Os dias passaram.
Lentos.
Pesados.
Diferentes.
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Sofia já não era mais a mesma.
O corpo ainda parecia igual para qualquer outra pessoa… mas para ela, tudo tinha mudado.
Havia um cansaço constante.
Enjoos inesperados.
E um medo silencioso que não a deixava em paz.
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Na frente do espelho, ela levantou levemente a blusa.
A barriga ainda era discreta.
Quase nada.
Mas ali.
Presente.
Real.
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Ela passou a mão devagar pelo local.
Respirou fundo.
— Eu vou dar um jeito… — sussurrou, mais pra si mesma do que pra qualquer outra coisa.
Mas nem ela acreditava totalmente naquilo.
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Naquela noite, o clube estava cheio novamente.
Mas Sofia não se sentia mais parte daquele lugar.
Os olhares incomodavam mais.
O ambiente parecia mais pesado.
E seu corpo… mais frágil.
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— Sofia! — chamou o gerente, do outro lado do salão. — A dona quer falar com você. Agora.
O coração dela apertou.
Forte.
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Ela caminhou até a sala.
Cada passo parecia mais difícil.
Algo dentro dela… já sabia.
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A porta estava entreaberta.
Ela bateu de leve.
— Pode entrar — veio a voz fria lá de dentro.
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A dona do clube estava sentada atrás da mesa.
Elegante.
Impecável.
Intocável.
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Seus olhos percorreram Sofia de cima a baixo.
Analisando.
Julgando.
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— Sente-se — disse, sem emoção.
Sofia obedeceu.
As mãos suavam.
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O silêncio durou alguns segundos.
Longos demais.
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— Eu vou ser direta — a mulher começou.
Fria.
Calculista.
— Você não está mais adequada para trabalhar aqui.
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O mundo pareceu inclinar.
— O quê…? — Sofia sussurrou, sem entender.
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A mulher cruzou as pernas.
— Esse lugar exige uma certa… imagem.
Se inclinou levemente para frente.
— E você não atende mais a esse padrão.
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Sofia sentiu o coração disparar.
— Eu… eu não entendi…
Mas no fundo… entendeu.
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O olhar da mulher desceu, sutilmente, até a região da barriga.
Quase imperceptível.
Mas suficiente.
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— Não se faça de ingênua — disse, sem paciência. — Esse tipo de situação não combina com o ambiente do clube.
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O ar sumiu dos pulmões de Sofia.
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— Você está me demitindo… por isso? — a voz saiu falha.
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A mulher deu um pequeno sorriso frio.
— Estou te dispensando porque você já não representa a imagem que vendemos aqui.
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Era pior.
Muito pior.
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Sofia engoliu seco.
Os olhos começaram a arder.
— Eu preciso desse emprego…
A voz saiu baixa.
Quase um pedido.
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A mulher não se comoveu.
Nem por um segundo.
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— Isso não é problema meu.
Ela pegou alguns papéis na mesa.
— Você pode pegar o que é seu e sair hoje mesmo.
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Silêncio.
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Tudo desmoronando.
De uma vez.
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Sofia levantou devagar.
As pernas fracas.
O coração apertado.
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— Eu… trabalhei direito… eu nunca…
— E não estamos discutindo isso — a mulher cortou, fria. — Você não serve mais para esse lugar.
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Aquilo doeu mais do que deveria.
Mais do que palavras comuns.
Era desprezo.
Era descarte.
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Sofia assentiu lentamente.
Sem forças para discutir.
Sem forças para implorar mais.
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— Entendi…
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Ela virou.
E saiu.
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O corredor parecia mais longo.
Mais vazio.
Mais silencioso.
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Quando chegou ao vestiário, fechou a porta atrás de si.
E então…
desabou.
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As lágrimas vieram sem controle.
O corpo tremia.
A mão foi direto para a barriga.
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— Eu não sei o que fazer… — ela chorou. — Eu não sei…
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Sem emprego.
Sem dinheiro.
Sem apoio suficiente.
E com uma vida crescendo dentro dela.
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Minutos depois…
ela saiu do clube.
Sem uniforme.
Sem rumo.
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A noite estava fria.
A rua movimentada.
Mas Sofia se sentia completamente sozinha.
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Caminhou sem direção.
Com os pensamentos bagunçados.
Com o coração pesado.
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Até que…
a visão começou a falhar.
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O corpo fraquejou.
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— Não… — ela tentou respirar fundo.
Mas o ar não vinha direito.
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A mão apertou a barriga.
O medo tomou conta.
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E então…
tudo escureceu.
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Seu corpo caiu na calçada.
Inconsciente.
Vulnerável.
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E o destino…
finalmente se movia novamente.