Duas linhas

682 Palavras
O banheiro era pequeno. A luz fraca piscava levemente, como se até o lugar sentisse a tensão no ar. Sofia estava parada, imóvel. O teste em sua mão tremia. Seu coração batia tão forte que parecia ecoar nas paredes. — Não… — ela sussurrou, quase sem voz. — Não… não pode ser… Mas era. Duas linhas. Claras. Inquestionáveis. --- O mundo dela… parou. --- Ela deu um passo para trás, encostando na parede fria. A respiração ficou irregular. Os olhos começaram a encher de lágrimas. — Não… não… isso não tá acontecendo… Mas estava. E ela sabia exatamente quando tinha acontecido. Aquela noite. A única vez. --- — Meu Deus… A mão foi automaticamente para a barriga, ainda sem nenhuma mudança visível… mas que agora carregava tudo. Tudo. --- Desespero. Medo. Incerteza. --- — O que eu vou fazer…? — a voz saiu quebrada. Ela não tinha dinheiro. Não tinha estrutura. Não tinha respostas. E pior… não tinha ele. --- Ela saiu do banheiro quase sem sentir o chão. Precisava de alguém. Precisava falar. --- Horas depois… Sofia estava sentada na cama simples do pequeno quarto que dividia com a melhor amiga. Os olhos vermelhos. As mãos ainda trêmulas. --- — Sofia, você tá me assustando — disse a amiga, preocupada. — Fala logo o que aconteceu. Sofia engoliu seco. Olhou pra ela. E então… disse: — Eu tô grávida. --- Silêncio. Pesado. --- — O quê?! A amiga arregalou os olhos, em choque. — Como assim grávida?! Sofia começou a chorar. — Eu fiz o teste… deu positivo… A amiga levou a mão à boca. Tentando processar. — Mas… mas… você… você nem… E então caiu a ficha. --- — Espera… — ela estreitou os olhos. — Sofia… A voz ficou mais baixa. — Foi… aquele cara daquela noite? --- Sofia fechou os olhos com força. As lágrimas escorreram. — Foi. --- — Meu Deus… — a amiga passou a mão no cabelo, nervosa. — Você disse que nem conhecia ele! — E eu não conheço! — Sofia respondeu, desesperada. — Eu não sei quem ele é… eu não sei o nome dele… nada! A voz dela quebrou completamente. — Eu era virgem… — confessou, quase num sussurro. — Eu nunca tinha ficado com ninguém… O quarto ficou em silêncio. A amiga olhou pra ela com ainda mais preocupação. --- — E agora? — Sofia perguntou, perdida. — O que eu vou fazer? As lágrimas caíam sem controle. — Eu não sei quem é ele… não sei onde encontrar… eu não sei nem se ele… se ele lembra de mim… Ela levou as mãos ao rosto. — Eu tô perdida… --- A amiga se aproximou, sentando ao lado dela. Segurou suas mãos. — Calma… a gente vai pensar em alguma coisa. — Como?! — Sofia olhou pra ela, completamente fragilizada. — Como que eu vou procurar um homem que eu nem sei o nome? --- A pergunta ficou no ar. Sem resposta. --- — Você disse que ele tava naquele clube… — a amiga falou, tentando organizar as ideias. — Talvez alguém saiba quem ele é. Sofia balançou a cabeça rapidamente. — Não… aquele lugar… aquelas pessoas… não é gente normal… A voz dela tremeu. — Eu senti isso naquela noite. --- E sentiu mesmo. O perigo. O poder. A intensidade. --- — E se ele for alguém importante? — a amiga continuou. — Rico… poderoso… Sofia soltou uma risada fraca, sem humor. — Melhor ainda… — murmurou. — Porque aí mesmo é que eu nunca vou conseguir chegar perto. --- Silêncio de novo. --- A mão dela voltou para a barriga. Ainda pequena. Ainda invisível. Mas já mudando tudo. --- — Eu não sei se eu consigo… — ela sussurrou. A amiga apertou sua mão. — Você não tá sozinha. --- Sofia respirou fundo. Tentando se acalmar. Mas no fundo… ela sabia. --- Aquilo não era só uma gravidez. Era o início de algo muito maior. Muito mais perigoso. --- E, em algum lugar da cidade… sem saber de nada… o homem que mudaria completamente sua vida… ainda a procurava.
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