Capítulo 3

1385 Palavras
Samantha Bastos Eu sempre tive uma vida estável, não nasci em berço de ouro, mas minha família nunca passou sufoco. Éramos eu, minha mãe e meu pai, até que o meu pai morreu em uma overdose. Foi algo que chocou todo mundo, ninguém sabia que o meu pai era usuário, ele nem sequer dava indícios. Eu tinha uns treze anos quando ele faleceu e de lá para cá tento animar minha mãe como posso, após o ocorrido ela entrou em um quadro de depressão severa, mas graças a Deus hoje em dia ela já está bem melhor, só tem algumas crises de ansiedade às vezes. Quando meu pai morreu o governo passou a pagar uma pensão até que eu fizesse os meus vinte e um anos, minha mãe também trabalhava então por mais que estivemos recebendo menos que quando meu pai ainda estava entre nós, conseguimos manter nossa vida Sou eu e dona Lúcia para sempre. Eu sempre fui uma criança criativa, estava sempre desenhando e era muito avançada para a minha idade, estava sempre pensando além. Quando eu era menor, amava pegar roupas velhas e tentar reformá-las dando uma nova vida a peças que seriam descartadas em breve. Moda é e sempre foi a minha paixão. Quando eu cresci decidi me profissionalizar nisso, por mais que minha mãe dissesse que não tinha muitas oportunidades para esse ramo de trabalho. Fiz o meu nome ser reconhecido enquanto ainda era uma universitária, uma coisa que os professores do ensino médio sempre dizem e é realmente verdade é que quanto mais próximo dos professores você for, mais oportunidades você terá. Eu me dediquei bastante, sempre fui uma das alunas mais participativas, fiz estágio no ateliê de uma professora e trabalhei alguns meses lá assim que terminei a faculdade. Hoje eu tenho o meu próprio ateliê, o Bastos' Fashion, onde eu faço os looks mais comentados dos maiores eventos do Brasil. — Você tem certeza que vai para esse lugar mesmo menina? — Minha mãe perguntou preocupada. — Tenho mãe, as fotos vão ficar lindas lá e segundo a Júlia é super seguro. A nova coleção vai arrasar, você vai ver. — Ela concordou sorrindo. Terminei de comer e me levantei apressada, dei um beijo na testa da minha mãe e saí praticamente correndo de casa. Eu tinha conhecido uma garota que estava crescendo no mundo da moda também, só que ela era modelo, eu mostrei para ela a nova coleção e quando ela me disse que morava na favela eu pensei "Por que não?" Em um consenso mútuo decidimos fazer as fotos lá, ela pediu permissão para o homem que comandava e segundo ela ele tinha aceitado. Acho que provavelmente ver vários traficantes vão me fazer lembrar do que me fez perder meu pai, mas eu tinha que enfrentar os meus demônios uma hora ou outra. Eu ia hoje e voltava hoje mesmo, por mais que a Júlia tivesse dito que eu podia dormir na casa dela, passaríamos o dia inteiro fotografando, éramos apenas eu, ela e uma outra amiga minha que era fotógrafa. Eu sabia maquiar bem, arrumar o cabelo dela não era um problema então não vi necessidade de arrastar mil pessoas para lá. Chamei um uber, fui o caminho inteiro em contato com a Júlia. O Uber me deixou a uns 50 metros da entrada da Rocinha, eu nem reclamei podia até imaginar o motivo do porque ele não queria se aproximar. A Júlia tava lá na frente me esperando, ao lado dela tinha três homens armados conversando. Nós nos cumprimentamos e subimos para a casa dela. Nós passamos cerca de uma hora fazendo a make e o cabelo dela, já eram cerca de sete e meia. Eu tinha acordado 5:00 da manhã a gente planejava fazer esse ensaio o mais rápido possível, descemos para buscar a Lívia quando a Júlia já estava pronta. Tiramos as fotos perto da entrada do morro, em um muro pichado com uma arte colorida extremamente linda e em vários outros