A ESTRADA DE VOLTA
O meu apartamento tá vazio.
Não vazio de móveis. Vazio de mim. Faz tempo que eu não moro aqui de verdade. Eu só durmo aqui. Acordo. Tomo banho. Vou pro trabalho. Volto. Repito.
Não é uma vida. É um loop.
Eu tô parado no meio da sala, olhando pra mochila aberta em cima da cama. As mesmas coisas de sempre. Roupa. Documentos. Dinheiro.
Igual da outra vez.
Só que agora não tem desespero.
Agora tem uma certeza fria no peito: eu não aguento mais fingir.
Pego o celular. O número do bar tá salvo. Meu chefe atende na segunda chamada.
— Alô?
— Seu João, sou eu. Zyon.
— Fala, rapaz. Tudo bom?
— Tô ligando pra avisar que não vou mais trabalhar.
Silêncio.
— Como assim não vai mais trabalhar? Cê pedindo demissão?
— É.
— Do nada? Aconteceu alguma coisa?
— Não. Só… preciso voltar pra casa.
Mais silêncio. Ele suspira.
— Olha, Zyon, você é um dos meus melhores funcionários. Se for problema de grana, a gente conversa. Se for problema pessoal…
— É pessoal, seu João. Mas não tem conversa. Preciso ir.
Ele fica uns segundos em silêncio. Depois fala, mais baixo.
— Cê sabe que a vaga vai continuar aberta pra você. Se precisar voltar, o bar é seu. Farei a transferência do que te devo o quanto antes.
— Obrigado. De verdade.
— Vai com Deus, rapaz. E resolve o que tiver que resolver.
Desligo.
Resolve o que tiver que resolver.
Se fosse fácil, já tinha resolvido há três anos.
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Olho pro diploma pendurado na parede.
Engenharia Civil.
Os anos restantes de faculdade que eu terminei no meio desse inferno de saudade. As noites em claro estudando porque não conseguia dormir mesmo. As provas que eu fazia no automático. A colação de grau que ninguém da minha família veio assistir porque eu não convidei ninguém.
Eu olhei pra cadeira vazia no auditório e pensei nela.
Pensei em como ela ia estar de vestido. Como ela ia estar rindo. Como ela ia falar "parabéns, seu i****a" e me dar um abraço apertado.
Mas não. Não tinha ninguém.
Eu comemorei sozinho. Comprei uma pizza, comi metade, dormi. No dia seguinte, acordei tarde e fui trabalhar.
O diploma é só um papel. Um troféu de tudo que eu conquistei sozinho. Uma prova de que dá pra seguir em frente sem ninguém.
Só que não dá.
Cinco anos de faculdade. Três anos fora de casa.
Nada disso preencheu o buraco.
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Eu guardo o diploma na mochila. Não vou deixar ele aqui. Não vou deixar nada aqui.
O quarto tá quase vazio. Algumas roupas no armário. Um par de tênis. Um vidro de perfume que ela me deu no meu último aniversário ainda em casa. Eu nunca usei. Só abri uma vez, senti o cheiro, e guardei.
Cheiro de memória.
Cheiro de antes.
Eu pego o vidro. Olho pra ele. Coloco na mochila.
Tudo que sobrou de mim nesses três anos cabe numa mochila.
É triste? É.
Mas é a verdade.
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Desço as escadas do prédio pela última vez. A escada tá suja, o corrimão solto. Aquele prédio nunca foi um lugar bonito, mas foi o que deu.
O Ricardão, meu vizinho de porta, tá no hall de entrada quando eu passo. Ele olha pra mochila, depois pra mim.
— Zyon? Cê vai viajar?
— Vou voltar pra casa, pra minha família.
Ele franze a testa.
— Pra casa? Mas você não era sozinho no mundo?
— Não. Nunca fui.
Ele não entende. Não faz m*l. Ninguém entende.
— E o bar? Cê vai largar o trampo?
— Já larguei.
— c*****o, irmão. Do nada?
— Não foi do nada. Foi três anos tomando coragem de encarar a realidade da minha vida.
Ele coça a cabeça. Tenta processar.
— E você vai fazer o quê lá, com a família que tu fugiu esse tempo todo?
— Descobrir se ainda tem jeito.
Não é uma resposta clara. Mas é a única que eu tenho.
— Você é estranho, Zyon. Sempre foi. Mas você é gente boa. Se precisar de alguma coisa, tamo aí.
Aperto a mão dele.
— Valeu, Ricardão.
— E volta, hein? Se não der certo lá, volta.
Eu não vou voltar. Mas não digo isso.
Saio do prédio. A moto tá estacionada na calçada, como sempre. Preto fosco, o tanque meio amassado de uma queda b***a que eu dei no quarto ano de faculdade. Eu nunca arrumei. Gosto da cicatriz. Combina comigo.
Jogo a mochila no baú. Coloco o capacete. Ligo o motor.
O barulho corta o silêncio da manhã.
E eu vou.
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A estrada é vazia. Segunda-feira, nove da manhã. O sol já tá alto, o asfalto brilhando. O vento bate no meu rosto, mesmo com o capacete fechado. Dá pra sentir.
Eu já fiz esse caminho centenas de vezes. Mas sempre na direção oposta.
Indo pra faculdade. Indo pro trabalho. Indo pro bar. Indo pro apartamento.
Sempre fugindo.
Agora é diferente.
Agora eu tô indo na direção certa.
As placas vão passando. Os bairros vão ficando familiares. O mercado onde eu comprava pão de queijo pra ela nos sábados de manhã. A praça onde ela aprendeu a andar de bicicleta. A rua onde ela caiu de patins e eu ri demais antes de ajudar ela a levantar.
