Sem saída

700 Palavras
Os dias passaram. Lentos. Pesados. Diferentes. --- Sofia já não era mais a mesma. O corpo ainda parecia igual para qualquer outra pessoa… mas para ela, tudo tinha mudado. Havia um cansaço constante. Enjoos inesperados. E um medo silencioso que não a deixava em paz. --- Na frente do espelho, ela levantou levemente a blusa. A barriga ainda era discreta. Quase nada. Mas ali. Presente. Real. --- Ela passou a mão devagar pelo local. Respirou fundo. — Eu vou dar um jeito… — sussurrou, mais pra si mesma do que pra qualquer outra coisa. Mas nem ela acreditava totalmente naquilo. --- Naquela noite, o clube estava cheio novamente. Mas Sofia não se sentia mais parte daquele lugar. Os olhares incomodavam mais. O ambiente parecia mais pesado. E seu corpo… mais frágil. --- — Sofia! — chamou o gerente, do outro lado do salão. — A dona quer falar com você. Agora. O coração dela apertou. Forte. --- Ela caminhou até a sala. Cada passo parecia mais difícil. Algo dentro dela… já sabia. --- A porta estava entreaberta. Ela bateu de leve. — Pode entrar — veio a voz fria lá de dentro. --- A dona do clube estava sentada atrás da mesa. Elegante. Impecável. Intocável. --- Seus olhos percorreram Sofia de cima a baixo. Analisando. Julgando. --- — Sente-se — disse, sem emoção. Sofia obedeceu. As mãos suavam. --- O silêncio durou alguns segundos. Longos demais. --- — Eu vou ser direta — a mulher começou. Fria. Calculista. — Você não está mais adequada para trabalhar aqui. --- O mundo pareceu inclinar. — O quê…? — Sofia sussurrou, sem entender. --- A mulher cruzou as pernas. — Esse lugar exige uma certa… imagem. Se inclinou levemente para frente. — E você não atende mais a esse padrão. --- Sofia sentiu o coração disparar. — Eu… eu não entendi… Mas no fundo… entendeu. --- O olhar da mulher desceu, sutilmente, até a região da barriga. Quase imperceptível. Mas suficiente. --- — Não se faça de ingênua — disse, sem paciência. — Esse tipo de situação não combina com o ambiente do clube. --- O ar sumiu dos pulmões de Sofia. --- — Você está me demitindo… por isso? — a voz saiu falha. --- A mulher deu um pequeno sorriso frio. — Estou te dispensando porque você já não representa a imagem que vendemos aqui. --- Era pior. Muito pior. --- Sofia engoliu seco. Os olhos começaram a arder. — Eu preciso desse emprego… A voz saiu baixa. Quase um pedido. --- A mulher não se comoveu. Nem por um segundo. --- — Isso não é problema meu. Ela pegou alguns papéis na mesa. — Você pode pegar o que é seu e sair hoje mesmo. --- Silêncio. --- Tudo desmoronando. De uma vez. --- Sofia levantou devagar. As pernas fracas. O coração apertado. --- — Eu… trabalhei direito… eu nunca… — E não estamos discutindo isso — a mulher cortou, fria. — Você não serve mais para esse lugar. --- Aquilo doeu mais do que deveria. Mais do que palavras comuns. Era desprezo. Era descarte. --- Sofia assentiu lentamente. Sem forças para discutir. Sem forças para implorar mais. --- — Entendi… --- Ela virou. E saiu. --- O corredor parecia mais longo. Mais vazio. Mais silencioso. --- Quando chegou ao vestiário, fechou a porta atrás de si. E então… desabou. --- As lágrimas vieram sem controle. O corpo tremia. A mão foi direto para a barriga. --- — Eu não sei o que fazer… — ela chorou. — Eu não sei… --- Sem emprego. Sem dinheiro. Sem apoio suficiente. E com uma vida crescendo dentro dela. --- Minutos depois… ela saiu do clube. Sem uniforme. Sem rumo. --- A noite estava fria. A rua movimentada. Mas Sofia se sentia completamente sozinha. --- Caminhou sem direção. Com os pensamentos bagunçados. Com o coração pesado. --- Até que… a visão começou a falhar. --- O corpo fraquejou. --- — Não… — ela tentou respirar fundo. Mas o ar não vinha direito. --- A mão apertou a barriga. O medo tomou conta. --- E então… tudo escureceu. --- Seu corpo caiu na calçada. Inconsciente. Vulnerável. --- E o destino… finalmente se movia novamente.
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