5 - HELENA

1012 Palavras
O LABIRINTO DE VIDRO Eu tô nua, deitada de bruços na cama desarrumada, e ainda não sinto minhas pernas direito. O lençol tá enrolado no pé da cama, o travesseiro caiu no chão em algum momento daquela confusão de corpos. O cheiro de suor misturado com cigarro já impregnado no quarto. Acendo um cigarro. Trago fundo. A fumaça sobe devagar, formando um véu fino no ar. Zyon. Ele tá sentado na beirada da cama, de costas pra mim. Ombros tensos, tatuagens descendo pela pele. Já vestiu a calça, mas não a camiseta. Mexe no celular sem realmente ver nada. Ele nunca olha pra mim depois. É sempre assim. — Vai embora agora? — pergunto, a voz arrastada. Ele demora. — Tenho que trabalhar cedo. — Sempre tem. Ele vira um pouco o rosto, maxilar travado. — Helena… — Não tô reclamando. Só observando. Apago o cigarro no cinzeiro da mesa. O cinzeiro que eu comprei pra ele. Assim como a cerveja que ele gosta. O sabonete. Tudo nesse apartamento carrega um pedaço dele. E ele? Ele nunca nem perguntou meu sobrenome. — Três anos. Três anos que a gente se conhece. Que a gente transa, briga, se afasta e volta. Três anos e ele não sabe nada sobre mim. E eu sei tudo. Sei que ele acorda cedo mesmo quando não precisa. Que toma café preto sem açúcar. Que não dorme direito. Que acorda de madrugada, ofegante, como se tivesse fugindo de algo. Eu sei que tem alguém. E sei que essa pessoa nunca saiu dele. — Ele se levanta, veste a camiseta com movimentos automáticos. — Você tá diferente hoje — falo. Ele para por um segundo. — Diferente como? — Mais distante. Ele solta um riso sem humor. — Como sempre. — Não. Hoje tá pior. Ele me encara. E eu vejo. Alívio. Como se tivesse tomado uma decisão. Meu estômago revira. — O que foi? — pergunto. Ele não responde. Mas eu sinto. Ele tá se despedindo. — Eu vi ele pela primeira vez no bar. Cara fechada, postura de quem não queria ser tocado. E eu fui direto. — Você é novo aqui. — Tô aqui faz um tempo. — Nunca te vi. — Talvez você não tenha reparado. Eu ri. — Acredite, eu teria reparado. Quando ele me olhou, eu vi. Muro alto. Acesso proibido. E mesmo assim, eu quis entrar. — Naquela noite, a gente transou no carro. Eu achei que ali começava alguma coisa. Mas nunca começou. A gente continuou se vendo, mas nunca passou disso. Eu esperei. Achei que ele ia se abrir. Perguntar de mim. Me enxergar. Mas ele nunca perguntou nada. — — Você vai embora e não volta mais, né? — pergunto agora. Ele franze a testa. — Do que você tá falando? — Não se faz. Eu te conheço, Zyon. Silêncio. Eu levanto. Nem tento me cobrir. — Hoje foi diferente. Você me pegou como se fosse a última vez. Ele desvia o olhar. — Helena… — Olha pra mim. Ele olha. E eu tenho certeza. — Quem é ela? — Não tem ninguém. — Tem. Sempre teve. Minha voz sobe. — Três anos, Zyon. Três anos fazendo tudo do jeito que você gosta. E você nunca me viu. Ele abaixa a cabeça. — Você sabia como eu era. — Sabia. E mesmo assim fiquei. Porque achei que você ia parar de correr atrás desse fantasma. Silêncio. Ele levanta os olhos. — Você tá certa. Isso me desmonta por um segundo. — Eu não deveria ter deixado você se aproximar — ele continua. — Não deveria ter deixado isso ir tão longe. — Por causa dela? Silêncio. Resposta suficiente. — Quem é ela? — Alguém que eu não consigo esquecer. Aquilo pesa no ar. — E você vai atrás dela? Ele não responde. — Ela pode nem te querer. — Eu sei. — E mesmo assim vai? — Eu preciso. Eu rio. Sem humor. — Três anos esperando você me olhar. E você nunca olhou. — Eu tentei — ele diz, a voz baixa. — Tenta mais, Zyon. O pedido escapa. E eu odeio isso. Ele me olha. Tem culpa ali. Mas não tem amor. — Você não merece isso — ele fala. — Não decide por mim. — Helena… — Vai. Vai atrás dela. Mas não volta. Ele me encara. — Não vai ser fácil se livrar de mim. Endireito a postura. — Você acha que eu vou ficar esperando? Silêncio. Aponto pra ele. — Se você sair por essa porta, eu não vou deixar você recomeçar em paz. Não vou deixar você fingir que esses três anos não existiram. Ele não se move. — Você me usou — continuo. — Igual remédio. — Eu nunca disse que tava curado. — E isso é pior. Silêncio pesado. Ele pega a jaqueta, veste, junta as coisas. Vai até a porta. — Zyon. Ele para. — Você vai se arrepender. Ele olha por cima do ombro. — Talvez. — Ela vai te destruir. Ele segura a maçaneta. — Ela já me destruiu. E sai. A porta fecha. — Eu fico ali, parada, com o cheiro dele ainda no ar. Não choro. Não vou chorar. Vou pro banheiro. Abro o chuveiro. A água quente bate na pele, mas não sinto o suficiente. Fico ali, parada, deixando a água cair. Pensando. Em todas as noites que acordei sozinha. Em todas as vezes que esperei mensagem. Em tudo que fiz tentando fazer ele ficar. Eu achei que ia conseguir. Achei que, se eu fosse suficiente, ele ia me ver. Mas ele nunca viu. Ele só via ela. Sempre ela. — Desligo o chuveiro. Me olho no espelho embaçado. Olhos vermelhos. Marcas no pescoço. Passo o dedo nelas. — Você vai se arrepender — sussurro. Pego o celular. Tenho o número dele. Sei onde ele mora. Onde trabalha. Três anos. Três anos sendo a sombra. Agora ele quer recomeçar? Não. Não vai ser assim. Eu vou atrás. E quando eu encontrar os dois… eu vou destruir tudo. COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR REDE SOCIAL: @crisfer_autora
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