AQUELE BEIJO
Não é um beijo de irmão.
Não é um beijo inocente.
É um beijo cheio de tudo o que eu guardei. De todos os olhares que eu desviei. De todos os toques que eu evitei. De todos os pensamentos que eu tentei matar.
Minha mão sobe, segura o rosto dela. A pele macia. Os lábios dela. Macios também.
No começo, ela congela.
Fica dura. Surpresa.
Mas não afasta.
E por um segundo — só um segundo — eu sinto que ela não sabe o que fazer.
E então…
Ela corresponde.
Os lábios dela se movem contra os meus. Lentos. Hesitantes. Como se ela não entendesse direito o que tá acontecendo, mas o corpo dela já respondeu antes da mente.
Ela ainda tá sonolenta. Talvez ache que é sonho. Talvez não queira acordar.
Eu seguro o rosto dela com mais força. Aumento o beijo. Aprofundo.
A língua dela toca a minha.
E é como se um fio elétrico percorresse minha espinha inteira.
Meu corpo inteiro reage. Minha mão desce pro pescoço dela. A outra aperta a cintura. Eu quero puxar ela. Quero deitar ela. Quero sentir ela inteira contra mim.
Eu quero mais.
Muito mais.
E é aí que eu percebo.
Eu tô perdendo o controle.
Eu me afasto.
Ofegante.
Olho pra ela.
Ela ainda tá com os olhos semiabertos. Os lábios úmidos. A respiração acelerada.
Ela me olha. Confusa. Sem entender.
— Zyon… — ela murmura. A voz falha. — O que…
Ela não termina a frase.
Não precisa.
Eu sei o que eu fiz.
Eu cruzei a linha.
Não tem mais volta.
Eu levanto da cama. Ela mexe, tenta levantar.
— Zyon!
Não olho pra trás.
Saio do quarto. Atravesso o corredor. Desço as escadas.
Ouço ela me chamando lá de cima, a voz ainda confusa, sonolenta.
— Zyon! Espera!
Eu não espero.
Saio pela porta da frente. A mochila pesa nas costas.
A moto tá ali. No mesmo lugar de sempre.
Ligo o motor. O barulho corta o silêncio da madrugada.
Olho pra janela do quarto dela. A luz acendeu.
Ela tá ali. Eu sei que sim.
Eu poderia voltar.
Poderia subir. Explicar. Pedir desculpa. Fingir que foi um erro. Fingir que foi coisa da hora, da emoção, da revelação.
Mas não foi.
E eu não vou fingir.
Acelero. Saio.
Não olho no retrovisor.
---
O vento bate no meu rosto. A cidade tá vazia. As ruas desertas.
Eu vou sem rumo.
Sem destino.
Só sei que não posso ficar.
Passo pela avenida principal, depois pela Marginal. O pensamento gira na cabeça igual um carrossel.
Eu não posso sumir de verdade. Não posso largar tudo e virar um fantasma.
Mas também não posso voltar.
Não depois do que eu fiz.
Decido ficar na cidade.
Perto. Mas longe.
Longe o suficiente pra não ver ela todo dia. Pra não ter que sentar na mesma mesa. Pra não sentir o cheiro dela quando ela passa por mim.
Perto o suficiente pra saber que ela tá ali. Que ela tá viva. Que ela tá bem.
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Eu alugo um quarto num apartamento universitário perto da faculdade. Divido espaço com uns caras que eu nem conheço direito. Eles perguntam da família. Eu desconverso. Perguntam de onde eu vim. Eu minto.
Ninguém precisa saber.
Ninguém precisa saber que eu fugi de casa. Que eu beijei minha irmã. Que ela não é minha irmã de verdade. Que eu sinto coisas que não deveria.
Eu vou tranco a faculdade. Trabalho num bar à noite. Volto. Durmo. Repito.
Os dias viram semanas. As semanas viram meses.
E eu não volto.
Meu pai liga. Minha mãe liga. Mandam mensagens, e-mails. Eles acham que é culpa deles.
E não é.
A culpa é minha.
Só minha.
A Zaya não me liga.
No começo, eu esperava. Olhava o celular. Virava o aparelho na mão. Pensava em mandar mensagem. Ligar. Ouvir a voz dela.
Mas eu não merecia.
Depois de um tempo, eu parei de esperar.
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Os meses passam. Um ano. Depois dois.
