Lugar errado

1446 Palavras
(POV Dante) A casa nunca foi silenciosa de verdade. Mesmo quando não havia tiros, gritos ou motores rasgando a madrugada, existia um outro tipo de barulho — aquele que fica dentro da cabeça. O tipo que não dá pra desligar. Mas naquela noite…o caos lá fora conseguia ser mais alto. E isso já dizia muito. Fiquei parado no corredor por alguns segundos depois de fechar a porta do quarto onde deixei a Aurora. A mão ainda no trinco, como se… não sei. Como se eu estivesse garantindo que ela realmente estava ali. Segura. Respirei fundo. Errado. Tudo aquilo era errado. Ela não devia estar aqui. Não no meio disso. Não comigo. Mais um disparo ecoou do lado de fora, seguido de uma sequência rápida. Automática. Sem pausa. Respondi no rádio imediatamente. — Fala. — Movimento na entrada de baixo — a voz do Caio veio cortada, tensa — Três motos, dois carros. Estão testando. Claro que estavam. Brandão não era burro. Ele não ia vir de frente sem antes medir o terreno. — Mantém posição. Ninguém avança sem minha ordem. — E se eles tentarem forçar? Apertei o maxilar. Olhei rapidamente na direção da porta atrás de mim. — Não vão passar. Soltei o rádio antes que ele respondesse. Porque, no fundo…aquilo não era só uma ordem. Era uma promessa. Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço pesar. Não era físico. Ou talvez fosse também. Mas o que realmente incomodava era outra coisa. Era ela. Aurora. A forma como ela me olhou lá fora. A forma como respondeu. Sem medo… ou, pelo menos, sem deixar o medo mandar. Aquilo não combinava com o lugar. Nem com a situação. E, ainda assim…ela não recuou. Soltei um riso baixo, sem humor. — Você se meteu onde não devia… — murmurei pra mim mesmo. Mas não era só culpa dela. Eu sabia disso. Fui até a sala, pegando uma das armas da estante. Verifiquei o carregador por puro hábito. Tudo no lugar. Tudo sob controle. Ou quase. Encostei na parede, próximo à janela, observando o movimento lá fora através da fresta da cortina. Os caras estavam inquietos. Circulando. Testando limite. Esperando uma brecha. Brandão queria mandar um recado. E eu sabia exatamente qual era. Ele poderia querer ela. E, por consequência…ia ter que passar por mim. Outro tiro. Dessa vez mais distante. Talvez recuando. Talvez reposicionando. Nada ali era por acaso. Nada era impulsivo. Era um jogo. E eu conhecia bem demais esse tipo de jogo O rádio chiou de novo. — Dante… Fechei os olhos por um segundo antes de responder. — Fala. — Tem gente perguntando da menina. Fiquei em silêncio. — Quem? — O pessoal… tão achando estranho você trazer alguém pra dentro. Claro que estavam. Eu nunca fazia isso. Nunca. — Fala que não é da conta deles. — Já falei. — Então fala de novo. O silêncio do outro lado durou alguns segundos. — Isso vai dar problema. — Já deu. Desliguei. Sem paciência. Sem tempo. Sem margem pra erro. Passei a mão na nuca, tentando aliviar a tensão que só aumentava. Eu devia manter distância. Era o certo. Era o lógico. Mas, toda vez que eu fechava os olhos…via ela ali na sala. O jeito que se encolheu com o tiro. Mas, ao mesmo tempo… o jeito que enfrentou tudo depois. Contraditória. Frágil e forte ao mesmo tempo. E isso… isso era perigoso. Porque gente assim não quebra fácil. Mas quando quebra…leva tudo junto. Soltei o ar devagar e me afastei da janela. Caminhei até o corredor de novo. Parei em frente à porta do quarto. Fiquei ali. Sem bater. Sem entrar. Só… ouvindo. Nenhum som. Nenhum movimento. Aquilo devia ser bom. Significava que ela estava quieta. Descansando. Ou pelo menos tentando. Mas, ainda assim… alguma coisa me incomodava. Passei a mão no rosto de novo, irritado comigo mesmo. — Você tá fazendo merda — falei baixo. Porque eu sabia. Desde o começo. Trazer ela pra cá não era só um risco externo. Era interno também. Abri a porta sem fazer barulho. Devagar. O quarto estava na penumbra. Ela estava deitada, exatamente como deixei. Mas não estava dormindo. Os olhos abertos, fixos no teto. Perdida em algum pensamento. Ela virou o rosto assim que percebeu minha presença. Não se assustou. Só… me