O banheiro era pequeno.
A luz fraca piscava levemente, como se até o lugar sentisse a tensão no ar.
Sofia estava parada, imóvel.
O teste em sua mão tremia.
Seu coração batia tão forte que parecia ecoar nas paredes.
— Não… — ela sussurrou, quase sem voz. — Não… não pode ser…
Mas era.
Duas linhas.
Claras.
Inquestionáveis.
---
O mundo dela… parou.
---
Ela deu um passo para trás, encostando na parede fria.
A respiração ficou irregular.
Os olhos começaram a encher de lágrimas.
— Não… não… isso não tá acontecendo…
Mas estava.
E ela sabia exatamente quando tinha acontecido.
Aquela noite.
A única vez.
---
— Meu Deus…
A mão foi automaticamente para a barriga, ainda sem nenhuma mudança visível… mas que agora carregava tudo.
Tudo.
---
Desespero.
Medo.
Incerteza.
---
— O que eu vou fazer…? — a voz saiu quebrada.
Ela não tinha dinheiro.
Não tinha estrutura.
Não tinha respostas.
E pior…
não tinha ele.
---
Ela saiu do banheiro quase sem sentir o chão.
Precisava de alguém.
Precisava falar.
---
Horas depois…
Sofia estava sentada na cama simples do pequeno quarto que dividia com a melhor amiga.
Os olhos vermelhos.
As mãos ainda trêmulas.
---
— Sofia, você tá me assustando — disse a amiga, preocupada. — Fala logo o que aconteceu.
Sofia engoliu seco.
Olhou pra ela.
E então… disse:
— Eu tô grávida.
---
Silêncio.
Pesado.
---
— O quê?!
A amiga arregalou os olhos, em choque.
— Como assim grávida?!
Sofia começou a chorar.
— Eu fiz o teste… deu positivo…
A amiga levou a mão à boca.
Tentando processar.
— Mas… mas… você… você nem…
E então caiu a ficha.
---
— Espera… — ela estreitou os olhos. — Sofia…
A voz ficou mais baixa.
— Foi… aquele cara daquela noite?
---
Sofia fechou os olhos com força.
As lágrimas escorreram.
— Foi.
---
— Meu Deus… — a amiga passou a mão no cabelo, nervosa. — Você disse que nem conhecia ele!
— E eu não conheço! — Sofia respondeu, desesperada. — Eu não sei quem ele é… eu não sei o nome dele… nada!
A voz dela quebrou completamente.
— Eu era virgem… — confessou, quase num sussurro. — Eu nunca tinha ficado com ninguém…
O quarto ficou em silêncio.
A amiga olhou pra ela com ainda mais preocupação.
---
— E agora? — Sofia perguntou, perdida. — O que eu vou fazer?
As lágrimas caíam sem controle.
— Eu não sei quem é ele… não sei onde encontrar… eu não sei nem se ele… se ele lembra de mim…
Ela levou as mãos ao rosto.
— Eu tô perdida…
---
A amiga se aproximou, sentando ao lado dela.
Segurou suas mãos.
— Calma… a gente vai pensar em alguma coisa.
— Como?! — Sofia olhou pra ela, completamente fragilizada. — Como que eu vou procurar um homem que eu nem sei o nome?
---
A pergunta ficou no ar.
Sem resposta.
---
— Você disse que ele tava naquele clube… — a amiga falou, tentando organizar as ideias. — Talvez alguém saiba quem ele é.
Sofia balançou a cabeça rapidamente.
— Não… aquele lugar… aquelas pessoas… não é gente normal…
A voz dela tremeu.
— Eu senti isso naquela noite.
---
E sentiu mesmo.
O perigo.
O poder.
A intensidade.
---
— E se ele for alguém importante? — a amiga continuou. — Rico… poderoso…
Sofia soltou uma risada fraca, sem humor.
— Melhor ainda… — murmurou. — Porque aí mesmo é que eu nunca vou conseguir chegar perto.
---
Silêncio de novo.
---
A mão dela voltou para a barriga.
Ainda pequena.
Ainda invisível.
Mas já mudando tudo.
---
— Eu não sei se eu consigo… — ela sussurrou.
A amiga apertou sua mão.
— Você não tá sozinha.
---
Sofia respirou fundo.
Tentando se acalmar.
Mas no fundo…
ela sabia.
---
Aquilo não era só uma gravidez.
Era o início de algo muito maior.
Muito mais perigoso.
---
E, em algum lugar da cidade…
sem saber de nada…
o homem que mudaria completamente sua vida…
ainda a procurava.