O CAVALEIRO DE ARMADURA
Shopping na Barra. Segunda-feira, duas da tarde.
Lotado, como sempre. Gente pra c*****o andando pra lá e pra cá, criança chorando no carrinho, casal de mão dada atrapalhando a passagem. O cheiro de pipoca doce misturado com perfume de loja de departamento.
Eu odeio shopping. Mas tô aqui.
Por ela. Sempre por ela.
Tô parado na frente de uma joalheria, com as mãos nos bolsos da calça jeans, olhando vitrine igual um i****a. Meu reflexo no vidro me encara de volta. Cabelo castanho escuro, meio bagunçado porque eu esqueci de passar um gel. Barba feita hoje de manhã. Camiseta preta justa marcando os braços, porque se eu trabalho com o corpo, eu vou mostrar o resultado.
As tatuagens nos antebraços aparecem. O dragão que eu fiz aos vinte. A âncora que eu fiz depois que meu avô morreu. A data no pulso que ninguém pergunta o que significa.
Tô com 24 anos. Pareço ter 30. É a barba. As mulheres falam isso.
Mas só tem uma mulher que eu quero que repare em mim.
Ela nem olha pra mim direito.
A vendedora da joalheria me viu encarando a vitrine faz uns cinco minutos. Ela já deve estar me achando um suspeito. Ou um apaixonado perdido.
Os dois.
— Moço, posso ajudar? — ela pergunta, apoiada no balcão, com aquele sorriso profissional de quem tá entediada.
Entro na loja. O ar condicionado bate na cara. A luz é toda branca, brilhante, faz os anéis e colares brilharem igual estrela.
— Tô procurando um presente — falo. — Pra uma moça.
— Namorada?
— Pior. Amiga.
Ela ri. Não entendeu o "pior".
— É aniversário?
— Não. Ela... ela é especial pra mim.
— Ah, que legal.
— Pois é.
Fico olhando os colares. Prata, ouro, rose gold. Delicados, grossos, com pingente, sem pingente.
Eu não entendo nada de joia. Sou personal trainer. Meu acessório é uma garrafa de água e um cronômetro.
— Ela é mais discreta? — a vendedora pergunta.
— Discreta? — penso na Zaya. No cabelo loiro dela brilhando no sol. No jeito que ela ri alto sem se importar com quem tá olhando. — Não. Ela não é discreta. Mas ela gosta de coisa simples. Não usa muita firula.
A vendedora pega um colar de prata com um pingente pequeno, uma folha. Simples. Bonito.
— Isso aqui fica bem em qualquer look. É delicado, mas tem personalidade.
Olho pro colar. Visualizo no pescoço dela.
Ficaria bom.
Muito bom.
— Esse mesmo — falo. — Embrulha pra presente.
Ela sorri. Leva o colar pro balcão.
Enquanto ela embrulha, fico olhando o movimento do shopping. Gente entrando e saindo. Casal discutindo na praça de alimentação. Criança correndo e a mãe gritando.
Eu podia estar na academia agora. Podia estar treinando, passando treino pra aluno, resolvendo alguma treta de equipamento quebrado. Mas não.
Tô aqui.
Comprando presente pra uma mulher que me trata igual trataria um irmão.
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Eu conheço a Zaya faz uns dois anos.
Conheci na academia. Ela apareceu um dia, toda perdida, com um short curto e uma camiseta larga, sem saber nem como ajustar o banco do leg press.
Eu vi ela da recepção e pensei: "essa aqui vai desistir em uma semana."
Mas não desistiu.
Voltou no dia seguinte. Na outra semana. No mês seguinte.
Ela não era forte. Não tinha coordenação. Confundia halter com barra. Mas ela tinha disciplina. Chegava no horário, fazia o treino, suava igual uma condenada, e ainda perguntava o que podia melhorar.
Comecei a ajudar. Dava umas dicas. Corrigia a postura.
A gente começou a conversar. Primeiro sobre treino. Depois sobre a vida.
Ela me contou do irmão.
Não chamava de irmão. Chamava pelo nome. Zyon.
"Zyon foi embora", ela disse uma vez, no meio de uma série de agachamento. "Faz um ano. Não deu notícia. Nada."
Ela segurou a barra, fez mais cinco repetições, e não falou mais sobre isso.
Mas eu vi o olho dela marejar.