Cada esquina dói.
Cada semáforo é um soco no peito.
Porque eu lembro de tudo.
Lembro do cabelo loiro dela balançando enquanto ela corria pra me encontrar na porta da escola. Lembro dela pulando nos meus braços quando eu chegava da oficina, antes de tudo ficar estranho. Lembro dela sentada no balcão da cozinha, as pernas balançando, me contando alguma fofoca da escola que eu não me importava de ouvir, mas ouvia porque ela gostava de contar.
Eu chamava ela de "minha chata".
Era minha chata.
Ela odiava. Eu adorava.
Porque no fundo, ela gostava. Gostava de ser minha. Gostava de saber que tinha um lugar no mundo onde ela sempre seria a prioridade.
Ela ainda tem.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo depois de três anos.
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O sinal abre. Eu acelero.
A cidade vai ficando menor conforme eu me aproximo da Zona Sul. As ruas mais largas, as casas mais espaçadas. Menos movimento. Mais silêncio.
O vento traz cheiro de mato. De terra molhada. De casa.
Eu passo pela padaria. Pelo mercadinho. Pela escola onde ela estudou.
Meu coração começa a bater mais rápido.
Não é ansiedade. É medo.
Medo do que eu vou encontrar. Medo de como ela vai me olhar. Medo de ter perdido tudo pra sempre.
Mas eu não posso parar.
Se eu parar agora, eu nunca mais vou ter coragem de continuar.
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A rua dela aparece no horizonte.
Rua das Acácias.
O nome nunca fez sentido. Nunca teve nenhuma acácia plantada ali. Mas é o nome que tá na placa, enferrujada pelo tempo, torta como sempre.
Eu desacelero.
Casa 47.
O portão branco. O muro cinza. A árvore no quintal que ela ajudou meu pai a plantar quando era criança.
Tudo igual.
Três anos e tudo igual.
Como se o tempo tivesse parado.
Como se eu nunca tivesse ido embora.
Estaciono a moto na calçada. Desligo o motor.
O silêncio agora é total. Só o barulho do vento nas folhas da árvore. Só o meu coração batendo no peito.
Eu tiro o capacete.
Olho pro portão.
A mão começa a tremer.
Não é cansaço. Não é frio. É medo.
Medo puro.
Eu seguro a chave.
A mesma chave. A mesma casa. A mesma entrada que eu usei a vida inteira.
Será que ainda funciona?
Claro que funciona. Meu pai nunca trocou as fechaduras. Ele sempre disse nos e-mails e mensagemns nunca respondidas, que eu podia voltar quando quisesse.
E eu nunca voltei.
Até hoje.
Eu encosto a mão no portão. O ferro tá gelado. Empurro.
O portão abre com um rangido baixo. O mesmo rangido de sempre. Eu nunca ia conseguir entrar em casa sem fazer barulho. Minha mãe sempre dizia que era o jeito do portão contar que eu cheguei.
Atravesso o quintal. As plantas tão cuidadas. O gramado aparado. O varal vazio.
A porta da frente tá entreaberta.
Eu paro.
A mão na maçaneta. Trêmula.
Respira, Zyon.
Respira.
Eu empurro a porta.
Entro.
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A sala tá iluminada pela luz da manhã que entra pela janela da frente. O sofá marrom. A mesa de centro de madeira. A televisão ligada baixo.
E eles.
Meu pai. Minha mãe.
Tão no sofá. Abraçados. Assistindo algum noticiário matinal.
A minha mãe vira a cabeça primeiro.
O rosto dela congela.
Os olhos arregalam.
— Zyon? — a voz dela sai falhando. Como se não fosse possível. Como se eu fosse um fantasma.
Meu pai vira também. Os olhos dele marejam na mesma hora.
Ninguém fala.
Ninguém se move.
Eu fico parado no meio da sala. A mochila nas costas. O capacete na mão.
A boca seca.
O coração na garganta.
— Eu voltei — eu falo.
E a voz sai mais baixa do que eu queria. Mais quebrada.
Minha mãe se levanta. Devagar. Como se tivesse medo de me assustar.
Ela vem em minha direção.
Cada passo ecoa no silêncio.
Ela para na minha frente.
Olha pro meu rosto.
As mãos dela sobem, tocam meu rosto. Quentes. Trêmulas.
— Meu filho… — ela sussurra.
Ela me abraça.
E eu me desmancho.
Não choro. Não ainda. Mas o abraço dela aperta forte, e eu seguro ela como se fosse a última vez. Como se eu pudesse recuperar três anos perdidos nesse único gesto.
Meu pai levanta do sofá. Vem também.
Ele não fala nada. Ele nunca foi tão bom com palavras.
Mas ele coloca a mão no meu ombro. Aperta.
O aperto dele diz tudo.
— Senta — minha mãe fala, se afastando um pouco. — Vamos conversar.
Ela me puxa pro sofá.
Eu sento.
Meu pai senta do meu lado. Minha mãe na minha frente.
Eles me olham.
E eu sei que tem tanta coisa pra dizer. Tanta coisa pra explicar. Tanta coisa pra pedir desculpa.
Mas a única coisa que sai da minha boca é:
— Ela tá?
Minha mãe franze a testa.
— Quem?
— Zaya.
O nome sai pesado.
O silêncio volta.
Minha mãe olha pro meu pai. Meu pai olha pra ela.
E eu sinto meu estômago afundar.
— Onde ela tá? — pergunto de novo.
Minha mãe segura minha mão.
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