pontos dali que eram legais. — O que você achou das fotos? — Lívia me mostra. Sorri ao ver o quanto ficaram lindas. — Eu amei, também né, com a Júlia não tem como nenhuma sair feia. A gente riu vendo todas as fotos e tiramos mais algumas antes de fazer uma pausa. Do outro lado da rua eu vi um homem me encarando, seu corpo era coberto por tatuagens, ele estava sem camisa deixando a maioria delas visível. Eu não pude deixar de me sentir incomodada com a forma como ele me olhava, ele sorriu e antes que eu pudesse ter qualquer reação aparente o amigo dele o chamou, ele saiu dali com o outro homem. — Quem era aquele do outro da rua? — Perguntei para Júlia. — Aquele é o Bg, é ele quem manda nas coisas por aqui. Um gato, não é? — E muito, era o que eu queria responder, mas só fiz uma careta e sorri. — Vamos almoçar? Tô quase caindo dura no chão. — Murmurei. Nós fomos almoçar em um barzinho e para completar o homem estava lá, ele não tirava os olhos de mim. Ou eu estava com uma melancia na cabeça, ou era muito bonita mesmo, porque ele simplesmente não desviava a vista. Como em um joguinho para ver quem cederia primeiro eu passei a encará-lo também, mas me deixei intimidar e desviei o olhar alguns minutos depois. — Vocês estão se comendo com os olhos. — Lívia falou me fazendo quase engasgar com a coca. — Você tá doida garota, aquele psicopata que fica me encarando. — Respondi. — Vai dizer que o psicopata não é um gostoso? Ele é. — Eu nem reparei nesse homem. — É, a gente tá vendo que você não tá reparando. A gente terminou de almoçar conversando normalmente até que um dos meninos que estava na mesa do Bg se levantou e caminhou na minha direção. — Aí mina, chefe quer bater um papo contigo. Chega lá na nossa mesa. — O homem falou aparentemente bem sério. — Não, obrigada pelo convite, mas não quero. — Respondi no mesmo instante. — Não era uma pergunta, ele quer tu lá. — Amiga, é melhor você ir para não rolar confusão, pode não ser nada. — Júlia murmurou. É, pode não ser nada ou pode ser tudo. Bufei e me levantei da cadeira, caminhei em direção a ele e parei do seu lado. Bg apontou para a cadeira vazia do seu lado e eu me sentei, encarei ele de perto vendo as íris castanho claro. Tinha alguns homens na mesa e todos ficaram me encarando como se eu fosse o pedaço de carne mais suculento do churrasco. — Você queria falar comigo. — Quebrei o silêncio entre nós. — Qual é o teu nome? — Samantha e o seu? — Samantha é nome de bruxa, vou te chamar de bruxa. Sorri com a sua resposta, levantei o olhar e percebi que ele continha um sorriso. — É Bg. — Ele respondeu a minha pergunta. — É tua primeira vez aqui, queria fazer a tua recepção, te levar para conhecer o morro. — Não quero. — Murmurei. — Mas eu quero e se eu quero, a gente vai. — Só por cima do meu cadáver. — Rebati. — Se você quer assim, eu posso te matar de tanto prazer, garanto que tu vai gostar de cada parada que eu fizer contigo. — Murmurou debochado, mas ainda assim aquilo mexeu comigo. — Você só pode estar louco se acha que eu deixaria você encostar em mim. — Gargalhei. — O que a gente vai fazer nesse "peão" pelo seu morro? Dependendo da sua resposta eu posso até pensar na possibilidade. — Fumar, t*****r e ver os lugares mais bonitos daqui. Tirando em vista que o cara era surreal de gostoso e a parte do t*****r me agradou e muito, mas não era para isso que eu vim aqui. — Eu tô aqui a trabalho, acho que isso você já sabe bem. — Quando você terminar o seu trabalho a gente vai, sou paciente. Não costumo desistir fácil das coisas que eu quero. — Beleza, você me leva para esse tour no morro e depois me deixa em paz então. De acordo? — De acordo, bruxa.
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