Ali eu soube que aquele nome não era só "irmão" pra ela. Ele era alguém que ela admirava e sentia muita falta.
E eu soube que eu tava fudido.
Porque no mesmo dia, quando ela foi embora, eu fiquei olhando a porta da academia por uns cinco minutos, feito um i****a, pensando no jeito que o cabelo loiro dela balançava quando ela andava.
Pensando no cheiro do perfume dela que ficava na academia depois que ela saía.
Pensando que eu nunca tinha reparado tanto em ninguém.
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A vendedora termina de embrulhar o colar. Uma caixinha branca, fita prateada. Chique.
— Deu mil cento e vinte reais.
Pago no cartão. Nem olho o valor. Podia ser três mil.
Ela entrega a sacolinha.
— Ela vai gostar — a vendedora fala, com aquele tom de quem torce.
— Tomara.
Saio da loja. A sacolinha na mão. O peso dela é de quase nada. Mas o que ela representa pesa uma tonelada.
Ando pelo shopping. Sem rumo. Passo pela praça de alimentação. O cheiro de fritura me dá fome, mas eu não paro. Tô pensando.
Pensando nela.
Na Zaya.
No jeito que ela me abraça quando tá feliz. Apertado, sincero, sem malícia.
No jeito que ela chora quando tá triste.
No jeito que ela fala "Bruno, você é um anjo na minha vida" quando eu faço alguma coisa por ela. Como se eu fosse qualquer amigo. Como se eu fosse só isso.
Um amigo.
Um porto seguro.
O cara que segura o cabelo dela quando ela passa m*l depois de uma festa. O cara que leva ela pra treinar quando ela tá pra baixo. O cara que ouve as histórias dela sobre os caras que ela fica, os idiotas que não prestam, os encontros ruins que ela tem com os caras da faculdade.
Ela me conta tudo.
Tudo.
Como se eu fosse uma amiga íntima.
Como se não doesse.
— Ai, Bruno, ele era tão chato. Só falava de carros, futebol e a mãe doente dele.
— Bruno, eu juro que nunca mais ouso sair com esses caras.
— Bruno, você não acredita no que ele fez.
E eu escuto. Dou risada. Xingo os caras junto com ela.
Por dentro, quero dizer: "por que você não me enxerga? Eu mereço uma chance."
Mas eu não digo nada.
Porque se eu disser, posso perder ela.
E perder ela é pior do que calar a boca.
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Saio do shopping. O ar quente da rua bate no rosto. O sol tá forte, o asfalto brilhando. Os carros buzinando no estacionamento.
Vou até a minha caminhonete. Preta. Grandona. Os meus amigos falam que é muito carro pra um homem só. Eu falo que é pra levar equipamento de academia. Mentira. É porque eu gosto de carro grande. Me sinto seguro.
Entro, ligo o motor. O ar condicionado gelado começa a funcionar.
Fico parado um minuto. Olhando pro nada.
Penso na última conversa que tive com a Zaya.
Foi ontem. Ela veio treinar. Tava animada. Falando da faculdade, das aulas, das matérias que ela mais gosta. Arte contemporânea, História da Arte, Pintura.
— Eu vou ser uma artista famosa, Bruno — ela disse, rindo. — Você vai ver.
— Vou comprar suas obras — eu falei. — Ficar rico revendendo quando você bombar.
Ela riu. Me empurrou. O toque dela no meu ombro durou um segundo, mas eu senti por horas depois.
Depois do treino, ela foi embora. Me deu um abraço. Soltou um "você é o melhor" e saiu andando.
Eu fiquei olhando.
Ela não olhou pra trás.
Nunca olha.
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Começo a dirigir. Saída do shopping, entro na Via Expressa. O movimento tá pesado, mas não tô com pressa.
Penso nela de novo.
Penso no dia que ela saiu do vestiário da academia destruída.
Faz uns seis meses. Ela saiu com os olhos vermelhos, o rosto inchado. Eu achei que alguém da família dela tinha morrido.
— O que foi, Zaya? — perguntei, puxando ela pro canto, longe dos outros alunos.
Ela demorou pra responder, chorou no meu ombro, molhou minha blusa.
— Estou com saudade, não é nada demais, eu sei. Mas a saudade dói às vezes.
— O que? — não entendi de cara.
Ela me olhou. Os olhos claros, sempre tão lindos, estavam cheios de lágrimas.
