Agora é a hora.
Depois das 18:00 horas, temos que aguardar um pouco de tempo para que os moradores dos outros apartamentos já estejam em suas residências. Nós descemos 5 lances de escadas com muito silêncio, de dentro dos apartamentos dá para ouvir os ruídos de fora. Demoramos muito, mas, enfim, chegamos ao térreo. O lado de fora está escuro, e como Cristiano falou, não há ninguém. Por muitos anos nos acostumamos com o escuro, conseguimos enxergar, não muito bem, óbvio, não somos morcegos, mas o suficiente para podermos nos situar.
Cristiano faz sinal para a gente seguir ele. Não podemos ir diretamente para o bloco 5, temos que rodear por trás de todos os blocos para chegar lá e torcer para que ninguém esteja nos vendo, mas como só acendem os lampiões perto das 19:00 horas, temos tempo para fazer tudo certo.
Vemos a nossa esperança de estar longe daquele lugar bem à frente. O canto do muro está repleto de lixo e entulho, eu nunca tinha ido ali, e nem quis. É aí que eu percebo o porquê de todos irem para lá para fazerem a suas badernas. Atrás deste bloco tem uma espécie de garagem.
Cristiano começa a retirar o lixo de um determinado ponto, mas alguns flashes de luz surgem da esquina e nós corremos imediatamente para a garagem.
Ao entrarmos, percebo que não é uma garagem, mas um espaço para eventos, está m*l acabado, mesmo escuro, eu consigo perceber algumas coisas. Há passagens lá dentro, como se fossem para quartos e banheiros incompletos, também estava cheio de lixo ao redor.
Um dos capangas passa por onde viemos, ele é o último vigia da tarde, às sete da noite aparecerão os outros. O tempo está passando e nós precisamos sair logo daqui.
Por um descuido, Lila se esbarra em umas latas e faz barulho, chama a atenção do vigia e ele acaba voltando-se para cá, em nossa direção. Ele segura na a**a e grita:
"Quem tá aí?"
— Oh, meu Deus — ela sussurra com as mãos a tapar a boca. — Me desculpem.
— Tudo bem, meu amor. Eu cuido disto — Cristiano sussurra de volta. — Vão se esconder nos quartos, depressa.
Nós vamos sem pestanejar, e com cuidado para não fazermos mais barulho. Metade entra em um espaço vazio, metade em outro.
O vigia chega e aponta a lanterna para dentro.
— Cristiano? Tá fazendo o que aqui? — pergunta o vigia já descansado.
— Estava de vigia, só esperando o meu turno acabar.
— Eu também, mas o turno já acabou... — diz o homem, mas ele hesita. — Espera, de vigia aqui dentro? — não sei se estou certo, já reconheço aquele tom de voz, ele insinua que o Cristiano veio aqui para ficar com alguém. — Quem tá aí com você?
— Olha, cara, eu só vim tirar um cochilo... — Cristiano não entende que tem que entrar no jogo, nesse caso devo improvisar.
— Por que está escondendo, rapaz? — insiste o homem, ele fala mais alto: — Vamos, quem está aí, quero saber, nunca vi Cristiano pegar ninguém.
O homem entra mais para dentro do espaço e eu não espero mais um segundo e saio de dentro do quarto.
— Sou eu — digo. — Satisfeito? Será que você pode deixar a gente continuar?
O vigia aponta a lanterna para mim e diz aos risos:
— O novato? — eu coloco a mão direita no rosto para impedir a luz me cegar, mas faço de propósito para esboçar a faixa amarela no meu pulso. — Ah, por isso que você não quis que ninguém soubesse? Essa coragem eu não tenho — ele abaixa a lanterna. — Eu vou deixar vocês em paz, sejam rápidos que daqui a pouco vão chegar mais vigias para estragar o barato de vocês, e espero mesmo que o novato não esteja infectado, senão os dois morrem.
O vigia vai embora e finalmente podemos respirar tranquilos.
— Muito esperto — diz Cristiano a me dar umas palmadas amigáveis no ombro. — Eu ia m***r ele.
Finalmente um hétero, Cristiano.
Os outros saem de onde estão escondido e me dão as congratulações pelo que acabo de fazer.
Está na hora de atravessar um buraco no muro.
***
Atravessamos e agora estamos na rua, pegamos um caminho no meio do matagal e o Cristiano está a conduzir. Ele conhece muito daquela área. Cada um de nós está com uma a**a carregada, até mesmo a Lila, o Cristiano a ensinava toda quinta. Ele me contou quando ele trouxe as armas para mim
Nós corremos, mas Lila não está acostumada com este exercício e precisa parar um pouco para apenas andar. No decorrer do tempo, as trovoadas ficam mais intensas, os ventos mais fortes e o breu toma ainda mais espaços, somos obrigados a ligar as lanternas.
— Cristiano, para onde estamos indo? — pergunta Adam.
— Conheço um lugar seguro onde a gente pode dormir esta noite — responde o rapaz.
A gente anda com muita pressa. O vento está agitando as árvores de uma maneira que as faz dançarem como roqueiras desvairadas. Os nossos cabelos balançam como se fossem saltar da cabeça, só se aquietam quando começa a chover e os deixa completamente ensopados.
— Não foi assim que imaginei quando saísse daquele quarto — grita Lila ainda a sorrir. Ela é a última pessoa a seguir o Cristiano.
— Acredite, assim é melhor — digo para ela.
— Eu sei. Não tô achando r**m — me diz Lila —, na verdade, eu tô amando...
De surpresa, um raio cai numa árvore próxima que pega fogo no mesmo instante.
— Uai! — grita Lucas ao se afastar. Todos param para olhar.
— Vamos, gente — apressa Adam.
— Meu Deus, eu vi um raio bem de perto, magnífico — diz Lila parada a admirar a árvore pegar fogo.
— Tá doida, menina — grita Lucas a puxar Lila para longe. — Corre!
Assim que correram, a árvore se partiu ao meio e caiu metade no caminho.
Lucas e eu seguramos Lila pelas mãos, não podemos deixar ela sozinha. Ela é lúcida e inteligente, mas tem uma maturidade atrasada e vai ter um comportamento diferente do nosso.
Cristiano está a focar no caminho, n******e dar atenção a ela, por isso ela está sob nossa responsabilidade. Seguimos caminha pela lama, está escorregadio, mas estamos preparados.