Eu vivo, mas não me conecto com nada. Vou pras aulas da faculdade, faço o mínimo. Trabalho, ganho meu dinheiro. Volto pro quarto e fico olhando pro teto.
Ela não sai da minha cabeça.
Nem por um dia.
Tem noite que eu acordo no meio da madrugada depois de sonhar com ela. O cabelo loiro. O cheiro doce. Os olhos claros me olhando confusos depois do beijo.
Eu fico horas acordado, revivendo aqueles segundos.
O gosto dela.
O jeito que ela correspondeu.
Mesmo sem entender.
Talvez ela nem lembre. Talvez tenha apagado da memória. Talvez finja que nunca aconteceu.
Mas eu lembro.
Eu lembro de tudo.
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Foi nesse período, nos primeiro ano longe de casa que eu conheci a Helena.
Ela apareceu no bar onde eu trabalho. Cabelo preto, olhos escuros, piercing na sobrancelha, várias tatuagens e maquiagem sempre carregada. O oposto completo da Zaya.
Ela chegou no balcão, pediu uma cerveja e ficou me olhando de um jeito que não deixava dúvida.
— Você é novo aqui — ela disse.
— Tô aqui faz um ano.
— Nunca te vi.
— Talvez você não tenha reparado.
Ela riu. Um riso baixo, meio sarcástico.
— Acredite, eu teria reparado.
Ela era direta. Não jogava jogo. Sabia o que queria e ia atrás.
A gente começou a sair. Primeiro uma vez. Depois outra. Depois virou rotina.
Ela vinha pro meu quarto. A gente transava. Depois ela ia embora.
Não tinha conversa profunda. Não tinha planos. Não tinha futuro.
Era só… distração.
Ela não perguntava muito sobre minha vida. Eu não perguntava sobre a dela. Era um acordo tácito.
Mas com o tempo, ela começou a querer mais.
— Por que você nunca fala da sua família? — ela perguntou uma noite, deitada na minha cama, acendendo um cigarro.
— Não tem muito o que falar.
— Todo mundo tem o que falar.
— Eu não.
Ela me olhou. Sabia que eu tava mentindo. Mas não insistiu.
As brigas começaram quando ela percebeu que eu não sentia nada por ela.
— Você tá aqui, mas sua cabeça tá em outro lugar — ela disse, uma noite, se vestindo depois do sexo. — Sempre em outro lugar, Zyon.
— Não tô.
— Tá sim. E eu tô cansada de fingir que não percebo.
Ela jogou a camiseta na cama.
— Quem é ela?
Meu corpo travou.
— O quê?
— A garota. A que você pensa quando tá comigo.
Eu não respondi.
Helena riu. Mas não era um riso feliz.
— Você nunca nem perguntou meu sobrenome, Zyon. Todo esse tempo e você não sabe nada sobre mim. Porque você nunca quis saber.
Ela colocou a jaqueta de couro, pegou a bolsa.
— Não sei quem você perdeu. Não sei de quem você tá fugindo. Mas eu sei que eu não sou ela.
Me mostrou o dedo do meio.
E foi embora.
Voltou na semana seguinte. A gente se estranhou. Brigou. Transou. Repetiu o ciclo de t***o e ódio.
Era instável. Tóxico.
Mas era o que eu tinha.
Porque no fundo… eu sabia.
Ninguém se compara a ela.
Nenhuma.
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Três anos.
Três anos desde aquela noite.
Três anos desde que eu beijei a Zaya no quarto dela e fugi como um covarde.
E agora…
Agora eu não consigo mais ficar longe.
Eu tentei. Eu juro que tentei.
Mas não importa quantas cidades eu atravesse com a mente. Não importa quantas noites eu passe acordado tentando esquecer. Não importa quantas pessoas eu coloque no lugar dela.
Nada apaga.
Nada preenche.
Eu olho pro espelho do banheiro do apartamento que eu aluguei depois que saí da república. O rosto de um homem que eu nem reconheço mais.
Mais velho. Mais cansado. Marcado.
Mas o que me olha no espelho não é diferente por causa do tempo.
É diferente por causa dela.
E eu sei que não tem mais jeito.
Eu vou voltar.
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Eu tentei fugir. Tentei esquecer. Tentei ser alguém normal.
Mas não importa o quanto eu me afastasse…
eu nunca consegui sair dela.
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