No controle

1032 Palavras
(POV Dante) O som do portão de ferro sendo atingido ecoou pela viela como um aviso. Não era mais teste. Era ataque. Atravessei o corredor em passos firmes, a arma já posicionada, a mente fria — ou pelo menos tentando ser. Cada detalhe ao redor parecia mais nítido, mais preciso. O tipo de foco que só aparece quando tudo pode dar errado a qualquer segundo. Assim que cheguei na sala, a porta foi aberta de uma vez. — Finalmente — Coringa entrou primeiro, o sorriso torto de sempre no rosto, mas os olhos atentos — Achei que tu ia deixar a gente brincar sozinho. Atrás dele vieram KM e Cabeça. KM já entrou falando: — Os caras tão vindo com tudo lá de baixo, Dante. Não é só intimidação não. Cabeça, mais quieto, só fechou a porta com força e travou. — Tem mais gente do que a gente esperava — completou ele, direto. Assenti, absorvendo rápido. — Quantos? KM passou a mão no boné, nervoso. — Uns dez… talvez mais. E armados pesado. Coringa soltou um riso baixo. — Brandão resolveu gastar hoje, hein? Meu maxilar travou. — Ele não tá gastando. Tá tentando mandar mensagem. Coringa inclinou a cabeça. — E qual? Olhei direto pra ele. — Que consegue pegar o que quiser. O sorriso dele diminuiu. — Então ele tá mirando alto. — Tá. O silêncio que veio depois foi curto, mas suficiente. Porque todo mundo ali entendeu. Não era sobre território. Era sobre ela. KM foi o primeiro a falar de novo: — E a enfermeira? Antes que eu respondesse, Coringa soltou: — Tá escondida, né? Porque, irmão… trazer civil pra dentro no meio disso aqui— — Chega. Minha voz saiu mais firme do que alta. O suficiente. Coringa levantou as mãos em rendição, ainda com aquele meio sorriso. — Relaxa. Só tô tentando entender o roteiro. — Não precisa entender. Só precisa fazer o teu trabalho. O clima pesou. Mas Cabeça quebrou antes que piorasse. — Eles tão avançando pelo beco lateral também. Olhei pra ele. — Dividiram? — Sim. Assenti devagar. — Querem cercar. KM soltou um xingamento baixo. — Filhos da— — Não completa — Coringa cortou, divertido — energia negativa atrai bala. Mesmo na tensão…aquele i****a ainda fazia piada. Passei a mão no rosto rapidamente, voltando ao foco. — KM, tu fica na frente com o pessoal. Segura o portão. — Fechou. — Cabeça, sobe pro ponto mais alto. Quero visão geral. Se eles tentarem entrar pelos fundos, tu avisa antes. Ele assentiu. — Já tô indo. — Coringa… Ele abriu um sorriso maior. — Sabia que eu era especial. — Você vem comigo. O sorriso virou outra coisa. Mais sério. — Bora. Os outros dois saíram rápido, cada um seguindo sua função. Fiquei por um segundo em silêncio. Respirando. Sentindo o peso daquilo tudo. Mas, dessa vez…não era só estratégia. Meu olhar desviou automaticamente pro corredor. Pro quarto. Pra porta fechada. Aurora. — Dante. A voz do Coringa me puxou de volta. — Se tu travar agora, já era. Pisguei uma vez. — Eu não vou travar. Ele me encarou por um segundo a mais. Como se estivesse tentando ler algo além. — Espero que não. Não respondi. Porque, pela primeira vez em muito tempo… eu não tinha 100% de certeza. Saímos pela porta lateral, entrando direto na viela. O ar estava pesado. Cheiro de pólvora. Tensão. E guerra. Os primeiros disparos vieram quase instantaneamente. — Contato! — alguém gritou. Me posicionei atrás de uma mureta, revidando sem hesitar. O corpo entrou no automático. Movimento. Precisão. Controle. Coringa estava ao meu lado, rindo baixo enquanto atirava. — Agora sim ficou divertido! — Foca! — rosnei. — Tô focado! Mais tiros. Mais gritos. Os caras estavam avançando rápido. Mais do que eu queria. — KM! — gritei. — Tô segurando! — a resposta veio de longe, mas firme. Outro disparo passou raspando perto demais. — Eles tão tentando flanquear! — Coringa avisou. Eu já tinha percebido. — Vem comigo! Nos movemos rápido, avançando por um dos becos laterais. Dois homens apareceram na curva. Não hesitei. Dois disparos. Ambos caíram. O silêncio que veio depois durou menos de dois segundos antes de mais passos ecoarem. — Tá vindo mais! — Coringa avisou. — Eu sei. Mas, no meio de tudo…no meio do caos… minha mente traiu. Por um segundo. Só um. Imagem dela. Sozinha no quarto. O som dos tiros ecoando. O medo que ela tentava esconder. A confiança que ela demonstrou. A pergunta: “Você volta?” Apertei o gatilho com mais força do que precisava. Errado. Foco. Volta. — Dante! A voz do Coringa me puxou de volta de novo. — Tá com a cabeça onde?! Reagi a tempo de me abaixar de um disparo. Respirei fundo. — Aqui. — Não parece! — Então para de falar e atira! Ele riu. — Aí sim. Mais movimentação. Mais pressão. Mas algo mudou. Eles não estavam só tentando entrar. Estavam desesperados. — Eles tão forçando demais — Coringa comentou. — Porque tão ficando sem tempo. — Ou sem paciência. Ou os dois. O rádio chiou no meu ouvido. — Dante! — Cabeça — tem mais dois carros subindo! Droga. — Quantos? — Não sei, mas não é pouca gente! KM entrou na comunicação logo depois: — A gente não vai segurar isso por muito tempo! Olhei ao redor. Calculei rápido. Opções. Saídas. Consequências. E, no meio disso tudo…uma certeza. Se eles passassem…iam direto pra casa. Direto pra ela. — Ninguém recua — falei firme. — Dante… — KM começou. — Ninguém recua! O silêncio que veio depois foi aceitação. Confiança. Ou loucura. Talvez os três. Coringa olhou pra mim de lado. — Tu tá defendendo território… Ele pausou. Depois completou, mais baixo: — Ou outra coisa? Não respondi. Porque ele já sabia. E eu também. Mais tiros. Mais avanço. Mas, dessa vez…a gente não cedeu. Porque eu não ia deixar. Não dessa vez. Não com ela ali. — Vambora! — gritei, avançando. E, pela primeira vez em muito tempo…eu não estava lutando só pra manter o controle do complexo. Eu estava lutando pra não perder alguém. E isso…isso me tornava muito mais perigoso.
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