— Ele... meu irmão Zyon. Às vezes a saudade bate. Eu vi um moço parecido com ele, meu coração se encheu de esperança...
Fiquei em silêncio.
Não sabia o que dizer.
Mas a outra parte viu a dor no rosto dela. A confusão. A culpa. O medo.
E eu só abracei ela.
Segurei forte.
Ela chorou no meu ombro.
— Ele me beijou — ela sussurrou. — Na noite que ele foi embora. Ele me beijou.
Meu sangue gelou.
— O quê?
— Eu tava dormindo. Ele entrou no meu quarto. Me beijou.
— E você?
— Eu não sei. Eu tava com sono. Achei que era sonho. Mas não era.
Ela se afastou. Olhou pra mim.
— Ele fugiu. No dia seguinte, ele tinha ido embora. Nunca ligou.
— Você nunca mais falou com ele?
Ela balançou a cabeça.
— Não. E agora eu não sei o que sentir. Porque ele não é meu irmão. Mas foi criado como. E eu… eu sinto falta dele. Isso é errado?
Não respondi na hora.
Porque a resposta era sim. Era errado. Mas não pelo motivo que ela pensava.
O errado não era ela sentir falta.
O errado era eu estar aliviado que ele foi embora.
Porque parte de mim — a parte egoísta, a parte que eu guardo numa gaveta trancada — pensou: "então talvez esse "irmão" nunca deveria aparecer. Talvez assim eu tenha chance com ela."
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O trânsito anda. Eu mudo de faixa. A caminhonete responde igual um animal dócil.
Penso no colar. Na caixinha branca no banco do passageiro.
É um presente b***a. Nada mais.
Mas eu queria que fosse mais.
Queria poder entregar o colar e dizer: "Zaya, eu tô aqui há dois anos. Eu segurei seu cabelo quando você passou m*l. Eu escutei todas as suas histórias. Eu vi você rir, chorar, se irritar, desistir, recomeçar. Eu vi tudo. E eu não quero mais ser só o seu amigo."
Mas eu não vou dizer.
Porque ela ainda fala do Zyon.
Porque ela ainda sonha com ele.
Porque no fundo, ela ainda espera ele voltar.
E eu posso ser forte. Posso ser bonito. Posso ter academia, dinheiro, carro, barba, tatuagem, o pacote completo.
Não adianta.
O cara que ela quer não sou eu.
É o fantasma que foi embora três anos atrás.
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Chego no sinal. Paro. A mão no volante, os dedos batendo no ritmo da música que toca no multimídia. How you remind me, uma das minhas preferidas.
Penso em desistir.
Em parar de ser o porto seguro. Em me afastar. Em deixar ela seguir sozinha.
Mas aí lembro do rosto dela.
Do jeito que ela sorri quando eu faço uma piada i****a.
Do jeito que ela aperta meu braço quando tá animada.
E eu não consigo.
Não consigo desistir dela.
Mesmo sabendo que ela nunca vai me ver como eu vejo ela.
O sinal abre. Acelero.
Vou deixar o presente pra entregar amanhã, quando ela vier treinar. Vou dar um abraço nela. Vou falar algumas coisas bonitas.
E vou guardar o resto pra mim.
Como sempre.
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Estaciono na frente da minha academia. O letreiro "Corpo & Alma" brilha em azul. A minha cara. Minha vida.
Desligo o motor. Pego a sacolinha. Olho pra caixinha branca.
Ela vai gostar.
Vai sorrir. Vai me abraçar. Vai falar que sou o melhor.
E depois vai embora.
E eu vou ficar.
Sempre fico.
Abro a porta da academia. O cheiro de borracha e desinfetante. Os pesos arrumados. O som baixo no fundo.
Tá vazio. Segunda à tarde é sempre assim.
Vou até o balcão. Coloco a sacolinha debaixo do balcão. Escondo. Quero entregar pessoalmente amanhã.
Me encosto na parede. Braços cruzados.
Olho pro salão vazio.
E tenho um pressentimento r**m.
Não sei explicar. É uma coceira na nuca. Um frio na barriga. A mesma sensação que eu tive no dia que meu avô morreu. Que eu tive no dia que tomei um golpe no jiu-jitsu e acordei no hospital.
Algo tá errado.
Não sei o quê.
Mas algo tá pra acontecer.
E eu sei que não vai ser bom.
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