém especial a vocês.
― Você trouxe visitas a essa hora? ― Dayanne o fitou ao erguer o queixo naturalmente pontudo. ― Você devia ter avisado, Peter! Sabe que odeio visitas surpresas.
― Você vai gostar dela, mãe!
Dayanne ficou em pé e acompanhou o filho. O sorriso cruzou o rosto de Peter assim que chegou à sala de estar com estilo mais rústico na decoração. Todos os móveis, inclusive o piso e o corrimão da escada, eram de madeira
― Essa é Charlotte, minha esposa!
― Você está brincando, Peter? ― Dayanne esboçou um sorriso fechado. ― Não acredito nisso!
Coçou a testa com os dedos magros enquanto negava com a cabeça e sentou-se no sofá curvo com um estofado branco brilhante.
― Estou falando a verdade ― confessou a voz rouca e baixa. ― Charlotte e eu casamos em Petrópolis.
Dayanne examinou a garota de estatura mediana e curvilínea com a pele bronzeada pelo sol. Se esforçou para não dizer tudo o que estava preso na garganta.
― Peter, pare de fazer brincadeiras, não estou de bom humor ― reclamou a voz alterada.― Onde você conheceu ela? ― Comprimiu os olhos ao encarar Charlotte.
― Pelas redondezas. Charlotte trabalhava na mercearia e na plantação da família dela. Algum problema? ― Ergueu as sobrancelhas com uma fisionomia séria.
― Você não teve tempo de conhecer essa garota, Peter ― falou um pouco mais alto ao levantar do sofá.
Por mais que fosse difícil, Charlotte permaneceu em silêncio enquanto ouvia a discussão entre mãe e filho. Passou a mão no ombro do irmão caçula e puxou Anthony para mais perto.
― Peter disse a verdade. ― Charlotte esticou a mão ao cumprimentá-la, mas recolheu assim que Dayanne se afastou. ― A senhora não precisava ficar tão brava, isso pode lhe dar algumas rugas. ― Apontou para as linhas de expressão na testa franzida da sogra.
― Peter, por que você trouxe uma garota tão...
Dayanne gesticulou fracamente para a moça com vestido branco na altura dos joelhos.
― Camponesa? ― Charlotte aumentou o tom da voz. ― Pobre? m*l vestida? ― Os olhos de âmbar brilhavam, as sobrancelhas baixas e juntas fitavam em Dayanne ― Pode falar, senhora Alcântara!
― Sai da minha casa! ― Expulsou com uma voz fria e ríspida. ― Onde está a sua educação, garota? Eu ia dizer "tão cedo."
Era constrangedor passar por toda aquela situação para recuperar a sua casa. Charlotte foi movida para longe dos outros peões, não tinha como recuar, era uma peça fraca e sem proteção. Olhou para Peter com uma fisionomia compungida.
― Que gritaria é essa?
O silêncio se perpetuou logo que Daisy entrou na sala. A mulher alta tinha pele um pouco mais clara que a dona da fazenda.
― Essa foi a educação que eu dei a vocês? ― Mirou em Dayanne e em seguida vasculhou o sorriso no canto dos lábios de Peter. ― Você acha isso engraçado, Peter? ― Franziu o cenho.
― Eu só estou feliz porque casei.― Entrelaçou os dedos de Charlotte e a trouxe para perto.― Essa é minha esposa!
― Muito prazer! ― Daisy cumprimentou Charlotte com um abraço apertado. ― Você é muito bonita!
Os grandes olhos castanhos observavam a criança que não saía de perto de Charlotte. Afagou o topo da cabeça de Anthony.
― E esse garotinho lindo, como se chama?
― Anthony! ― O menino continuou perto da irmã que o abraçava.
― Você gosta de bolo de milho? ― Daisy se agachou na altura da criança.
― Gosto! ― Anthony continuou ao lado de Charlotte
― Peter, leve-os até a cozinha para tomar café, quero conversar com a sua mãe.
Daisy esperou até que eles saíssem da sala e encarou a dona da casa.
― Senta aí, Dayanne!
Apontou para o sofá com um luxuoso estofado próximo à lareira com revestimentos de tijolinhos.
― O que está acontecendo com você?
― Eu não posso aceitar isso, mãe!
― Estou vendo que você esqueceu de tudo o que você e Noah enfrentaram para ficarem juntos. ― Daisy relaxou no sofá.― Parece que voltei no tempo, juro que lembrei do dia em que sua sogra fez a mesma coisa com você.
― Não é a mesma coisa, mãe! ― Encolheu os ombros com uma expressão cautelosa. ― Noah eu nos conhecíamos desde criança. Peter não conhece essa garota, ele está fazendo isso pra afrontar o pai.
