Jota narrando
Eu sou o Jeferson Martins, vulto Jota, e tenho 21 anos. Sempre morei no morro da babilônia com a minha mãe, sempre foi só eu e ela. E por ela, entrei no crime cedo. Mas não só por ela, não posso ser hipócrita. Eu queria ter as minhas coisas também, e um trampo de menor aprendiz que eu conseguisse, SE eu conseguisse, não supriria nem a ajuda que a minha mãe necessitava. Eu já tava cansado de ver ela se matando por nóis dois.
Então procurei o cachorrão e pedi uma oportunidade. Ele me deu, gostou de mim, eu me destaquei rápido. Eu via que toda vez que tínhamos que entregar o balancete das vendas de drogas depois do baile era uma confusão, uma desorganização dos gerentes das bocas, que eram comandados, inclusive pelo sub do dono. Fiquei meio pá de falar alguma coisa, mas cheguei um dia no Cachorrão e dei a visão nele, sem falar nada de ninguém, apenas uns lances sobre organizar melhor as paradas. E assim, ele me deu o cargo de gerente geral. E então eu passei a chefiar todas as bocas, com os gerentes de cada boca se reportando diretamente a mim.
Conheci a Bianca eu era novinho, com 16 anos. Na verdade, já a conhecia né, já ficava vendo ela passar. Mas a gente começou a se envolver só quando eu tinha 17 e ela 16, e um ano depois, nos meus 18 anos, eu entrei para o crime. Ela chorou muito, disse que não queria mais, ficou umas duas semanas sem falar comigo, papo reto. Me deu canseira mesmo. Eu ia todo dia na porta dela dizer que eu não ia desistir nela e que nem ia mudar com ela. A mãe dela, falou um bolão mas disse que não iria se envolver na decisão dela, que apesar da Bianca ainda ser maior de idade, proibir nunca resolveria nada, e quem teria que decidir se queria continuar ou não seria ela. Ela só iria se envolver se eu forças ela a algo, aí ela iria até o Cachorrão me dedurar, e o cachorrão jamais aceitaria uma patifaria dessas, e eu também jamais faria qualquer coisa contra a vontade dela. Se ela me largasse ela só não ia ficar com mais ninguém desse morro, porque eu ia embaçar e não ia deixar, e se fosse preciso eu sentava o braço no s a f a d o.
Que por falar em braço, o pai é fortão mesmo. Comecei a me exercitar desde cedo, fazia os meus próprios pesos, tinha a minha barra de ferro, depois com a condição melhor eu fui para uma academia aqui do morro mesmo. Eu já sou altão e todo largo, tenho 1 metro e 98 sentimentos, praticamente dois metros. Sempre gostei de treinar pesado e o corpo veio, a minha ossatura já é larga treinando então, fiquei grandão, fiz várias tatuagens pelo corpo, e pretendo ainda fazer mais, no momento tenho só um lado do corpo, mas pretendo fazer o outro também, tem que ser aos poucos, o bagulho dói a beça e custa caro, se você quiser um bom profissional, claro. No mais de aparência, eu tenho olhos azuis e cabelos castanhos bem claros, que inclusive corto baixinho, e até mesmo o meu bigode fino também é claro.
No fim a Bianca cedeu e a gente continuou de boa. De boa assim né, as p u t a joga mesmo, as vezes eu prefiro ignorar para não levar ninguém para o desenrolo, mas ela fica p u t a da vida comigo. Com o cargo de gerente geral da boca aí é que o bagulho cresceu mesmo. Elas sempre jogam charadinha para a Bianca, e eu fico cobrando postura dela de ficar dando moral para elas e não deixar se afetar no bagulho, porque o bagulho é eu e ela, nois tem que confiar um no outro.
Mas as brigas estão constantes, o trabalho mais pesado, passo mais tempo for a. Depois que a mãe dela foi embora eu meio que me instalei na casa dela. Mantenho o meu barraco para a minha veia ta ligado, e fico com a Bianca no dela, assim todo mundo tem a sua privacidade.
Gosto de chegar em casa e a Bianca ta la, mas na maioria das vezes já dormindo, porque tenho chegado bem tarde. As vezes eu ligo a luz, pra pegar uma roupa e tals, porque a gata tem um sono pesado da bexiga, não acorda com nada, já eu tu respirar do meu lado eu acordo, ligando a luz então, nem fala.
As vezes quando eu ligo a luz eu vejo que ela chorou até dormir, provavelmente porque ouviu alguma coisa na rua e eu demorei pra voltar, ai junta tudo, bate varias neuroses na cabeça dela e ela fica assim. É f o d a pra mim também, eu to numa posição legal no morro mas o cachorrão é f o d a gosta de tudo certo, nem auê no morro, eu não posso ficar dando na cara de p*****a na rua e nem posso deixar que ela faça, embora a Bianca do jeito que ela é toda delicadinha, não sei não se ela é capaz de sair no braço com alguém na rua.
Mas essas paradas estão cada dia mais afetando o nosso relacionamento. Eu percebo que eu preciso mudar um pouco, eu sou um cara estressado, mas nas atitudes eu tento manter a calma até onde dá. Eu deixo o meu lado r**m para o crime mesmo, na hora de cobrar vacilão cheirador que pega os bagulho e depois quer dá migué de que não tem como pagar, f o d a s s e né parceiro, tem que pagar e boa.
Mas no momento eu vejo a minha vida pessoal e o crime se misturando, as vezes acho que to ignorante em casa com a Bianca e mole no crime, minha mente ta cheia de neurose, a Bianca já falou duas vezes esses tempos em largar, que tá se sentindo muito pressionada com a minha vida e isso só tá despertando o pior em mim mais ainda.
Se ela me largar eu fico doido, papo reto, não sei o que vai acontecer, nem que merda vai dar, papo reto, não vejo a minha vida sem estar entrelaçada na dela.