Sem Escolha

1559 Palavras
(POV Aurora) Eu não tive escolha. Na verdade, essa era a parte que mais me incomodava. Não foi um convite. Não foi um acordo. Não foi nem uma discussão justa. Dante simplesmente decidiu. E, naquele mundo… decisões dele não eram questionadas. A mão dele ainda estava firme no meu braço quando atravessamos a porta. Só depois de trancar tudo — duas voltas na chave, um ferrolho pesado deslizando com um som metálico — foi que ele me soltou. Mas a sensação de estar presa… não foi embora com o toque dele. Ficou. Grudada na minha pele. Eu respirei fundo, tentando me recompor, enquanto meus olhos percorriam o lugar com mais atenção. A casa dele. Era estranho pensar nisso. A casa de Dante. O homem que eu m*l conhecia… mas que, de alguma forma, já interferia demais na minha vida. O ambiente não era luxuoso, nem confortável como uma casa comum. Era funcional. Cada coisa parecia ter um propósito. O sofá, apesar de gasto, estava limpo. A mesa tinha apenas o necessário. Não havia fotos. Não havia objetos pessoais que contassem uma história. Era como se ninguém realmente vivesse ali. Como se fosse apenas… um ponto de passagem. Ou um abrigo temporário para alguém que não podia se dar ao luxo de criar raízes. Meu olhar parou na estante. Armas. Mais de uma. Organizadas. Cuidadas. Aquilo fez um arrepio subir pela minha coluna. — Não precisa ficar olhando como se fosse um museu — a voz dele veio atrás de mim. Grave. Controlada. Mas cansada. Eu virei lentamente. — Eu nunca estive numa casa assim. — É só uma casa. — Não, não é. Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando minha resposta. — Então o que é? Eu hesitei. Mas respondi mesmo assim. — Um lugar feito pra guerra. O silêncio que veio depois… foi a confirmação. Ele não negou. Dante passou a mão pelo rosto, caminhando até a mesa. Pegou o rádio, ouviu por alguns segundos, depois desligou com um movimento seco. — Vai piorar antes de melhorar — murmurou, mais pra si mesmo do que pra mim. Meu coração apertou. — Eles estão perto? Ele me olhou de lado. — Mais do que eu queria. Um tiro ecoou lá fora. Dessa vez, mais alto. Mais próximo. Eu me encolhi automaticamente, e isso pareceu irritá-lo… ou talvez preocupá-lo. Era difícil dizer. Ele se aproximou. Devagar. Sem pressa. Mas com intenção. — Você precisa se acalmar. — Eu estou calma — respondi rápido demais. Ele arqueou uma sobrancelha. — Não, você não tá. O pior? Ele estava certo. Minhas mãos estavam frias. Minha respiração irregular. Meu corpo inteiro em alerta. Mas eu não queria demonstrar fraqueza. Não ali. Não pra ele. — Eu só não estou acostumada com… — gesticulei ao redor — isso. Ele soltou um leve suspiro. — Ninguém acostuma. A resposta me pegou desprevenida. Porque não era fria. Não era arrogante. Era… honesta. Por um instante, eu vi além do chefe do morro. Vi alguém que carregava aquele peso todos os dias. E que, talvez, também estivesse cansado. Mas o momento passou rápido. Como tudo naquele lugar. — Vem — ele disse, já se afastando. — Pra onde? — Vou te mostrar onde você vai ficar. Eu hesitei. — Eu não vou ficar aqui. Ele parou. Lentamente virou o rosto na minha direção. E aquele olhar… voltou a ser o de antes. Frio. Firme. Irredutível. — Você vai. — Eu tenho casa. — E o Brandão sabe disso. Aquilo me fez calar por um segundo. Mas eu ainda não queria ceder. — E você acha que ele não viria aqui? Dante deu um passo na minha direção. Depois outro. Até a distância entre nós desaparecer de novo. — Ele pode até tentar. Minha respiração falhou levemente. — E? A voz saiu mais baixa do que eu gostaria. Ele inclinou um pouco o rosto, os olhos fixos nos meus. — Ele não entra. A certeza na voz dele… era absurda. Perigosa. E, ainda assim… difícil de ignorar. — Você fala como se tivesse controle de tudo. — Não tenho. Ele respondeu rápido. Sem hesitar. — Mas do que é meu… eu cuido. O jeito que ele disse aquilo… fez algo estranho se mexer dentro de mim. Um desconforto. Mas também… uma segurança que eu não queria sentir. — Eu não sou “sua”, Dante. O maxilar dele travou. Por um segundo, achei que ele ia reagir m*l. Mas não. Ele apenas desviou o olhar, passando a mão na nuca. — Eu não disse que você é. Mas também não disse o contrário. O silêncio ficou pesado de novo. Denso. Carregado de coisas não ditas. Lá fora, o barulho aumentava. Mais vozes. Mais correria. Mais