― Aí está o "X" da questão, minha filha! ― Daisy cruzou as pernas. ― Você fugiu com o Noah porque os pais dele não aceitavam o casamento de vocês.
― Noah e eu estávamos apaixonados! O Peter só está usando essa garota.
― Será? ― As mãos robustas ajeitaram o tecido da blusa lilás. Descansou os braços sobre a barriga saliente. ― Dê tempo ao tempo, minha filha! Vamos ver até onde isso vai.
― Eu não quero estar nessa casa quando Noah souber disso, não mesmo! Ele queria que Peter casasse com a filha do coronel Becker.
― Os homens podem fazer planos, mas Deus é quem dirige os passos.
― Se o Noah soubesse desse provérbio, não faria tudo do jeito dele. ― Dayanne ficou em pé. ― Vou aproveitar e trabalhar um pouco, preciso ver como estão as vendas na minha loja no Centro.
― Deixa que eu cuido de tudo! ― Os olhos castanhos a acompanhavam com orgulho.
Daisy amava o jeito como sua filha superou todos os obstáculos que a vida lhe impôs e manteve a fé para lutar e conquistar tudo aquilo o que sempre sonhou.
Na cozinha, Anthony comeu a segunda fatia de bolo, bebeu um gole do suco de laranja e pegou um dos biscoitos amanteigados. Do outro lado, Peter devorou a última fatia, tinha um traço de humor no rosto quadrado. O sorriso se desfez ao fixar nos olhos profundos, Charlotte não comeu nada durante o café da manhã. Ela ficou dispersa em seus pensamentos.
― Charlotte, come alguma coisa ― disse a voz aveludada de barítono ― você está muito magra.
― Você está triste por causa daquela moça que brigou com você? ― Anthony prestou atenção na irmã.
Por mais que se esforçasse, Charlotte não conseguia ocultar as emoções.
― Não, não! ― Forçou um sorriso. ― É que você e Peter comeram quase tudo.
Charlotte era grata pela inocência do irmão. Olhou em volta da mesa, pegou uma das torradas e mordeu um pedaço.
― Venham! Quero mostrar a fazenda para vocês.
Peter se espreguiçou após se levantar e seguiu para a porta da cozinha. Esperou até que Anthony e Charlotte o acompanhasse.
A fazenda Paradise tinha uma extensa área de terras com várias lavouras e uma grande produtora de leite. Peter lhes contou a história de quando seus bisavós portugueses chegaram à cidade no ciclo cafeeiro.
― Essa fazenda tem mais de 200 anos. ― Ostentou a voz rouca. ― Meu bisavô era um dos barões do café do século XIX.
― Então você já nasceu em berço de ouro?
― Praticamente! ― Os lábios se esticaram em uma linha fina.
Anthony correu até uma das árvores cítricas do pomar e escalou com facilidade, em poucos segundos estava em um dos galhos mais altos. Pegou uma tangerina madura.
― Ele vai cair ― reclamou a voz grave.
― Não vai! ― Charlotte riu ao ver o desespero nos olhos negros. ― Anthony e eu sempre subimos em árvores. Estamos acostumados com a vida na roça.
Os olhos de âmbar cintilavam em meio ao sorriso, enfim arrancou um sorriso de Charlotte. Os dedos longos de Peter acariciaram a pele viçosa do rosto dourado.
― Peter, espere! ― Daisy pediu com um suspiro e respirou fundo para se recuperar da longa caminhada. ― O seu pai chegou, ele quer conversar com você.
Era hora de enfrentar a fúria chamada Noah. Embora Peter achasse engraçado como sua mãe reagiu à notícia do seu casamento, ele sabia que teria uma longa e exaustiva discussão com o pai.
― Charlotte, acompanhe a minha avó! Eu falo com você mais tarde.
Eram quase 9 da noite quando Charlotte colocou o irmão na cama. Contou-lhe uma história e ficou ao lado de Anthony até que ele pegasse no sono. Aos poucos os olhos se fechavam, algumas batidas à porta a despertaram. Ela cobriu o menino, apagou a luz do abajur e caminhou até a porta.
― O que você quer? ― perguntou em voz baixa pela fresta da porta. ― Eu estava quase dormindo.
Um dos braços musculosos de Peter estava apoiada no batente da porta um pouco acima da cabeça de Charlotte.
― Você tem que dormir no meu quarto.
― Isso não faz parte do nosso acordo, Peter!
― Claro que faz! ― O tom era afável.― Vamos dividir o mesmo quarto, mas dormimos separados.