Capítulo 2

1019 Palavras
Bg Saí do morro sendo seguido por alguns vapores que também iam comigo, Pedrinho estava no banco do passageiro tagarelando sobre as coisas que os moleques faziam durante o treinamento e como as vendas estavam aumentando a cada dia que se passava. Eu m*l estava prestando atenção, mas quando escutei ele dizer "Quero que tu seja o padrinho." Eu me virei bruscamente e o encarei com dúvida, sabia nem que o cara tinha filho. — Tu tem filho? — Perguntei ainda sem acreditar, como eu não sabia daquilo? O Pedrinho é praticamente um piolho na minha cabeça. — Qual é Bg? Te falei semana passada que Cátia apareceu lá em casa de madrugada dizendo que estava grávida. — Concordei, voltei minha atenção à estrada e sorri. — E tu confiou? Ela te mostrou os exames, os bagulho tudo? — Perguntei. — Pelas contas é meu mesmo, quando fiquei com a mina' ela era virgem irmão. — Deve ser responsa então, vai assumir? — É meu filho, claro que vou, tá me achando com cara de cuzão? — Tô. — Respondi. Meu maior erro foi dar liberdade para esse donzelo. — Tô falando da mãe, seu o****o. Ele fez careta e ficou em silêncio por alguns minutos. Pedrinho era da hora, eu não chegava a confiar, Judas andava junto, comia junto, abraçava e ainda assim traiu. Pedrinho era praticamente o intermediário entre mim e os moleques, a maior parte do tempo era ele quem me passava a visão de como as coisas estavam, por mais que eu estivesse lá todos os dias, eu ainda não tinha poderes para estar em dois lugares ao mesmo tempo. É um menor da hora, entrou nessa para ajudar a mãe com o tratamento do câncer, um ano depois de eu assumir e de lá para cá ele vem sendo o mais perto que eu tive de um amigo. Raramente ele conseguia me arrastar para algum barzinho com geral, churrasco na laje, os bailes eu frequentava por livre e espontânea vontade, afinal de contas de longe eu vigiava as vendas no meio da multidão. Nunca gostei de muita mídia, procurei fazer o meu trabalho silenciosamente subindo cada degrau de cada vez, sendo um dos traficantes mais procurados do Brasil e tendo ordem de mandados de prisão em três países. Por trás de tanta simplicidade, a gente fazia milhões por ano aumentando o número a cada ano. Eu não pretendia virar o Pablo Escobar brasileiro, acho que isso ninguém conseguiria, o cara foi lendário, mas que eu iria deixar um legado aqui, eu iria. — Mas e aí, vai ou não ser o padrinho? — Tá chamando né, para quê eu vou negar? — Parceiro, você tem uma mania de responder uma pergunta com outra. Tu sabe que segundo o FBI isso é coisa de mentiroso, não sabe não? — Olhei para ele indignado. — Eu não vou nem responder isso. — Murmurei já respondendo. O caminho até a CDD não era muito longo, cerca de meia hora até chegarmos lá. Eu me mantinha centrado na pista a minha frente, tentando acompanhar o tanto de informação que Pedrinho ia me passando. Até nós finalmente chegarmos eu fiquei sabendo de todas as fofocas que tinham acontecido naquele morro, às vezes eu fico me perguntando se pago esse mané para gerenciar os menor ou olhar a vida dos outros. Assim que chegamos nossa entrada foi liberada, foi falado sobre a venda nos últimos meses, sobre alguns aliados que acabaram mortos ou presos e como se recompensaria a família. Ser bandido é uma coisa, agora ser filho da p**a ao ponto de não saber reconhecer quando um menor morre porque estava nessa vida é demais. Quando algo acontecia nós dávamos apoio, até porque para quem está enjaulado quem mais ajuda, mais ganha. Até o que aconteceu mais cedo foi abordado, mas é claro que ninguém perguntou muito. Entre todos aqui eu sempre fui o mais procurado, até mais que o chefe da facção. Para mim qualquer rolezinho na pista é porta aberta para cadeia, por isso até para sair do morro eu precisava de suporte dos vapores, era sempre um plano minucioso onde só eu sabia o trajeto, eles apenas me seguiam, só eram avisados da nossa saída na hora em que eu decidia sair. Nenhum cuidado é demais. Quando terminamos a reunião já era tarde, Pedro olhava para todo mundo como se tivesse vendo rapariga em todo canto, sempre atento. Nós entramos no carro e saímos de lá, eu tava morto de fome já, ia parar na primeira hamburgueria que eu visse no morro e comer o maior lanche que tivesse. — Você tá querendo matar o pai do seu afilhado!? — Já disse que não vou ser padrinho de ninguém. — Mentira! Quer que eu repita o que você disse? "Tá chamando né, para quê eu vou negar?" — Me imitou fazendo graça. — Da próxima vez vou trazer uma lancheira para merendar na escolinha. Sorri negando, o cara parecia um pateta. [...] — Amanhã a carga chega cedinho. — Pedrinho falava com a boca cheia. — E aquela parada da modelo que você disse que ia subir, quero ver de perto pra ter noção do que tá rolando. — Murmurei. — Acho que elas vão vir cedo também. — Hum. Então já é, amanhã quero adiantar as coisas logo pra sossegar a tarde. — Churrasquinho na conta do patrão. — Mas eu tô dando muita ousadia mesmo, se toca ô. — Dei um peteleco na cabeça dele. Assim que terminamos de comer eu levei o Pedro em casa e fui para a minha, quando cheguei não escutei nem um piu da Lavínia, a garota tinha sumido o dia inteiro. Quem vê de fora acha que eu moro sozinho nessa casa, para a minha irmã ficar um dia inteiro dentro de casa ela tem que estar doente, se não, não é ela. Tomei um banho rápido antes de me jogar na cama só de cueca, abri a Netflix e fiquei procurando por algum filme, passei tanto tempo procurando que o sono bateu na minha porta. >>> @aut.izzamarques
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