olhou. — Achei que você não fosse voltar. Fechei a porta atrás de mim. — Eu falei que ia ficar lá fora. — Isso não impede de entrar. Justo. Encostei no batente, mantendo uma certa distância. — Tá tudo bem? Pergunta i****a. Mas foi o que saiu. Ela soltou um riso fraco. — Depende do conceito de “bem”. Assenti. — Justo. O silêncio caiu entre a gente. Mas não era o mesmo de antes. Não era pesado. Era… estranho. Como se a gente estivesse tentando entender o lugar do outro ali. — Tá piorando lá fora? — ela perguntou. Olhei rapidamente pra janela. — Ainda não. Ela se sentou na cama, passando a mão pelos braços. — Mas vai. Não era uma pergunta. Era uma constatação. — Vai. Outro silêncio. Ela desviou o olhar por um momento, como se estivesse organizando os próprios pensamentos. — Ele vai vir, não vai? Eu não precisei perguntar quem era “ele”. — Vai. Ela assentiu devagar. Sem drama. Sem desespero. Aquilo me incomodou mais do que qualquer reação exagerada. — Você devia estar com medo. Ela levantou o olhar pra mim. — Eu tô. — Não parece. Ela deu de ombros. — Você também não parece. Aquilo…me fez travar por um segundo. Porque ela estava certa. E odiava quando alguém percebia. — Eu aprendi a esconder. — Eu também. As palavras vieram rápidas. Naturais. Como se ela nem tivesse pensado antes de falar. E, naquele momento…alguma coisa mudou. Sutil. Mas mudou. Afastei o olhar primeiro. — Isso não é bom. — Eu sei. Ela respondeu baixo. Cruzou os braços, respirando fundo. — Dante… A forma como ela falou meu nome…não era acusação. Não era medo. Era… outra coisa. — Isso vai acabar como? Pergunta simples. Resposta complicada. Passei a mão na nuca, olhando pro chão por um instante antes de encarar ela de novo. — Com ele desistindo… — Ou? — Ou alguém não saindo daqui. O silêncio veio pesado dessa vez. Ela absorveu a resposta. Sem fugir. Sem quebrar. Só… aceitando a realidade. — E você tá disposto a ir até o fim? Dei um passo à frente sem perceber. — Já fui até o fim faz tempo. Ela me encarou por alguns segundos. Como se estivesse tentando entender algo além das palavras. — E eu? A pergunta foi baixa. Mas direta. — Você vai sair disso. — Tem certeza? Aproximei mais um passo. Agora a distância entre a gente era mínima de novo. — Tenho. — Baseado em quê? Segurei o olhar dela. Firme. — Em mim. O silêncio que veio depois… não era desconfortável. Era carregado. De significado. De tensão. De algo que nenhum dos dois queria nomear. Ela desviou o olhar primeiro. Respirando fundo. — Isso é perigoso. — Eu sei. — Confiar assim… — Eu sei. Ela soltou um riso fraco. — Você sempre responde como se já soubesse de tudo. Inclinei levemente a cabeça. — Porque geralmente eu sei. — Arrogante. — Realista. Ela balançou a cabeça, mas um quase sorriso apareceu. Pequeno. Rápido. E desapareceu. Mas eu vi. E isso foi o suficiente pra bagunçar mais ainda o que já não tava no lugar. O rádio chiou de novo. Alto. Interrompendo tudo. — Dante! Movimento agora! Eles tão subindo! Fechei os olhos por um segundo. Era isso. O momento. Olhei pra Aurora. Ela já estava de pé. Tensa. Mas firme. — Fica aqui. — Eu não— — Aurora. Interrompi. Mais firme. Mais direto. — Fica. Ela hesitou. Os olhos travados nos meus. — Você volta? Pergunta simples. Mas carregada. Segurei o olhar dela por um segundo a mais do que devia. — Volto. Ela assentiu. Devagar. — Tá. Dessa vez, sem discussão. Sem confronto. Só… confiança. E isso…isso pesou mais do que qualquer responsabilidade que eu já tive. Saí do quarto, fechando a porta atrás de mim. O clique da fechadura ecoou. Mas diferente de antes… agora parecia um compromisso. Não uma prisão. Peguei a arma de novo. Carregada. Pronta. Meu olhar endureceu. O corpo respondeu automático. Focado. Preciso. Mas, lá no fundo… tinha algo diferente. Algo que não podia existir naquele tipo de situação. Algo que eu não podia carregar pra fora daquela casa. Mas já era tarde. Porque, pela primeira vez em muito tempo… não era só território que eu estava defendendo. Era alguém. E isso… mudava tudo.
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