tensão. Eu passei a mão pelos braços, tentando me aquecer, mesmo sem frio. — Isso vai demorar? — Vai. — Horas? Ele hesitou. — Talvez. Aquilo não ajudava em nada. — Eu não posso simplesmente desaparecer assim. — Hoje pode. — Minha mãe— — Tá mais segura sem você lá agora. Eu fechei os olhos por um segundo. Aquilo doeu. Porque fazia sentido. E eu odiava o fato de fazer sentido. — Droga… — murmurei. Dante observou minha reação em silêncio. Depois, com um suspiro pesado, falou: — Olha… A voz dele mudou. Mais baixa. Menos dura. — Eu sei que você não pediu por isso. Eu levantei o olhar. — Então por que eu tô pagando por isso? Ele sustentou meu olhar por alguns segundos. Como se estivesse tentando encontrar uma resposta melhor. Mas não encontrou. — Porque você entrou no caminho errado. — Eu ajudei alguém. — Exatamente. Aquilo me fez rir. Sem humor nenhum. — Engraçado como, no seu mundo, fazer o certo vira erro. Ele não respondeu. Porque, no fundo… ele sabia que eu estava certa. Mais um tiro ecoou. Dessa vez tão perto que fez o vidro da janela vibrar levemente. Eu dei um passo pra trás, assustada. E, instintivamente… ele deu um passo pra frente. Diminuindo a distância. De novo. — Ei — a voz dele saiu firme, mas não agressiva — olha pra mim. Eu olhei. — Foca aqui dentro. Não lá fora. Eu tentei. De verdade. Mas era difícil ignorar o caos. — Eu não consigo simplesmente desligar. — Então aprende. — Não é assim que funciona! — Aqui é. O tom dele subiu um pouco. Não gritando. Mas impondo. — Se você surtar a cada tiro, você não aguenta uma hora nesse lugar. Aquilo me atingiu. Direto. — Eu não deveria estar aqui! — Mas tá! Silêncio. Pesado. Cortante. A respiração dele estava mais forte agora. A minha também. A tensão entre nós não era só medo. Era confronto. Era diferença de mundos. Era tudo que nos separava… e, ao mesmo tempo, nos colocava no mesmo espaço. Por fim, ele passou a mão pelo rosto, claramente tentando se controlar. — Desculpa. Eu pisquei, surpresa. — Eu não devia ter falado assim. Aquilo… eu definitivamente não esperava. — Eu só… — ele respirou fundo — preciso que você fique bem. O jeito que ele disse aquilo… não parecia ordem. Parecia… preocupação de verdade. E isso me desarmou mais do que qualquer grito. — Eu tô tentando — falei mais baixo. Ele assentiu levemente. O clima mudou. Não menos tenso. Mas… diferente. Menos hostil. — Vem — ele disse de novo, dessa vez mais tranquilo. Eu não discuti. Talvez porque estivesse cansada. Talvez porque, no fundo, eu soubesse que ele estava certo. Ou talvez… porque eu já não tivesse tanta certeza de que queria ir embora naquele momento. Seguimos por um pequeno corredor. Ele abriu uma porta. — Você fica aqui. O quarto era simples. Uma cama. Um armário. Uma janela pequena, protegida por grade. Nada pessoal. Nada acolhedor. Mas seguro. Pelo menos, parecia. — E você? Ele encostou no batente da porta. — Vou ficar lá fora. — Fazendo o quê? — Garantindo que ninguém entre. A resposta foi simples. Direta. Mas carregada de significado. Eu hesitei. — E se entrarem? Ele me olhou. E, dessa vez… não havia dúvida nenhuma na expressão dele. — Não entram. A firmeza voltou. A segurança. Aquele lado dele que parecia inabalável. Eu assenti, mesmo sem perceber. Caminhei até a cama, sentando devagar. Minhas pernas ainda estavam levemente trêmulas. Ele ficou ali por um momento. Me observando. Como se estivesse avaliando se eu realmente ficaria. Ou se tentaria fugir. — Aurora. Eu levantei o olhar. — Fica aqui. Não era uma ordem dessa vez. Era quase um pedido. Eu engoli seco. — Tá. Ele assentiu. E saiu. Fechando a porta atrás de si. O clique da fechadura ecoou no quarto. E, pela primeira vez desde que tudo começou… eu estava sozinha. Mas não livre. Nunca livre. Lá fora, o som da guerra continuava. Tiros. Gritos. Motores. E, em algum lugar no meio de tudo aquilo… um delegado disposto a matar. E um homem disposto a impedir. Eu deitei devagar, encarando o teto. Tentando processar tudo. Tentando entender como minha vida tinha saído do controle tão rápido. E, principalmente… tentando ignorar um detalhe que me incomodava mais do que o medo. Eu estava na casa de Dante. Confiando nele. Dependendo dele. E, contra toda lógica… me sentindo mais segura ali dentro do que em qualquer outro lugar. E isso… era o mais perigoso de tudo.
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